Febraban Tech 2026 Febraban Tech 2026
Cristina De Luca, Caio Moreira Fernandes, Adriano Volpini e Raquel Possamai participam de um painel em evento, com quatro pessoas sentadas em cadeiras e dialogando em palco. Da esquerda para direita: Cristina De Luca, Caio Moreira Fernandes, Adriano Volpini e Raquel Possamai (Foto: Federação Brasileira de Bancos via Flickr)

Confiança propagada em rede

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Em um ambiente marcado por serviços compartilhados, interação entre agentes de IA e cadeias cada vez mais integradas, a capacidade de resposta a incidentes passa a depender da responsabilidade coordenada entre diferentes elos do ecossistema de finanças



Por Vanderlei Campos em 28/08/2026

A expansão dos serviços digitais, a consolidação do Pix, o avanço da inteligência artificial e a crescente integração entre instituições financeiras e parceiros de diferentes setores estão redefinindo o conceito de resiliência no sistema financeiro. Além de garantir a disponibilidade de infraestrutura, o desafio passou a ser coordenar redes, plataformas, aplicações, dados e processos em um ambiente no qual falhas, fraudes ou indisponibilidades podem se propagar por múltiplas organizações.

Os participantes do painel Resiliência conectada: como orquestrar a arquitetura da confiança, no Febraban Tech 2026, defenderam que a resiliência deve ocupar posição central na estratégia das organizações e que sua eficácia depende do alinhamento entre todos os elos envolvidos no compartilhamento de dados e na prestação de serviços cooperados.

Para o Diretor de Prevenção a Crimes Financeiros do Itaú Unibanco, Adriano Volpini, a capacidade de enfrentar eventos adversos tornou-se tão importante quanto a manutenção dos ambientes tecnológicos. Segundo ele, indisponibilidades podem surgir de diferentes fatores, tornando essencial que as organizações desenvolvam mecanismos de resposta e tomada de decisão capazes de reduzir impactos e acelerar a recuperação. “A resiliência tem que estar no eixo dos investimentos e da estratégia”, afirmou.

Adriano Volpini, diretor de Prevenção a Crimes Financeiros do Itaú Unibanco, em palestra no palco de um evento corporativo, usando microfone e camiseta social
Adriano Volpini, diretor de Prevenção a Crimes Financeiros do Itaú Unibanco (Foto: Federação Brasileira de Bancos via Flickr)

Volpini destacou que a ampliação dos ecossistemas digitais exige uma abordagem de segurança que vá além dos limites tradicionais das instituições. “Seguro, crédito e novos produtos cada vez mais passam por parceiros. Com isso, a superfície de ataque é ampliada. A governança tem que olhar todas essas conexões”, reconheceu.

O executivo observou que a proteção dos pontos de interconexão deve caminhar lado a lado com o fortalecimento dos controles internos. Para ele, muitas organizações ainda enfrentam desafios básicos de governança e gestão de acessos, especialmente em ambientes com usuários privilegiados e prestadores de serviço integrados aos sistemas corporativos. “Resiliência exige método, disciplina e controle”, enfatizou.

IA amplia capacidade de resposta e segurança operacional

A inteligência artificial agêntica, que permeou 100% da grade do evento, foi destacada no painel, com foco em seus desdobramentos em abrangência, agilidade e, principalmente, qualidade operacional das ações relacionadas à resiliência. Volpini ressaltou as oportunidades de ampliar a capacidade de monitoramento, análise e resposta. “Temos possibilidades inéditas de ganhar escala e responder aos riscos mais rapidamente, com as novas equipes de profissionais de carbono e de silício”, disse.

O executivo lembrou que a configuração desses esquemas de “colaboração híbrida” exige uma definição clara de responsabilidades entre profissionais humanos e agentes autônomos. O desenho dos processos passa a depender da segmentação de competências, da definição de alçadas e da criação de mecanismos de supervisão adequados para cada atividade.

“É preciso cuidado para configurar o que pode ser feito de forma autônoma e o que depende de supervisão”, advertiu.

Além disso, a combinação de múltiplos agentes em camadas sucessivas de validação pode fortalecer salvaguardas e reduzir riscos de execução. “Antes de a decisão seguir para um analista humano, podem-se aplicar outros modelos em sucessivas camadas de revisão e validação”, esclareceu. “Com a IA, podemos exponenciar as variáveis para identificar, dimensionar e responder aos riscos”, acrescentou.

