Estrutura de computação quântica dourada suspensa sobre um prédio clássico de banco, com gráficos financeiros e um globo ao fundo Ilustração digital

A computação quântica preocupa os bancos? 

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A tecnologia ainda está em desenvolvimento, mas seus possíveis impactos sobre criptografia, cibersegurança, análise de dados e gestão de riscos já levam instituições financeiras a discutir estratégias de preparação



Por Redação em 12/08/2026

A computação quântica ainda não faz parte da infraestrutura cotidiana dos bancos, mas já entrou no radar do setor financeiro. A razão está menos na capacidade atual dessas máquinas e mais no potencial de transformar a forma como são enfrentados problemas que hoje exigem enorme poder computacional, inclusive aqueles relacionados à segurança de dados, criptografia, otimização e análise de riscos. Esse cenário estará entre os temas do Febraban Tech 2026, que acontece de 24 a 26 de agosto, no Distrito Anhembi, em São Paulo.

Na programação oficial, a computação quântica aparece em duas frentes. A trilha “Inovação resiliente: cloud, data centers e a nova engenharia do setor” inclui a tecnologia entre as arquiteturas que podem redefinir a infraestrutura do sistema financeiro. Já a trilha “Tecnologias em ascensão reprogramam os setores” trata diretamente dos caminhos tecnológicos da computação quântica e de seus possíveis efeitos sobre cibersegurança, risco e investimentos.

O tema também terá um painel específico: “IA + computação quântica: os novos horizontes da inteligência financeira”, marcado para 26 de agosto, às 15h50, no Auditório Febraban Amarelo. Participam Alexis Aguirre, Head Cyber Security for Latin America da Tata Consultancy Services; Celso Villas-Boas, professor titular da UFSCar; e Samuraí Brito, Head de Tecnologias Quânticas e Data Science Manager do ICTi do Itaú Unibanco. A mediação será de Gustavo Paul Kurrle, diretor-adjunto de Comunicação da Febraban.

Por que a computação quântica interessa aos bancos?

Imagem gerada digitalmente

A principal preocupação não é que os bancos precisem substituir seus computadores atuais por máquinas quânticas. A questão está no impacto que computadores quânticos suficientemente avançados poderão ter sobre sistemas criptográficos utilizados atualmente.

A criptografia está presente em diferentes camadas da infraestrutura financeira digital e ajuda a proteger comunicações, autenticar identidades e preservar informações sensíveis. O avanço da computação quântica pode colocar parte desses mecanismos sob pressão porque determinados algoritmos quânticos podem resolver problemas matemáticos que sustentam sistemas criptográficos atuais de maneira muito mais eficiente do que computadores convencionais.

O National Institute of Standards and Technology (NIST), dos Estados Unidos, recomenda que as organizações iniciem desde já a migração para algoritmos resistentes à computação quântica. A instituição publicou, em 2024, três padrões de criptografia pós-quântica: FIPS 203, FIPS 204 e FIPS 205.

Isso ajuda a explicar por que o assunto interessa ao sistema financeiro antes mesmo de existir um computador quântico capaz de romper, em escala prática, os mecanismos de proteção utilizados atualmente.

A ameaça está no futuro, mas a preparação começa agora

Um dos desafios da chamada criptografia pós-quântica (PQC) é justamente o tempo necessário para atualizar grandes ambientes tecnológicos. Bancos operam sistemas distribuídos, aplicações legadas, serviços em nuvem, dispositivos, APIs e diferentes camadas de infraestrutura. A substituição de algoritmos criptográficos, portanto, não é uma simples troca de software. 

O próprio NIST destaca que a migração deve começar antes da existência de um computador quântico capaz de representar uma ameaça concreta. A recomendação inclui identificar sistemas que utilizam criptografia, mapear dependências e planejar a substituição dos mecanismos vulneráveis.

Existe ainda uma questão relacionada à longevidade dos dados. Informações financeiras precisam, em muitos casos, permanecer protegidas por longos períodos. Dados capturados hoje podem, em determinadas circunstâncias, ser armazenados e posteriormente descriptografados caso surja uma capacidade computacional suficiente, um risco frequentemente associado ao conceito de “harvest now, decrypt later”.

