Jozef Síkela, discursando sobre cooperação tecnológica e soberania digital no Future Affairs Forum Jozef Síkela, comissário europeu para Parcerias Internacionais (Foto: © European Union, 2026 / CC BY 4.0)

Brasil e União Europeia ampliam cooperação em tecnologia e regulação 

3 minutos de leitura

Parceria avança em conectividade e governança digital para ampliar oportunidades de desenvolvimento e proteção a direitos



Por Redação em 15/09/2026

A disputa por soberania digital tornou-se um dos principais temas da agenda tecnológica global. Em diferentes regiões do mundo, governos e organismos multilaterais buscam reduzir vulnerabilidades associadas à concentração de infraestrutura, plataformas, dados e capacidade computacional em um número restrito de empresas e países. Ao mesmo tempo, legisladores e instituições públicas procuram desenvolver mecanismos regulatórios capazes de garantir segurança, proteção de direitos e autonomia estratégica sem interromper os fluxos globais de inovação.

Esse contexto esteve no centro das discussões realizadas durante o Future Affairs Forum, promovido no Rio de Janeiro pela Delegação da União Europeia no Brasil e pelo Museu do Amanhã. Durante o evento, o comissário europeu para Parcerias Internacionais, Jozef Síkela, associou a discussão sobre tecnologia à dinâmica geopolítica contemporânea. “O mundo digital segue a mesma lógica da geopolítica. Dependência gera vulnerabilidade”, disse Síkela à CNN Brasil.

Além da dimensão econômica, a discussão se estendeu a debates sobre privacidade, transparência algorítmica, proteção de dados e preservação de processos democráticos diante do avanço da inteligência artificial. Nesse sentido, a embaixadora da União Europeia no Brasil, Marian Schuegraf, chamou atenção para a necessidade de incorporar valores e direitos fundamentais ao desenvolvimento tecnológico. “Nenhuma tecnologia é completamente neutra. A inteligência artificial é construída por pessoas, treinada com dados produzidos por pessoas e orientada por escolhas humanas”, disse Schuegraf à CNN Brasil.

Alianças internacionais

Cooperação em tecnologia: duas mãos apertando um handshake em ambiente corporativo, simbolizando parceria, confiança e colaboração para inovação e projetos tecnológicos.
Foto: MAYA LAB / Shutterstock / Modificada com IA

Um dos pontos enfatizados pelos representantes europeus foi que soberania digital não deve ser confundida com fechamento de mercados ou protecionismo tecnológico.

Síkela argumentou que o fortalecimento de capacidades próprias deve ocorrer em paralelo à construção de alianças internacionais. “A soberania tecnológica não significa isolamento. Significa desenvolver capacidades próprias ao mesmo tempo em que construímos parcerias baseadas na confiança e em benefícios mútuos”, enfatizou.

Essa visão tem orientado a aproximação entre Brasil e União Europeia. Em junho, os dois lados formalizaram uma parceria para ampliar a cooperação em governança de inteligência artificial, infraestrutura pública digital, conectividade, semicondutores, computação de alto desempenho, proteção de dados e inovação científica. Segundo reportagem da CNN Brasil, a iniciativa busca reduzir dependências em áreas estratégicas hoje dominadas principalmente por grandes fornecedores internacionais de tecnologia.

Na ocasião da assinatura do acordo, a ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, relacionou o tema à estratégia brasileira de fortalecimento de capacidades nacionais. “Essa parceria com a UE vem em um momento muito oportuno pra gente, com essa mudança de status. Justamente, temos avançado dentro do governo em diversas iniciativas”, disse Dweck à CNN Brasil.

Novos polos de governança tecnológica

A busca por autonomia tecnológica não ocorre apenas no eixo Brasil-União Europeia. Diversos países têm procurado construir mecanismos alternativos de coordenação internacional para reduzir riscos associados à concentração de poder econômico e tecnológico.

Um exemplo é a criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO), oficializada durante a Conferência Mundial de Inteligência Artificial (WAIC) de 2026, realizada em Xangai. O Brasil figura entre os 29 países fundadores da iniciativa, ao lado de outras nações do Sul Global, em uma articulação que busca ampliar a participação dos países em desenvolvimento na definição das regras da economia digital e da inteligência artificial.

A participação brasileira na WAICO ocorre após um período de intensificação do diálogo sobre desenvolvimento tecnológico no âmbito do G20, nas negociações com a União Europeia e outros fóruns multilaterais. Embora representem iniciativas distintas, os movimentos refletem uma preocupação comum: diversificar parcerias, fortalecer capacidades nacionais e reduzir vulnerabilidades decorrentes de estruturas excessivamente concentradas.

A soberania digital deixou de ser um tema exclusivamente diplomático e passou a influenciar decisões relacionadas à adoção de nuvem, infraestrutura crítica, inteligência artificial, proteção de dados, interoperabilidade e governança tecnológica. Mais do que uma discussão regulatória, trata-se de um componente cada vez mais relevante das estratégias de transformação digital e competitividade dos países.



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