“Mais do que máquinas, precisamos de humanidade”, parte do discurso de Charles Chaplin em “O grande ditador” foi resgatado durante o painel “Novas lideranças na era da IA: como a tecnologia e inteligência humana estão transformando as empresas”, no Rio Innovation Week. Com esse recorte, a conselheira para C-level no Linkedin, Carolina Dostal, resumiu a ideia de que o executivo mais preparado não é aquele que sabe de tudo, mas que cultiva e fortalece aquilo que o torna humano. Em um cenário em que tecnologias alimentadas por grandes volumes de dados oferecem respostas a qualquer pergunta, virtudes e repertório humano são diferenciais da liderança na era da IA.
Embora tenha ganhado força com o avanço da inteligência artificial, o CDO da Claro, Rodrigo Duclos, afirmou que a mudança na maneira de liderar começou no início da transformação digital. Duclos comparou o processo a uma terapia, que exige tempo para avaliação e pequenas mudanças de comportamento, nem sempre permanentes. Isso, em uma escala maior, de inúmeros líderes, tende a ser ainda mais complexo. Segundo o executivo, a forma de comando e ação preservada até então funcionava em um cenário mais estável. Com a disrupção da tecnologia, a maneira mais adequada de liderar, para Duclos, é assumindo o papel de guia.
Nesse novo modelo, competências como curiosidade, humildade, capacidade de julgamento e adaptação ganham relevância justamente por serem atributos que a tecnologia não substitui na liderança.
Mudança de comportamento

Em outra alusão ao passado, Carolina lembrou que fábricas estruturadas verticalmente levaram cerca de 30 anos para redesenhar seus processos após a introdução dos motores elétricos. O exemplo ilustra a dificuldade que é se adaptar quando os modelos já estão consolidados. Ao tratar de pessoas, essa mudança pode ser ainda mais complicada.
O vice-presidente de Gente, Tecnologia e ESG da Vibra Energia, Aspen Andersen, trouxe como case a experiência da própria empresa na condução dessa nova liderança. O trabalho é feito com base em dois pilares: reforço da necessidade de experimentação e humildade. Com aplicações tecnológicas crescendo rapidamente, é inviável dominá-las em sua totalidade. Por isso, a experimentação se tornou um pilar para identificar quais aplicações se encaixam melhor no modelo de negócio e otimizam a operação.
A humildade também deve ser trabalhada, uma vez que líderes com uma carreira já consolidada podem se deparar com situações nas quais profissionais em início de carreira dominem determinadas tecnologias mais do que líderes experientes.
O valor das pausas na era da IA
As transformações que a inteligência artificial provoca afetam o negócio, a produtividade e a vida pessoal dos funcionários. Por isso, Andersen enfatizou que uma das poucas certezas na discussão da IA é de que não somos máquinas. Nesse sentido, a busca incessante por produtividade tem feito com que as pausas sejam negligenciadas. Pausas essas que não se referem exclusivamente às férias, mas também aos pequenos momentos de “inatividade” do dia a dia. O caminho para o restaurante, o café na copa da empresa e o silêncio ao chegar em casa – antes de desabafar com alguém em casa – devem ser resgatados, na avaliação de Andersen.
Aliado a isso, a criação de agentes que agrupam “virtudes” almejadas, como a serenidade, em um shadow board, auxilia os líderes como conselheiros próprios. Outra medida para estar mais preparado para a IA e pensar o negócio sob novas perspectivas é trazer profissionais da área de tecnologia para comitês executivos.
Em contraponto à conotação negativa associada ao “impacto da IA”, Duclos destacou a “oportunidade gigantesca” de vivenciar uma transformação comparável à provocada pela introdução da energia elétrica. Transformar a angústia desse momento em curiosidade é uma das características que distinguem os novos líderes. Carolina complementou Duclos com a ideia de que o “antídoto da era da IA é se responsabilizar, não se vitimizar”.
