A inteligência artificial está redesenhando o papel da liderança nas instituições financeiras e e exigindo que os gestores estabeleçam responsabilidades e limites para a atuação de pessoas e agentes digitais. No painel “Liderança em um mundo híbrido”, realizado durante o Febraban Tech 2026, representantes de Caixa, Banco do Brasil e Bradesco defenderam que a adoção da IA exige mais do que domínio tecnológico: requer governança, educação, colaboração entre áreas e uma cultura organizacional capaz de lidar com mudanças constantes.
Participaram do debate Alessandra Lotufo, da Afferolab; Alexandre Amorim, vice-presidente de Pessoas da Caixa; Mariana Pires Dias, do Banco do Brasil; e Silvana Rosa Machado, do Bradesco. A mediação foi de Rodrigo Flores, CEO do InfoMoney.

Um dos principais pontos levantados durante o painel foi a mudança na própria definição de liderança. Com a disseminação de agentes de IA capazes de executar tarefas e apoiar decisões, o gestor precisa compreender não apenas como conduzir pessoas, mas também até onde uma tecnologia pode atuar e quais decisões continuam sob responsabilidade humana.
Para Amorim, o cenário exige uma liderança preparada para atuar em um ambiente no qual pessoas e agentes passam a trabalhar lado a lado. Nesse contexto, a governança ganha importância para estabelecer limites de atuação, responsabilidades e acesso a dados.

“A governança entra: o que o agente pode fazer, até onde ele pode decidir e o quanto de dados ele pode me informar”, resumiu o executivo.
A questão também envolve responsabilidade. Se um agente de IA cometer um erro, a responsabilidade não desaparece. O líder continua sendo o responsável pelas decisões tomadas dentro da organização. Por isso, segundo Amorim, os mecanismos de governança são fundamentais para definir previamente os limites de atuação dessas ferramentas.
IA amplia o papel do líder
A discussão mostrou que a inteligência artificial não elimina a necessidade de liderança. Ao contrário, aumenta a complexidade da função.
Entre as mudanças apontadas está a necessidade de liderar equipes formadas por diferentes perfis profissionais e, cada vez mais, por pessoas que trabalham em conjunto com sistemas inteligentes. O gestor precisa compreender tecnologia, negócios, dados e pessoas, além de criar condições para que os colaboradores experimentem novas ferramentas sem transformar a inovação em fonte de insegurança.
Nesse cenário, educação e capacitação aparecem como elementos centrais. Para Amorim, a liderança precisa investir continuamente na formação dos profissionais e criar um ambiente em que os profissionais possam experimentar novas ferramentas, aprender e esclarecer dúvidas com segurança.
Silvana, do Bradesco, também chamou atenção para a necessidade de preparar a liderança para o uso da IA. Segundo ela, o processo de letramento tecnológico precisa alcançar os gestores e estar conectado à prática. A lógica envolve experimentar, aprender e incorporar os recursos de IA ao trabalho.

A executiva destacou ainda a importância da disciplina na execução e na comunicação, “além da disposição para abandonar antigos dogmas e crenças quando eles deixam de responder às necessidades da organização”, apontou.
Cultura é parte da transformação tecnológica
Outro ponto recorrente no debate foi a relação entre tecnologia e cultura. Para os participantes, uma transformação digital não se sustenta quando fica restrita aos departamentos de tecnologia.
Mariana, do Banco do Brasil, destacou que ”nenhuma área consegue conduzir sozinha uma transformação dessa dimensão. Projetos relacionados à IA exigem equipes multidisciplinares, reunindo pessoas de tecnologia, negócios, inteligência competitiva, estratégia e outras áreas da organização”.

