Fernando Gaio*
As finanças embarcadas (embedded finance) estão fazendo com que as operações bancárias deixem de ser um “fim” em si mesmas para se tornarem um “meio” inserido na jornada de consumo. As instituições agora atuam integradas a ecossistemas de terceiros, com serviços de crédito, pagamentos e contas. Essa integração é sustentada pelo conceito de Banking as a Service (BaaS), tornando o serviço financeiro imperceptível em apps de delivery, por exemplo. A transação ocorre sem que o usuário precise abandonar sua interface habitual. Entre os possíveis efeitos dessa integração está o fortalecimento da fidelização dos usuários.
Embora ver varejistas oferecendo financiamento aos consumidores lembre o tradicional sistema de crediário, o Banking as a Service moderno via API acelerou esse ciclo. Marcelo França, CEO e cofundador da Celcoin, ressaltou no Febraban Tech que o modelo atual elimina a necessidade de abrir financeiras próprias. As operações que levavam anos para se estruturar agora operam em um mês.

A aparente simplicidade não anula o peso da responsabilidade. Pedro Fortes, Diretor de Estratégia Corporativa e BaaS do Itaú Unibanco, afirma que segurança e compliance não são mais áreas isoladas. No modelo de finanças embarcadas, essas funções nascem integradas ao desenvolvimento do produto. A cibersegurança e os processos de KYC/KYP (Conheça o seu Consumidor / Conheça o seu Parceiro) são tratados como diferenciais competitivos estratégicos.

99Pay: dados e a jornada do superapp
A 99Pay nasceu para reduzir a dependência de dinheiro em espécie nos pagamentos de corridas durante a pandemia. A partir dessa questão específica, evoluiu para um ecossistema de superapp com 28 milhões de usuários. Bruno Lodo destaca que a estratégia utiliza dados comportamentais para orientar a tomada de decisão:
- Personalização de jornada: Atendimento conforme o contexto do usuário (casa x rua).
- Antecipação de necessidades: Identificação de padrões, como o pagamento recorrente de boletos.
- Otimização operacional: Uso de inteligência para reduzir atritos e aumentar o Lifetime Value (LTV).

A análise de dados substitui a necessidade de produtos tradicionais. A 99Pay optou por não lançar cartões de crédito, focando em soluções de parcelamento. Essa escolha foi baseada na identificação de demandas extraídas do comportamento de consumo, em que o crédito rotativo agregava pouco valor.
O desafio da Caixa
A Caixa Econômica Federal enfrenta o desafio de digitalizar políticas públicas e a gestão do FGTS em escala nacional. O vice-presidente de Agente Operador da Caixa, Rodrigo Hori, relatou que a transição dos disquetes para um aplicativo 100% digital foi acelerada por uma mudança de mentalidade interna.

Essa modernização trouxe a “Responsabilidade Social Digital” como pilar. O banco atua para garantir que recursos do FGTS, como os liberados por meio do saque calamidade, não sejam desviados para finalidades inadequadas, como apostas eletrônicas. O controle do direcionamento de recursos é essencial para a proteção do público vulnerável em momentos de crise.
Da commodity à camada agêntica
Durante o Febraban Tech, muitos debatedores reiteraram que a tecnologia de infraestrutura tornou-se uma commodity e agora o diferencial competitivo está na camada de inteligência aplicada. O setor evolui para um modelo em que os dados deixaram de ser estáticos para se tornarem proativos, o que acaba por definir a maturidade das finanças embarcadas.
Essa evolução sustenta o “mundo agêntico”, em que sistemas de inteligência tomam decisões e transacionam em nome do usuário. O Itaú já opera nessa fronteira, focado em investimentos. O ia.i, sua ferramenta de inteligência artificial voltada para o atendimento e a gestão financeira, já atende 300 mil clientes e caminha para alcançar milhões de clientes.
RappiPay Colômbia: engajamento virou serviço financeiro
A experiência do RappiPay na Colômbia mostra como a integração entre consumo e serviços financeiros pode ampliar o engajamento, recorrência e retenção de clientes. O modelo foi apresentado por Paolo Di Marco, CEO do RappiPay Colômbia, durante o Febraban Tech.
Na Colômbia, o Rappi registra cerca de 50 milhões de visitas mensais. Segundo Di Marco, um usuário ativo acessa a plataforma, em média, 30 vezes por mês. Essa recorrência cria oportunidades para inserir serviços financeiros nos momentos em que o consumidor está realizando uma compra ou utilizando algum dos serviços disponíveis no ecossistema.
“Serviços financeiros são um momento importante” foi um dos argumentos apresentados para explicar a decisão de avançar nessa área. A estratégia está baseada na busca pelos chamados “momentos de verdade”, nos quais a interação com o consumidor é mais relevante. Os dados apresentados reforçam essa estratégia: cerca de 80% dos cartões emitidos pelo RappiPay são contratados por clientes já engajados no ecossistema.
*Especial para o Próximo Nível
