Durante a Conferência Mundial de Inteligência Artificial (WAIC) de 2026, realizada em Xangai, o governo da China reafirmou sua estratégia de liderança tecnológica baseada em inteligência artificial (IA) de baixo custo, sistemas abertos, cooperação e governança multilateral.
“A China está disposta a trabalhar com todas as partes para aproveitar e enfrentar as oportunidades e desafios do desenvolvimento da inteligência artificial com uma atitude mais aberta, ações mais pragmáticas e uma visão de longo prazo”, afirmou o presidente Xi Jinping em seu discurso de abertura.
Além do posicionamento da China, os discursos da conferência contrastaram com as medidas adotadas pelo governo dos EUA, que impôs bloqueios a modelos como o Claude Fable 5 e o Mythos 5, da Anthropic, e orientou empresas como a OpenAI a restringir a liberação de novos sistemas apenas a “parceiros confiáveis” conforme aprovação estatal.
O encontro também serviu de palco para um alinhamento diplomático entre a China e a Organização das Nações Unidas (ONU). “O mundo nunca deve ser autorizado a retornar à lei da selva”, disse Xi Jinping ao Secretário-Geral da ONU, António Guterres. Em resposta às crescentes restrições ocidentais, Guterres elogiou o apoio chinês ao multilateralismo. “A ONU continuará a fortalecer a cooperação com a China, a opor-se ao unilateralismo, ao protecionismo e ao bullying hegemônico, a salvaguardar a Carta da ONU e o direito internacional, bem como a avançar o processo em direção a um mundo multipolar”, afirmou.
Lançamento do Kimi K3 e inovações tecnológicas
O avanço chinês na industrialização da IA ficou em evidência com as inovações apresentadas. O cenário de competição tecnológica começou a mudar em janeiro de 2025, quando a startup DeepSeek lançou um modelo de altíssimo desempenho a baixo custo que abalou o valor das gigantes norte-americanas na Nasdaq.
Dando continuidade a esse movimento, o destaque da conferência foi o Kimi K3, da startup Moonshot, apresentado pelos desenvolvedores como o maior modelo de IA aberto do mundo, equipado com 2,8 trilhões de parâmetros e uma janela de contexto de 1 milhão de tokens.
Segundo avaliações independentes, o Kimi K3 supera ou apresenta desempenho comparável aos principais modelos fechados, como o Opus 4.8 e o Fable 5, da Anthropic. Segundo Lian Jye Su, analista da Omdia, a real vantagem competitiva dos modelos chineses é econômica: “Eles podem ser executados por uma fração do custo que a OpenAI cobra de seus clientes”, explicou.
A WAIC também exibiu inovações voltadas à infraestrutura e ao cotidiano populacional, incluindo o sistema de supernós Atlas 950 da Huawei, projetado para treinamento de grandes modelos de IA.
Na área de logística, a Zelostech anunciou a produção em massa de vans autônomas que dispensam os custosos mapas de alta definição, facilitando entregas em áreas rurais. Na área médica, o sistema da Xunfei Healthcare demonstrou como auxilia médicos generalistas em regiões remotas a diagnosticar pacientes com base em milhares de diretrizes clínicas.
A criação da WAICO e a participação do Brasil na nova governança
Como principal desdobramento político da conferência, foi oficializada a criação da WAICO (Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial), a primeira entidade multilateral intergovernamental focada especificamente no desenvolvimento compartilhado da IA.
O Brasil assegurou uma participação ativa na formação dessa nova arquitetura diplomática, ingressando como um dos 29 países fundadores da entidade, ao lado de outras nações do Sul Global, como Rússia, Indonésia e Paquistão. A instituição surge formalmente à margem dos Estados Unidos e da Europa, consolidando um segundo polo de governança tecnológica global.
Conforme aponta um estudo conduzido pela Universidade Tsinghua e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a iniciativa visa reduzir a lógica de competição de soma zero no desenvolvimento tecnológico e defende a tecnologia como um “bem público global”, com propostas para capacitar os países em desenvolvimento a deixarem de ser apenas consumidores e passarem a determinar os padrões do futuro na inovação.