A executiva ressaltou que a transformação digital precisa envolver todos os colaboradores envolvidos nesses projetos. A cultura, para Mariana, está diretamente relacionada ao comportamento dos funcionários em toda a empresa. Por isso, transformar uma organização envolve rever práticas, processos e formas de comunicação.
A colaboração também foi apresentada como uma competência cada vez mais importante. Amorim observou que modelos colaborativos são mais amplos do que a competição individual e exigem capacidade de escuta.
O valor está na dupla humano-máquina
Em vez de tratar humanos e máquinas como concorrentes, os participantes defenderam uma relação de complementaridade.
Mariana afirmou que não existe necessariamente uma competição entre pessoas e máquinas. Para ela, a IA pode potencializar a capacidade individual, e o resultado dessa combinação precisa ser medido a partir do valor que a dupla humano-máquina consegue gerar. Essa visão muda também a forma de avaliar produtividade, considerando a ferramenta utilizada e o resultado obtido a partir da interação entre profissionais e tecnologia.
Silvana reforçou essa perspectiva ao destacar que a mudança tecnológica não acontece de maneira individual. “No contexto brasileiro é necessário construir uma governança capaz de envolver diferentes áreas e integrar negócio, tecnologia e pessoas”, pontuou.
Mesmo em um ambiente cada vez mais automatizado, os participantes apontaram características que a tecnologia não substitui, como acolhimento, escuta e segurança psicológica.
Silvana destacou o papel do líder como alguém capaz de transmitir tranquilidade às equipes diante das mudanças. A liderança, nesse contexto, precisa ajudar as pessoas a compreenderem que existe espaço para aprendizado e adaptação. “A IA jamais vai fazer isso”, resumiu a executiva ao falar sobre o papel humano do líder em momentos de insegurança.
Amorim também defendeu uma liderança mais aberta e receptiva, capaz de compreender diferentes perfis e oferecer condições para que as pessoas acompanhem a transformação.
Na visão dele, a mudança cultural precisa ser conduzida com atenção às pessoas. O ambiente regulatório pode estabelecer processos e limites, mas a liderança precisa criar as condições para que a inovação aconteça de maneira responsável.
Tecnologia, RH e negócios precisam trabalhar juntos
A aproximação entre áreas também apareceu como uma das condições para a transformação. Para Alessandra Lotufo, da Afferolab, a relação entre tecnologia e recursos humanos, por exemplo, ganha relevância à medida que a IA modifica funções, competências e modelos de trabalho. “Não basta criar ferramentas. É necessário preparar profissionais, rever processos, estabelecer responsabilidades e comunicar claramente os objetivos das mudanças”, disse.

A discussão também colocou em evidência o papel estratégico das áreas de gestão de pessoas. A transformação digital demanda profissionais capazes de compreender as necessidades do negócio e, ao mesmo tempo, os impactos da tecnologia sobre as equipes.
“A liderança compartilhada e a capacidade de escuta ganham importância. O líder precisa articular diferentes especialidades e construir uma visão comum sobre os objetivos da transformação”, complementou a especialista.
Governança como condição para avançar
A adoção de agentes de IA também amplia o debate sobre governança. Se uma ferramenta pode executar tarefas, analisar informações e participar de processos decisórios, a organização precisa estabelecer previamente quais são seus limites.
Para Amorim, essa definição deve levar em consideração desde o que o agente está autorizado a fazer até o nível de informação que pode acessar e fornecer. “A governança funciona como uma estrutura para permitir inovação com responsabilidade. Em setores regulados, como o financeiro, essa preocupação ganha ainda mais peso”, afirmou.
Os executivos reforçaram que a velocidade da transformação tecnológica precisa vir acompanhada de clareza sobre responsabilidades, processos e controles. “A liderança no mundo híbrido – pessoa + agente de IA – será cada vez menos baseada apenas na gestão tradicional de equipes. O gestor precisará compreender tecnologia, dados, negócios e pessoas, além de saber trabalhar em ambientes colaborativos e multidisciplinares”, reafirmou Mariana, do Banco do Brasil.
Ao mesmo tempo, características essencialmente humanas, como escuta, comunicação, capacidade de orientar e acolhimento, permanecem centrais.
Segundo os executivos, a inteligência artificial pode acelerar processos, automatizar atividades e apoiar decisões, mas a transformação depende da capacidade das organizações de integrar tecnologia e pessoas. “No mundo híbrido, liderar significa também definir limites para a tecnologia, preparar profissionais para a mudança e criar uma cultura capaz de experimentar, aprender e evoluir. O desafio não é mais implementar IA, mas sim construir um modelo de trabalho no qual humanos e máquinas consigam gerar valor juntos, com responsabilidade e propósito”, finalizou Silvana.
