A indústria de televisão passou da alta previsibilidade para um ambiente de incertezas: as decisões de hoje podem estar desatualizadas em seis meses, comprometendo investimentos e estratégias. O avanço do streaming tornou a situação ainda mais desafiadora.
Gestores de tecnologia e especialistas em nuvem, conectividade, automação e inteligência artificial se reuniram no congresso SET EXPO 2026 para discutir caminhos que permitam manter as empresas de comunicação competitivas.
Durante o painel “Da Conectividade à Infraestrutura Inteligente”, Thiago Perrella, diretor de Engenharia e Tecnologia do Grupo Bandeirantes, descreveu a atual rotina de uma grande emissora. Com um volume expressivo de produção diária de jornalismo e entretenimento, o conteúdo precisa ser gerado, adaptado e distribuído quase instantaneamente não só para a grade linear (TV aberta), mas também para o ecossistema digital, redes sociais e canais de streaming.

“Não produzimos apenas para a TV aberta. Precisamos atender o telespectador onde quer que ele esteja, seja no celular, no rádio ou no ambiente digital, ajustando formatos (horizontal ou vertical) e formatos de entrega de maneira ágil”, explicou. Esse cenário exige o desenvolvimento de fluxos de produção dinâmicos.
Para acelerar esta infraestrutura, é necessário automatizar e antecipar processos — da chegada dos vídeos e demais arquivos de mídia à análise constante dos recursos disponíveis e da audiência conquistada, explica Noor Hassan, Worldwide Partner Solutions Architect, Media & Entertainment da Amazon Web Services (AWS). Segundo a executiva, o segredo está em transformar ferramentas isoladas em um ecossistema integrado e reativo.
Complementando a visão dos fornecedores de tecnologia, Eliésio Silva Júnior, diretor de vendas da MediaKind, destacou que a infraestrutura deve ser agnóstica e adaptável ao tipo de programação ou ao negócio demandado. “A tecnologia não é mais o grande gargalo. O desafio agora é desenhar uma arquitetura flexível para suportar novos modelos de receita sem gerar retrabalho nem desperdício de investimento”, pontuou.

Nuvem como ferramenta estratégica
O painel também se dedicou a desmistificar o uso da nuvem nas emissoras de TV. Noor Hassan afirmou que a nuvem não deve ser vista como um fim em si mesma, mas sim como um veículo ou uma caixa de ferramentas. Ela permite às empresas de mídia realizar experimentos e inovar com agilidade, sem a necessidade de adquirir infraestruturas caras, que podem se tornar obsoletas rapidamente.

Ao abordar o arquivamento e a monetização de acervos, Noor defendeu que manter grandes volumes de dados armazenados na nuvem facilita o uso de inteligência artificial para catalogação e criação automática de novas edições de conteúdo, gerando novas fontes de receita com vídeos antigos.
Nuvem, on-premise ou híbrido?
Quando questionado sobre o modelo ideal para as emissoras — nuvem pública, on-premise ou nuvem híbrida —, Thiago Perrella foi pragmático: “Depende do bolso e da aplicação”. A resposta reflete a realidade das grandes operações. Para o gerenciamento diário de arquivos pesados, com centenas de horas de vídeo bruto em alta resolução, o custo contínuo de transferência e armazenamento em nuvem pública ainda pode ser proibitivo. Nesses casos, o modelo híbrido se consolida como a melhor solução.
Como se manter competitivo
A transição para uma infraestrutura inteligente não é apenas uma escolha tecnológica, mas uma decisão sobre o modelo de negócio mais adequado a um mercado de extrema competição. À medida que a concorrência se intensifica, a exigência por tráfego IP nativo, segmentação de anúncios e personalização da experiência do usuário torna impossível a manutenção de estruturas tradicionais. Fica o dilema: como investir sem errar?
O painel SET EXPO deixou claro que a nova estrutura – o backbone – do broadcast combina conectividade robusta, possibilidade de expandir o uso da nuvem conforme a necessidade e automação guiada por IA. Ao adotar esse ecossistema, as empresas de mídia podem reduzir o capital empenhado na manutenção de equipamentos e focar na criação de conteúdo e em novas oportunidades de negócios.
*Especial para o Próximo Nível
