A discussão sobre soberania digital no setor financeiro está migrando do campo tecnológico e geográfico para o estratégico. O tema ganhou relevância com a entrada em vigor, em março deste ano, do novo marco regulatório do Banco Central para provedores de serviços de TI, que ampliou as exigências relacionadas à supervisão de fornecedores, resiliência operacional, governança e mitigação dos riscos associados à concentração tecnológica.
Nesse contexto, representantes de bancos e fornecedores de infraestrutura defenderam que soberania significa garantir autonomia, transparência e liberdade de escolha entre diferentes provedores e plataformas para manter operações críticas em funcionamento. O debate ocorreu durante o painel Soberania digital, multicloud e risco sistêmico: a nova geopolítica da nuvem financeira, no Febraban Tech 2026.
Domínio para assumir responsabilidade
“Soberania não é ter tudo dentro do banco. Precisamos de serviços de parceiros, mas temos que ter condições de rodar nossas cargas independentemente deles”, disse a superintendente nacional de Serviços de TI da Caixa, Patrícia Araújo Cortez Batista.
A executiva destacou que essa autonomia depende também de um nível elevado de transparência por parte dos fornecedores. “Temos que conhecer os processos, a arquitetura, o controle de acesso às chaves e aos dados, assim como a cadeia de fornecedores que compõe os serviços contratados”, afirmou.
A visão da Caixa converge com a agenda regulatória do setor financeiro, especialmente em relação à continuidade dos serviços e à dependência crescente de plataformas terceirizadas.
Portabilidade como requisito de resiliência
O diretor de TI do Itaú e CEO da Zup Innovation, André Palma, lembrou que a preocupação com a concentração tecnológica já estava presente quando o Banco Central autorizou o uso de nuvem pelas instituições financeiras, em 2018. “A concentração de serviços em um parceiro poderia trazer problemas de disponibilidade”, justificou.
Segundo o executivo, a estratégia multicloud adotada pelo banco foi construída justamente para reduzir esse risco. Palma mencionou que a estrutura on premise do banco conta com um datacenter em Mogi Mirim e outro em São Paulo, que contingencia o principal. “Com cloud, o provedor mantém dezenas de datacenters no país, o que já agrega resiliência”, disse.
Contudo, Palma ressaltou que distribuir cargas entre diferentes provedores exige resolver um desafio adicional da portabilidade das aplicações. Para isso, o Itaú desenvolveu a plataforma Camada Zero, criada para abstrair as diferenças técnicas entre os diversos ambientes de nuvem.
“A plataforma abstrai as especificidades (terminologia, configurações e ferramentas proprietárias) de cada provedor e nossas aplicações falam de forma padronizada com a infraestrutura”, explicou.
A preocupação com independência tecnológica foi incorporada também ao desenvolvimento de software. “Qualquer software já nasce com os requisitos de portabilidade, compatibilidade com múltiplos dispositivos, segurança e outras premissas”, acrescentou.
Infraestrutura local continua estratégica
O CRO e líder de estratégia da Ascenty, Marcos Siqueira, observou que a busca por oportunidades na multicloud não eliminou a importância da infraestrutura própria ou dedicada. Na avaliação do executivo, o mercado caminha para modelos híbridos, capazes de combinar ambientes on premise e múltiplas nuvens.
“Temos que habilitar soluções híbridas, em que o on premise se conecta à multicloud com menor latência, melhores condições de governança e as certificações de segurança e conformidade”, descreveu.
O diretor da Ascenty observou que, apesar de já ter instalado 21 datacenters desde 2015, a oferta ainda está longe de ser suficiente. “Hoje, 60% dos serviços em nuvem usados no Brasil dependem de estrutura fora do país. No entanto, o Brasil tem condições de trazer investimentos. O custo de energia é metade da média global, a matriz já é renovável e os datacenters no Brasil não consomem água. Diferentemente de outros mercados, em que é mais cara a energia para reúso da água, trabalhamos com circuitos fechados; só se coloca água uma vez e ela circula”, explicou.
Siqueira acrescentou que, além do armazenamento de dados sob jurisdição nacional, os datacenters locais trazem previsibilidade financeira, com contratos menos vulneráveis a variações de câmbio.
Soberania do conhecimento
O diretor de soluções de infraestrutura da Dell, Bruno Assaf, notou que a disseminação da inteligência artificial introduz uma nova camada de preocupação para as organizações. “Passamos muito tempo falando da soberania de dados. Hoje, o que os funcionários colocam na IA não são só os dados; é a forma de pensar na instituição”, constatou.
