A inteligência artificial já está no topo das decisões das empresas, mas a liderança dessa transformação exige uma combinação que vai além da tecnologia. Integrar dados, estratégia de negócio, governança e capacidade humana de julgamento foram temas do painel “Quem lidera na era de IA: tecnologia, dados ou negócio?”, que aconteceu durante o Febraban Tech 2026, em São Paulo. A discussão reuniu Bernardo Castello, diretor-presidente da Bradesco Vida e Previdência; Marisa Reghini Ferreira Mattos, vice-presidente de Tecnologia do Banco do Brasil; Rafael Cavalcanti, diretor de AI & Data (CDO) do Bradesco; e Telma Luchetta, da EY.
A discussão partiu de uma questão cada vez mais presente nas organizações: quem define prioridades na agenda de IA, quem responde pelas decisões apoiadas por algoritmos e como equilibrar velocidade, confiança e geração de valor. Na apresentação do painel, a EY resumiu o desafio como uma nova configuração de poder dentro das empresas, com dados e IA no centro das decisões estratégicas.
Para os executivos, a expansão da inteligência artificial aproxima tecnologia, dados e áreas de negócio. Neste sentido, houve consenso entre os painelistas: o CIO precisa compreender os objetivos estratégicos da organização e participar da construção das soluções que impactam produtos, operações e clientes. A mesma lógica vale para dados. A informação só produz valor quando chega à estratégia e ajuda a orientar decisões.
Para Marisa Reghini, a discussão sobre tecnologia envolve também governança, segurança, qualidade dos dados e definição de responsabilidades. “O desafio aparece inclusive na modernização de sistemas legados. Instituições financeiras convivem com plataformas robustas, construídas ao longo de décadas, que ainda sustentam operações críticas. A questão envolve avaliar onde preservar estruturas existentes, onde modernizar e como incorporar novas ferramentas sem comprometer a continuidade do negócio”, apontou.
IA precisa gerar valor para o cliente
Rafael Cavalcanti destacou a aproximação entre dados e estratégia. A capacidade de reunir informações, interpretá-las e transformá-las em produtos e experiências mais relevantes para os clientes representa uma das principais oportunidades da inteligência artificial.
Para ele, “tecnologia e dados precisam estar próximos das áreas que conhecem os problemas do negócio e as necessidades dos consumidores. A melhor solução tecnológica, portanto, depende também de quem conhece o contexto em que ela será aplicada”.
Outro ponto abordado foi a velocidade de desenvolvimento que aumenta a pressão sobre essa escolha. “Ferramentas de IA estão mais acessíveis e os ciclos de inovação são mais curtos. Para as empresas, isso exige critérios claros para decidir quais aplicações realmente merecem investimento”, comentou Bernardo Castello.
A experiência do Banco do Brasil apresentada por Marisa Reghini mostrou a dimensão dessa mobilização. Em 2024, 24 mil dos 88 mil funcionários do banco se inscreveram voluntariamente em um programa de formação em inteligência artificial. A segunda edição, voltada à IA generativa, reúne 36 mil pessoas em treinamento. A iniciativa pretende ampliar o conhecimento sobre a tecnologia entre profissionais de diferentes áreas.
Esse movimento acompanha uma tendência observada pela EY. Na pesquisa mais recente da empresa, 95% dos brasileiros entrevistados afirmaram utilizar inteligência artificial, enquanto 74% consideram necessária a supervisão humana mesmo diante de sistemas com alto nível de precisão. O estudo ouviu 18.152 pessoas em 23 mercados entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026.
Os números reforçam um ponto discutido no painel: conhecimento sobre IA precisa alcançar diferentes perfis profissionais. A adoção da tecnologia envolve quem desenvolve as soluções, quem utiliza as ferramentas e, principalmente, quem toma decisões a partir dos resultados produzidos por elas.
O pensamento crítico ganha importância
Com sistemas capazes de analisar grandes volumes de informação, produzir conteúdo, automatizar tarefas e apoiar decisões, os executivos chamaram atenção para uma competência essencial: o julgamento humano. Nesse contexto, o desafio é preservar o pensamento crítico mesmo quando uma ferramenta apresenta respostas aparentemente precisas.
Para Bernardo Castello, a preparação profissional também precisa acompanhar essa mudança. Em suas considerações, ele apontou para um futuro em que a formação estará cada vez mais relacionada às capacidades desenvolvidas pelas pessoas para trabalhar com inteligência artificial.
A discussão encontra respaldo nos dados da EY. Além dos 74% que defendem a supervisão humana, 71% dos brasileiros entrevistados demonstram preocupação com a possibilidade de organizações não assumirem responsabilidade por consequências negativas relacionadas ao uso da IA.
Afinal, quem lidera essa transformação? A resposta construída ao longo do painel não aponta um único protagonista. A tecnologia fornece infraestrutura e capacidade de escala; os dados orientam decisões; e o negócio define problemas, prioridades e objetivos. A liderança precisa conectar essas dimensões com governança e responsabilidade.
“A inteligência artificial amplia a capacidade das organizações, mas não resolve sozinha as questões estratégicas. A vantagem depende da capacidade de transformar tecnologia em resultado, com dados confiáveis, pessoas preparadas e critérios claros para decidir”, disse Marisa Reghini.
“No setor financeiro, confiança, segurança e responsabilidade têm impacto direto sobre clientes e operações. Por isso, essa integração ganha ainda mais peso. A questão central não é escolher entre tecnologia, dados ou negócio. É criar condições para que os três trabalhem juntos, com pessoas preparadas para questionar, decidir e responder pelos resultados”, completou Rafael Cavalcanti.
