O avanço do trabalho remoto, dos modelos híbridos, da conectividade digital e das novas soluções de mobilidade está redesenhando a relação entre moradia, trabalho e deslocamento nas grandes cidades. A combinação dessas transformações pode ajudar a enfrentar um dos principais desafios da vida urbana contemporânea: a disputa pelo tempo.
Essa foi a principal conclusão do painel Onde o trabalho acaba e a cidade começa, realizado durante a SP2B, em São Paulo, com participação da superintendente técnico-social do Sesc, Rosana Cunha, e do CEO da FlixBus, Edson Lopes.
Os painelistas defenderam que a tecnologia deve ser utilizada para reduzir deslocamentos desnecessários, simplificar atividades burocráticas e ampliar as possibilidades de escolha das pessoas. O objetivo não seria substituir a vida urbana por experiências digitais, mas justamente criar condições para que a população usufrua mais intensamente dos espaços físicos da cidade.
Nesse contexto, o teletrabalho aparece como uma ferramenta importante para racionalizar a ocupação dos centros urbanos, reduzir a pressão sobre os sistemas de transporte e devolver tempo aos trabalhadores. Segundo Edson Lopes, ainda existe um amplo espaço para expansão dessa modalidade.
O executivo citou dados do Ipea segundo os quais cerca de 27 milhões de postos de trabalho seriam compatíveis com modelos remotos ou híbridos, enquanto atualmente aproximadamente 8 milhões de pessoas atuam nessas modalidades. “Grande parte da força de trabalho passa mais de duas horas por dia nos deslocamentos”, lembrou.
Benefícios para trabalhadores e para a cidade
Para Lopes, a experiência dos últimos anos demonstrou que o trabalho remoto pode trazer ganhos importantes para diferentes grupos da população e para a dinâmica urbana como um todo. “As mulheres que trabalham e têm filhos sentem uma enorme diferença com a alternativa de trabalho remoto. A demanda por transporte público também foi desafogada”, reconheceu.

A redução de deslocamentos diários pode produzir efeitos que vão além do conforto individual. Menos viagens significam menor pressão sobre os sistemas de transporte, redução de congestionamentos, ganhos ambientais e mais tempo disponível para atividades pessoais, familiares, culturais e de lazer.
Ao mesmo tempo, os participantes destacaram que a distribuição desses benefícios ainda é desigual. Rosana Cunha observou que justamente as faixas de renda com menor acesso ao trabalho remoto ou híbrido são aquelas que enfrentam maiores dificuldades de deslocamento e acesso às oportunidades urbanas.
Segundo a executiva do Sesc, trabalhadores com renda entre um e cinco salários mínimos continuam mais dependentes da circulação física pela cidade, o que amplia desigualdades relacionadas ao uso do tempo e ao acesso a serviços.
Os limites do home office
Embora reconheça as vantagens do trabalho remoto, Lopes pondera que a modalidade não substitui integralmente as interações presenciais.
Segundo ele, muitas empresas perceberam que parte do aprendizado informal, especialmente entre profissionais em início de carreira, depende da convivência cotidiana e das trocas espontâneas que ocorrem nos ambientes de trabalho. O executivo citou o exemplo de grandes empresas de tecnologia que identificaram uma desaceleração no aprendizado e no entrosamento de novos funcionários após longos períodos de trabalho remoto.
A avaliação dos painelistas é que a discussão não deve se concentrar em uma oposição entre presencial e remoto, mas na busca por modelos que utilizem a tecnologia para tornar a vida urbana mais eficiente e equilibrada.
Cidade para viver, não apenas para circular
A reflexão sobre o uso do tempo levou o debate para uma questão mais ampla: como fazer com que as cidades sejam espaços de convivência e não apenas ambientes de deslocamento entre casa e trabalho.
Para Rosana Cunha, isso exige ampliar o acesso da população a opções culturais, esportivas e de lazer compatíveis com a realidade econômica da maioria dos brasileiros. “Se alguém com dois ou três filhos pensar em ir ao cinema, o custo de ingresso e transporte já é insustentável. Com a pipoca, o custo fica proibitivo”, constatou.
O tema também apareceu na discussão sobre mobilidade. Lopes defendeu que o transporte deve ser planejado não apenas com foco na viabilidade econômica, mas como instrumento de inclusão social. O CEO da FlixBus enfatiza que apoia os programas de gratuidade no transporte de longa distância. “No Centro-Oeste, há pessoas que precisam rodar 800 km para ir a um hospital público. Nós temos um papel importante a cumprir”, afirmou.
Referindo-se ao transporte urbano, acrescentou: “O modelo de licitação hoje é muito focado na viabilidade econômica. Temos que garantir o atendimento a todos”.
Segundo o executivo, ao se aprofundar o entendimento das demandas, podem-se identificar oportunidades inclusivas e sustentáveis. “Quando a iniciativa privada anda junto à população, o empresário lucra, mais gente tem acesso e o governo faz boa política pública”, resumiu.
Conectividade para devolver tempo à convivência
Embora a tecnologia tenha sido apontada como parte da solução, os painelistas alertaram para o risco de transformar a digitalização em um fim em si mesma.
Rosana Cunha defendeu que a inclusão digital deve caminhar ao lado da valorização dos espaços de convivência presencial. “É importante oferecermos espaços de acesso digital e também criar momentos de desconexão. Não é interessante ficar olhando uma telinha quando se vai a um parque”, disse.

A executiva observou ainda que o uso descontextualizado das tecnologias pode produzir uma espécie de autoisolamento social. “Há pessoas que reclamam por não poderem gravar os shows. Aqui não; um espetáculo ao vivo é para ser vivido presencialmente”, exemplificou.
Lopes, que além de executivo trabalha como músico, revelou sua perplexidade em relação ao hábito de o público gravar as apresentações.
Para o CEO da FlixBus, a principal contribuição da tecnologia está justamente na capacidade de eliminar barreiras operacionais que consomem tempo e energia das pessoas.
“A tecnologia é muito boa para nos devolver o tempo gasto com logística ou burocracia. A conveniência é excelente, mas a digitalização não é um fim. À medida que a cidade deixa de ser o entrave, pode ser a grande solução para convivência e qualidade de vida.”
A síntese do debate aponta para uma visão em que conectividade, teletrabalho, mobilidade inteligente e serviços digitais não substituem a cidade. Ao contrário: quando utilizados para reduzir deslocamentos desnecessários e ampliar a liberdade de escolha, esses recursos podem ajudar a recuperar o espaço urbano como ambiente de encontro, cultura, convivência e qualidade de vida.
