Imagine uma cidade pequena, com poucos moradores, trânsito fluído, mas que em pouco tempo passou a conviver com trânsito intenso. A ideia de que todos se movimentavam no mesmo horário soava improvável, e era. Em um primeiro momento, sem saber o que de fato estava causando o problema, os governantes estudavam alternativas de transporte que pudessem amenizar o problema. Mas, com o auxílio de dados anonimizados de telefonia móvel foi possível descobrir que o congestionamento era provocado, na verdade, pela passagem de motoristas de outras localidades, direcionados por aplicativos de GPS, como forma de cortar caminho e economizar cerca de quatro minutos. A solução encontrada? Um sinal de trânsito na entrada da cidade. Dessa maneira, o GPS entendia que essa rota já não era tão vantajosa.
O ponto central desse caso apresentado no painel “A cidade que se move: como os dados de mobilidade e telefonia móvel combinado com IA estão transformando o planejamento urbano”, durante o Rio Innovation Week, é o potencial dos dados de telefonia para compreender a circulação das pessoas e apoiar o planejamento urbano.
O painel, que contou com a participação do Head de Open Innovation da Claro, João Bosco, do Head of Sales da Claro, João Del Nero, e do Operation Manager da Kido Dynamics, Gabriel Junqueira, levantou uma série de aplicações nas quais os dados de telefonia móvel podem ser utilizados para otimizar a dinâmica das cidades. Como parte de uma inteligência urbana, os dados podem ser categorizados em quatro pilares: (1) mobilidade, (2) turismo, (3) localização e (4) out of home.
Em mobilidade, o objetivo é decodificar o fluxo de pessoas e seus padrões de mobilidade. No turismo, os dados permitem conhecer a origem dos visitantes, o tempo de permanência e os padrões de circulação. Em localização, ajudam a orientar decisões a partir de informações como perfil sociodemográfico e fluxos de pedestres. Já em out of home, permitem compreender as características do público que circula por determinada região e apoiar estratégias comerciais.
Ao contrário de dados estáveis, essas informações conseguem retratar com maior precisão o dinamismo da cidade e como ela se comporta diante de eventos, como por exemplo, o Rio Innovation Week. Em casos mais extremos, como as enchentes no Rio Grande do Sul, eles podem servir como base para criar planos de contingência. Dessa forma, ajudam tanto no planejamento urbano quanto no estudo de eventos. A seguir, estão alguns exemplos de aplicação dos dados móveis por meio do Claro Geodata, que transforma essas informações em uma camada de inteligência para o planejamento urbano.
Dados orientam decisões sobre saúde, educação e mobilidade

Ao revelar de onde as pessoas vêm, para onde vão, em quais horários circulam e quais regiões concentram maior fluxo, os dados de telefonia ajudam gestores públicos a decidir, por exemplo, onde construir novas escolas, hospitais ou infraestruturas públicas. O mesmo princípio pode orientar uma série de mudanças com foco em eficiência, substituindo pesquisas pontuais por uma leitura contínua e atualizada da dinâmica da cidade.
Na área da saúde, os palestrantes destacaram que os dados permitem compreender a origem dos pacientes que procuram um hospital. Em vez de ampliar uma unidade já sobrecarregada, a análise pode revelar que a demanda é consequência da ausência de atendimento em outras regiões da cidade, indicando onde novas unidades de saúde seriam mais necessárias. A mesma lógica pode ser aplicada ao planejamento da educação, identificando áreas que concentram deslocamentos de estudantes e que justificam a instalação de novas escolas.
Os dados também apoiam a organização de grandes eventos, como o Rio Innovation Week, uma vez que a presença de um número grande de visitantes altera o comportamento habitual da região. O gráfico comparativo entre dias comuns e o período do evento evidencia o aumento expressivo da concentração de pessoas, informação que pode orientar o reforço de transporte, segurança, alimentação, estacionamento e demais serviços temporários necessários para atender ao público.
Em situações de emergência, o potencial dos dados se torna ainda mais relevante para planos de contingência. Durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, a análise da mobilidade permitiu acompanhar para onde a população se deslocou após as inundações, identificando as rotas utilizadas, as cidades que receberam maior fluxo de pessoas e as regiões que passaram a concentrar uma população muito superior à habitual. Essas informações auxiliam autoridades a compreender a dinâmica da crise, direcionar e planejar ações emergenciais.
As possibilidades se estendem ainda ao planejamento da mobilidade do futuro. Um dos casos apresentados envolveu o uso dos dados de telefonia para definir a localização das primeiras bases de operação de aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical (eVTOLs), os chamados “carros voadores”, na Região Metropolitana de São Paulo. A análise dos deslocamentos permitiu identificar as áreas com maior potencial de demanda, reduzindo riscos de investimento e apoiando a escolha dos locais mais adequados para instalação da infraestrutura necessária à operação do serviço.
Segundo os especialistas, a tendência é que essas informações passem a ser combinadas com dados provenientes de sensores urbanos, radares, informações climáticas e inteligência artificial, formando um ecossistema capaz de representar a cidade quase em tempo real. O objetivo é oferecer aos gestores públicos uma espécie de “gêmeo digital” do ambiente urbano, permitindo compreender rapidamente o impacto de eventos climáticos, alterações no trânsito ou mudanças no comportamento da população e, assim, tomar decisões mais precisas e baseadas em evidências atualizadas.
