Febraban Tech 2026 Febraban Tech 2026
Palestrantes do evento com Eduarda Davidovic, Carlos Zambroni, Rodrigo Ohira, Gloria Guimarães e Raquel Possamai no palco, diante de plateia e telão com iluminação azul Da esquerda para a direita: Eduarda Davidovic, Carlos Zambroni, Rodrigo Ohira, Gloria Guimarães, Thiago do Amaral Santos e Raquel Possama (Foto: Federação Brasileira de Bancos via Flickr)

Open Finance entra em fase de ajustes para ganhar confiança e massificação

4 minutos de leitura

Cinco anos após o início do compartilhamento estruturado de dados financeiros no Brasil, o foco agora recai sobre padronização, experiência dos usuários, governança do ecossistema e correção de assimetrias



Por Vanderlei Campos em 28/08/2026

O Open Finance entrou em uma nova etapa de maturidade. Depois dos avanços iniciais na criação de uma infraestrutura de compartilhamento de dados e serviços financeiros, as discussões passam a se concentrar em aspectos menos visíveis, mas decisivos para a evolução do modelo. Padronização de dados, interoperabilidade entre sistemas, governança, experiência dos usuários e sustentabilidade econômica estiveram no centro do painel Governança, interoperabilidade e assimetrias: os limites do Open Finance, no Febraban Tech 2026.

Os participantes concordaram que a iniciativa já demonstrou capacidade de gerar valor para consumidores e instituições. Ao mesmo tempo, defenderam ajustes para reduzir fricções operacionais, ampliar a confiança dos usuários e garantir que o ecossistema continue evoluindo de forma equilibrada.

O Diretor-executivo de Tecnologia do BTG Pactual, Carlos Zambroni, avaliou que os cinco anos de compartilhamento de dados permitiram consolidar uma base sólida para a próxima fase do Open Finance. “Completamos cinco anos de compartilhamento de dados do cliente e estamos preparados para os próximos passos”, afirmou.

Carlos Zambroni, diretor-executivo de Tecnologia do BTG Pactual, sentado em um palco de evento, com crachá e reunião em painel ao fundo.
Carlos Zambroni, diretor-executivo de Tecnologia do BTG Pactual (Foto: Federação Brasileira de Bancos via Flickr)

Entre os pontos que exigem aperfeiçoamento, Zambroni destacou tanto o amadurecimento da oferta de produtos quanto a necessidade de discutir a sustentabilidade econômica do modelo. “Temos que olhar a racionalidade financeira; o equilíbrio entre quem usa e quem paga a conta. Outro ponto é a reciprocidade”, criticou.

Embora reconheça a evolução da qualidade dos dados compartilhados, o executivo observou que ainda persistem dificuldades de interoperabilidade entre participantes. Segundo ele, os desafios não se limitam aos formatos de dados e alcançam também os processos operacionais e de conformidade. “Há dificuldade para gerenciar os consentimentos. Algumas instituições levam até duas semanas para atender aos requerimentos. Isso é uma eternidade para o cliente e mina a confiança”, disse.

Interoperabilidade vai além da tecnologia

Na avaliação do sócio do escritório Barcellos Tucunduva Advogados, Thiago do Amaral Santos, a interoperabilidade continua sendo um dos principais obstáculos para a consolidação do ecossistema. “O atual desafio ainda é a padronização de dados. O Open Finance pressupõe conexões entre instituições, que têm sistemas legados e ambientes tecnológicos diferentes”, apontou.

Thiago do Amaral Santos, sócio do escritório Barcellos Tucunduva Advogados, em palestra segurando microfone em evento corporativo, com crachá e headset
Thiago do Amaral Santos, sócio do escritório Barcellos Tucunduva Advogados (Foto: Federação Brasileira de Bancos via Flickr)

O advogado ressaltou que o problema não se resume a incompatibilidades técnicas. Há diferenças na forma de apresentação das informações e até mesmo nos atributos de determinados dados em cada organização. “É importante saber o significado dos dados”, resumiu.

Para a Diretora para o Mercado Financeiro da Claro empresas, Raquel Possamai, a qualidade das informações compartilhadas tem impacto direto na experiência dos clientes. “A padronização e precisão dos dados permitem oferecer jornadas com mais segurança e menos fricção”, ressaltou.

Raquel Possamai, diretora para o Mercado Financeiro da Claro empresas, em palestras, segurando um microfone em um evento, com cabelo loiro e óculos.
Raquel Possamai, diretora para o Mercado Financeiro da Claro empresas (Foto: Federação Brasileira de Bancos via Flickr)

A executiva observou que parte dos obstáculos enfrentados pelos usuários está relacionada aos múltiplos processos de validação exigidos em diferentes etapas das jornadas digitais. “É chato para o cliente percorrer processos de validação que tenham notificações por SMS, confirmação por e-mail e outras exigências aos usuários”, constatou.

Segundo Possamai, iniciativas de compartilhamento autorizado de informações têm contribuído para reduzir essas barreiras. Ela relatou casos em que o uso de dados disponibilizados por meio do Open Gateway permitiu diminuir em até 15% os pontos de fricção em processos digitais.

