A expansão da inteligência artificial (IA) alcançou a radiodifusão de maneira irreversível, segundo o pesquisador e especialista em mídia Luís Artur Ferrareto. Para ele, a IA tem impactos no mercado de trabalho e na relação de confiança construída com os ouvintes. O pesquisador aponta ainda que o uso da tecnologia nunca é problemático por si só, mas depende das escolhas éticas e táticas de quem a maneja.
“O grande desafio contemporâneo das emissoras reside em equilibrar a eficiência técnica do algoritmo com a preservação do vínculo afetivo e da verdade factual”, resumiu Ferrareto em entrevista à Rádio Senado.
De acordo com ele, a inteligência artificial já desempenha papéis ativos em diversas etapas do fluxo produtivo das emissoras de rádio. Na rotina jornalística, as ferramentas automatizadas atuam na correção de textos, no apoio à estruturação de pautas, no debate prévio de ideias e até na gravação técnica de chamadas e jingles publicitários.
Na programação de entretenimento e comercial, a tecnologia avança para o desenvolvimento de conteúdos integralmente narrados por vozes sintéticas capazes de reproduzir sotaques regionais com precisão e interagir por áudio com a audiência, por exemplo, para a distribuição de prêmios.
Apuração jornalística humana

Todavia, quando o foco se volta para a apuração da notícia e o jornalismo de informação, o fator humano permanece insubstituível, na avaliação do pesquisador. “É o profissional encarregado do conteúdo quem determina se a ferramenta servirá ao interesse público ou à propagação de narrativas distorcidas”, detalhou.
Segundo ele, a capacidade da IA de clonar vozes e sintetizar declarações representa uma ameaça direta à integridade democrática e ao ecossistema de notícias.
Um detalhe importante destacado por Ferrareto é que, ao contrário de imagens ou vídeos manipulados, cujas imperfeições o público já começa a identificar, a clonagem de áudio exige perícias complexas para averiguação. Com poucos trechos de áudio real, os softwares atuais conseguem atribuir a personalidades públicas frases que jamais foram ditas. Essa facilidade impulsiona a circulação de conteúdos falsos, que costumam ser consumidos de forma emocional e compartilhados sem checagem prévia.
O especialista avalia que, em cenários de forte polarização política e lógica de torcida, o público tende a validar boatos sem checagem. Por essa razão, o combate à desinformação exige o resgate de fontes jornalísticas comprometidas com a técnica, a ética e o confronto de dados.
O ponto mais crítico na adoção de IA na locução ocorre no momento em que o público percebe a ausência do locutor humano sem ter sido previamente informado. Conforme Ferrareto, existe um pacto histórico e implícito entre quem fala ao microfone e quem escuta do outro lado.
Ele explica que a relação comunicativa do rádio é semelhante a uma conversa informal em uma mesa de bar, na qual os ouvintes se sentem participantes de uma experiência autêntica, próxima e genuinamente humana. Na avaliação do pesquisador, quando essa interação é substituída por interlocutores artificiais sem transparência, a audiência se sente traída.
Mercado de trabalho em transição
Além disso, a busca por uma locução impecável pode afastar o público. Embora os softwares sejam programados para simular pequenas hesitações ou gaguejadas artificiais a fim de parecerem reais, a verdadeira naturalidade decorre da imperfeição viva. Na avaliação de Ferrareto, no dia a dia, a fala humana erra, hesita e se corrige, gerando a empatia e a emoção essenciais ao rádio. Essa característica humana o algoritmo não consegue replicar.
Em relação ao mercado de trabalho, a automação trará uma reestruturação inevitável, segundo o pesquisador. Isso inclui o fechamento de postos operacionais em paralelo ao surgimento de novas funções técnicas e editoriais.
Apesar disso, ele lembra que a história da comunicação demonstra que o rádio possui uma capacidade única de adaptação e sobrevivência diante de sobressaltos tecnológicos. Ferrareto acredita que o veículo passará por uma readequação sem perder seu espaço, da mesma forma que ocorreu com a chegada da televisão, na expansão da internet e com a informatização das redações.
O pesquisador destaca ainda que essa transição precisa ocorrer de forma cautelosa, ponderada e sob forte vigilância quanto aos interesses econômicos das grandes empresas de tecnologia. Para ele, o rádio permanecerá forte e relevante na medida em que mantiver seu compromisso com a verdade, o fortalecimento das instituições e a sensibilidade insubstituível da voz humana.