Na avaliação de Volpini, o principal ganho proporcionado pela IA não está apenas na produtividade, mas na qualidade das decisões e dos processos. “Os agentes ajudam principalmente na redução dos riscos de execução”, destacou.

Corresponsabilidade e colaboração na segurança sistêmica

A transformação do cenário de negócio na indústria financeira também altera os papéis nas cadeias de valor. A Diretora Executiva para o Mercado Financeiro da Claro empresas, Raquel Possamai, explicou que a interlocução com as instituições financeiras deixou de ser uma conversa apenas sobre produtos, contratos e SLAs. Ela contou que as organizações mais maduras esperam também coparticipação nas estratégias. “A discussão sobre resiliência deixou de ser exclusivamente técnica e passou a ser estrutural”, definiu.

Raquel Possamai, diretora Executiva para o Mercado Financeiro da Claro empresas
Raquel Possamai, diretora Executiva para o Mercado Financeiro da Claro empresas (Foto: Federação Brasileira de Bancos via Flickr)

“Durante décadas, as operadoras se concentraram em garantir disponibilidade e desempenho às conexões. Hoje, porém, a complexidade dos serviços financeiros exige uma atuação mais abrangente, capaz de orquestrar múltiplos parceiros, plataformas e ambientes tecnológicos em ecossistemas resilientes, nos quais diferentes organizações compartilham dados, aplicações e responsabilidades operacionais”, descreveu.

Para Raquel Possamai, um dos desafios para a indústria financeira está na ampliação das fronteiras dos serviços. Produtos bancários passam a ser consumidos dentro de jornadas digitais, criando dependências que extrapolam os limites tradicionais do setor financeiro. “O principal ponto de transformação é que os serviços financeiros se tornam transversais a múltiplas instituições e empresas de outros setores, como varejo ou logística. Por isso, a estratégia de resiliência tem que olhar todos esses elos”, explicou.

A executiva da Claro empresas observou que a resiliência passa a ser determinada não apenas pela robustez dos controles individuais, mas pela capacidade de coordenar informações e decisões ao longo de toda a cadeia. Quanto maior a visibilidade sobre os eventos que ocorrem nesses ambientes interconectados, maior a capacidade de identificar riscos, responder a incidentes e preservar a confiança dos usuários.

A sinergia entre as operadoras e a indústria financeira não se deve apenas ao fato de praticamente todos os produtos bancários, de seguros ou de pagamentos dependerem totalmente de redes disponíveis, abrangentes e seguras. Outro ponto de coesão é que ambos os setores, fortemente regulados, apresentam critérios e compromissos claros de governança de dados, direitos dos clientes e padrões de compartilhamento de informações.

Raquel citou o Open Gateway como principal referência de cooperação. Ela argumentou que o nível de maturidade das organizações, no que se refere à resiliência, passa tanto pela abrangência dos pontos de controle quanto pela riqueza de dados para tomada de decisões, sejam autônomas ou supervisionadas. Nesse sentido, a Claro empresas atua não apenas como provedora de infraestrutura segura e ferramentas de controle, mas também assume um papel fundamental no refinamento das análises. “O Open Gateway inicialmente trouxe recursos importantes para prevenção a fraudes, como a identificação de troca de chips. Hoje, os bancos contam com várias informações para análise de risco de crédito ou identificação de oportunidades com clientes que o sistema financeiro não enxergava”, mencionou.

O chefe do Departamento de Tecnologia do Banco Central, Caio Moreira Fernandes, reforçou que o conceito de zero trust também evolui nesse cenário. Segundo ele, a abordagem não se limita a mecanismos rígidos de autenticação ou controles técnicos, mas incorpora novas capacidades analíticas proporcionadas pela inteligência artificial. “Mesmo o que é permitido e não sinaliza anomalias evidentes pode ser olhado com mais profundidade”, observou.

Caio Moreira Fernandes, chefe do Departamento de Tecnologia do Banco Central, em palestra com microfone e headset, falando em evento com credencial no pescoço
Caio Moreira Fernandes, chefe do Departamento de Tecnologia do Banco Central (Foto: Federação Brasileira de Bancos via Flickr)


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