“Praticamente todos os brasileiros têm celular. Seus dados e as instituições com quem se relaciona estão lá”, observou.

Governança exige transparência para os usuários

Além dos desafios técnicos, os participantes defenderam que o avanço do Open Finance depende de uma comunicação mais clara com os consumidores.

A presidente da Associação Digital 30+, Glória Guimarães, afirmou que os debates sobre governança precisam extrapolar os fóruns especializados e alcançar os cidadãos de forma mais direta. “Para confiar nos produtos baseados no Open Finance, os cidadãos têm que ser informados de forma simples”, afirmou.

Glória Guimarães, presidente da Associação Digital 30+, em painel, sentada em cadeira branca, usando blazer verde e óculos redondos, em evento corporativo
Glória Guimarães, presidente da Associação Digital 30+ (Foto: Federação Brasileira de Bancos via Flickr)

Segundo Glória, além de compreenderem melhor as regras de compartilhamento e uso de dados, os usuários também desejam canais acessíveis para relatar suspeitas de vazamento ou utilização inadequada de informações pessoais.

Thiago Santos concordou que a percepção de insegurança ainda representa uma barreira relevante para a adoção mais ampla do modelo. “Até hoje vemos pessoas juntarem pilhas de documentos para pedir um financiamento”, mencionou.

O advogado lembrou que a regulamentação já determina critérios rigorosos para a obtenção de consentimento dos usuários, incluindo a finalidade do compartilhamento, os participantes envolvidos e o período de utilização dos dados. “Isso é normatizado, mas nem sempre a forma de apresentar inspira confiança”, diagnosticou.

IA e dados de telecom ampliam possibilidades

O líder de Dados e IA na F1rst/Santander, Rodrigo Ohira, reforçou que a compreensão dos mecanismos de governança é um elemento central para o fortalecimento do Open Finance. “O cliente precisa entender a governança no ecossistema do Open Finance”, ressaltou.

Rodrigo Ohira, líder de Dados e IA na F1rst/Santander, participa de um painel em evento corporativo, sentado em cadeira, com microfone e fundo com gráfico azul.
Rodrigo Ohira, líder de Dados e IA na F1rst/Santander (Foto: Federação Brasileira de Bancos via Flickr)

Ohira também concordou com as avaliações sobre os desafios de padronização das informações compartilhadas entre as instituições. “Nesse ponto, as ferramentas de IA ajudam muito na interpretação”, mencionou.

Na avaliação de Raquel Possamai, a evolução do Open Finance também passa pelo uso de novas fontes de informação capazes de enriquecer análises e simplificar jornadas digitais. Ela destacou que, apenas no ano passado, as instituições realizaram mais de 100 milhões de consultas por meio das APIs do Open Gateway.

“A centralidade no cliente é o ponto principal. Com integrações simples, melhoramos a experiência com os serviços financeiros”, contou.

Inicialmente adotado principalmente para autenticação e prevenção a fraudes, o compartilhamento de informações relacionadas a dispositivos, chips e localização passou a ampliar as possibilidades de personalização de produtos e serviços financeiros. Ao combinar diferentes fontes de dados com mecanismos de consentimento e governança, o ecossistema ganha novas ferramentas para reduzir riscos, simplificar processos e oferecer experiências mais aderentes às necessidades dos clientes.



Matérias relacionadas

Nuvem, com circuitos e painéis holográficos em vermelho, sugerindo multicloud e resiliência Estratégia

Bancos buscam mais autonomia e resiliência na multicloud

Executivos defendem que soberania não significa segregar operações, mas garantir autonomia, portabilidade, transparência e continuidade dos serviços em um ambiente cada vez mais dependente da nuvem e da IA

Douglas Silva, diretor-executivo da Accenture, apresenta em palco durante evento corporativo, segurando um dispositivo na mão enquanto fala para o público. Estratégia

Fim dos apps, IA transacional, ativos digitais e segurança são novas prioridades do setor financeiro

Inteligência artificial mais barata e poderosa, LLMs como nova interface bancária, comércio agêntico, tokenização, computação quântica e novas arquiteturas de segurança sinalizam as tendências com potencial de transformar a operação e a experiência dos clientes nos próximos anos

Cristina De Luca, Caio Moreira Fernandes, Adriano Volpini e Raquel Possamai participam de um painel em evento, com quatro pessoas sentadas em cadeiras e dialogando em palco. Estratégia

Confiança propagada em rede

Em um ambiente marcado por serviços compartilhados, interação entre agentes de IA e cadeias cada vez mais integradas, a capacidade de resposta a incidentes passa a depender da responsabilidade coordenada entre diferentes elos do ecossistema de finanças

Bruno Lodo, Marcelo França, Rodrigo Hori, Pedro Fortes e Adriana Salles Gomes participam de um painel em evento, sentados em cadeiras no palco com telão ao fundo. Estratégia

Infraestrutura invisível move as finanças embarcadas

Integração via Banking as a Service leva crédito, pagamentos e inteligência artificial às jornadas digitais de empresas de diferentes setores