As inovações digitais aplicadas ao setor de saúde ganham espaço como soluções para desafios do presente, e não mais como uma promessa futura. A ideia, expressa pela diretora do portfólio de Saúde da Informa Markets, Juliana Vicente, foi evidenciada durante o Healthcare Innovation Show 2026 (HIS) em meio a debates, palestras e cases. O evento mostrou como dados, automação e telemedicina alteram processos administrativos, registros clínicos, diagnóstico e jornada do paciente para trazer maior eficiência e qualidade ao setor.

As discussões reforçaram que a proposta não é substituir médicos, mas reduzir tarefas burocráticas, otimizar recursos e ampliar as ferramentas de apoio à decisão. Ao mesmo tempo, os debates apontaram que os ganhos dependem de dados organizados, sistemas integrados, infraestrutura adequada e regras para garantir segurança e continuidade do cuidado.
IA reduz tarefas burocráticas e amplia tempo para o cuidado
Na Rede D’Or, automação e captura de voz são utilizadas no preenchimento de prontuários eletrônicos, reduzindo tarefas burocráticas e ampliando o tempo disponível dos médicos para o atendimento aos pacientes. Segundo o portal Saúde Business, na avaliação do CEO da rede hospitalar, Paulo Moll, a tendência é que, em cinco ou dez anos, o bom atendimento, o carinho e o trato humano permaneçam como diferenciais.

A experiência da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo levou essa lógica ao centro cirúrgico. A tecnologia Lya Centro Cirúrgico, desenvolvida em parceria com a CTC Tech/Lya Health, converte a narração do cirurgião em prontuários. O case apresentado no HIS resultou em uma redução de até 80% do tempo de documentação clínica ao gerar relatórios cirúrgicos em cerca de três minutos. Com a solução, os médicos economizam aproximadamente 140 minutos por dia na rotina, permitindo jornadas mais simples e erros menos frequentes. Ao todo, mais de 600 cirurgias foram assistidas pela ferramenta.
Na Rede Américas, outro sistema utiliza IA e comandos de voz para direcionar solicitações dos pacientes às equipes de apoio por meio de um QR Code. Em três anos, o Anfitrião Digital/HOOBOX Internação processou mais de 2 milhões de interações e reduziu para 23% a parcela de chamados recebidos pela enfermagem. A solução alcançou mais de 13 mil profissionais e gerou uma economia estimada equivalente a 400 dias úteis, ao evitar que equipes fossem acionadas para demandas não relacionadas às suas atribuições.
Dados ampliam a capacidade de diagnóstico
O impacto da IA também aparece na medicina preditiva, especialmente com a contribuição voltada para a organização e o cruzamento de dados. Por meio de soluções baseadas em inteligência artificial, o setor pode converter exames tradicionais em fontes de informações adicionais para identificação de riscos.
Com o auxílio de sistemas inteligentes, o eletrocardiograma, antes utilizado principalmente para identificar condições mais objetivas, como o infarto, passa a permitir a identificação de padrões até então invisíveis e a detecção de alterações cardíacas que podem representar riscos à saúde do paciente, explicou Ramon Santos Malaquias, CEO da HaisTech.

A proposta, segundo o gerente de inovação e IA do Hcor, Marcelino Laud, não é substituir o médico, mas oferecer um segundo diagnóstico que auxilie a decisão clínica e consiga identificar padrões sutis no exame. A mesma lógica pode ser aplicada ao cruzamento de informações de exames de retina e hemogramas, inclusive para apoiar a classificação de pacientes em grupos de risco de câncer com base em suas condições clínicas.

A análise preditiva não se limita ao cuidado com o paciente, podendo alcançar também a gestão hospitalar. Um dos exemplos apresentados durante o HIS apontou para a redução de 120 a 140 minutos no tempo de comunicação entre médicos e enfermeiros após a organização e automação das informações assistenciais.