Para instituições financeiras, isso transforma a computação quântica em uma questão de planejamento de segurança, e não mais somente de pesquisa tecnológica. Embora os conceitos estejam relacionados, computação quântica e criptografia pós-quântica não são a mesma coisa. A computação quântica utiliza princípios da mecânica quântica para processar informações de uma maneira diferente da computação clássica. Seu potencial está associado à resolução de determinados problemas que podem ser difíceis ou inviáveis para computadores convencionais.

Já a criptografia pós-quântica busca desenvolver algoritmos que possam ser executados em computadores convencionais, mas que sejam resistentes a ataques realizados por futuros computadores quânticos. 

Essa distinção é importante para o setor bancário: preparar-se para a era quântica não significa necessariamente adquirir um computador quântico, mas sim adaptar a infraestrutura digital para continuar protegendo dados e transações diante de uma nova capacidade de processamento.

Mas afinal, onde estão as oportunidades para os bancos?

O debate não se resume à segurança. A programação do Febraban Tech 2026 também relaciona a computação quântica a novas possibilidades de análise, investimentos e inteligência financeira.

Em tese, computadores quânticos podem contribuir para problemas de otimização e simulação particularmente complexos. No setor financeiro, isso pode envolver áreas como:

  • gestão de riscos, com modelos mais sofisticados de cenários;
  • otimização de carteiras, considerando múltiplas variáveis e restrições;
  • precificação e modelagem financeira;
  • detecção de padrões e análise de grandes conjuntos de dados;
  • simulações para tomada de decisão;
  • otimização de operações e infraestrutura.

Isso não significa que essas aplicações já estejam maduras ou sejam necessariamente superiores às soluções tradicionais. A própria organização do evento trata a computação quântica como uma tecnologia em ascensão, ao lado de diferentes arquiteturas e caminhos tecnológicos, e não como uma solução já consolidada.

Uma agenda maior de transformação

A presença do tema no Febraban Tech 2026 também revela uma característica importante da transformação tecnológica dos bancos: as diferentes tecnologias já não são discutidas de forma isolada. O mesmo evento que debate computação quântica coloca em pauta agentes de IA, engenharia de contexto, dados em tempo real, cloud computing, data centers, identidade digital, cibersegurança, Open Finance e novas infraestruturas de pagamentos.

Essa convergência aparece de forma clara quando computação quântica e inteligência artificial são colocadas no mesmo painel. A discussão não é mais sobre o que cada tecnologia faz individualmente, mas sobre como diferentes capacidades computacionais podem alterar a forma como instituições financeiras analisam informações, automatizam processos e protegem seus sistemas.

O movimento é coerente com a evolução mais ampla dos investimentos em tecnologia no setor. Conforme os dados da Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026, os investimentos e gastos em tecnologia dos bancos devem chegar a R$ 50,4 bilhões em 2026, ante R$ 46,8 bilhões em 2025. A inteligência artificial é apontada como prioridade de investimento por 80% das instituições. Assim, a computação quântica ainda ocupa um espaço diferente da IA generativa: não é uma tecnologia de adoção massificada, mas uma fronteira que pode exigir preparação antecipada.

Para os bancos, a questão não se resume a saber quando computadores quânticos alcançarão capacidade suficiente para representar uma ameaça. O desafio é avaliar desde já quanto tempo será necessário para adaptar sistemas, protocolos e mecanismos de proteção a esse novo cenário tecnológico. 

Essa preparação passa pelo mapeamento dos recursos criptográficos utilizados pelas instituições, pela atualização de protocolos, pelos testes de novos algoritmos, pela avaliação de fornecedores e sistemas legados e pela definição de estratégias de migração. 

O movimento já está em andamento internacionalmente: em 2025, o NIST selecionou o algoritmo HQC para complementar os padrões de criptografia pós-quântica que vêm sendo desenvolvidos para proteger sistemas digitais diante de futuros ataques quânticos.

No setor financeiro brasileiro, essa discussão se soma a uma agenda de segurança cibernética que já envolve requisitos para as instituições autorizadas pelo Banco Central, incluindo políticas de segurança e a contratação de serviços de processamento, armazenamento de dados e computação em nuvem.

Nesse contexto, a computação quântica adiciona uma perspectiva de longo prazo à gestão de riscos. A preocupação não está apenas em responder às ameaças conhecidas, mas em garantir que os sistemas utilizados hoje continuem capazes de proteger dados e transações diante de avanços tecnológicos que ainda estão em desenvolvimento.



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