A inteligência artificial e o aumento da expectativa de vida estão alterando duas premissas que orientaram a organização do trabalho por décadas: a ideia de que as empresas precisam de funcionários em tempo integral para executar suas atividades e a expectativa de que a carreira seguirá uma trajetória relativamente previsível até a aposentadoria. Para Rishad Tobaccowala, autor, professor e ex-estrategista global do Publicis Groupe, o futuro terá mais trabalho e oportunidades de geração de renda, mas menos empregos tradicionais. O desafio será reorganizar as atividades profissionais para aproveitar a tecnologia sem perder de vista as necessidades humanas.
A reflexão foi apresentada durante o Universo TOTVS, evento realizado em São Paulo, em palestra na qual Tobaccowala discutiu as transformações na natureza, na organização e no propósito do trabalho. Autor de Rethinking Work: Seismic Changes in the Where, When, and Why (Repensando o trabalho: mudanças sísmicas no onde, quando e por quê), publicado em 2025, o especialista defende que as organizações precisam deixar de pensar exclusivamente em cargos e vínculos empregatícios e passar a considerar as atividades que precisam ser realizadas, as competências necessárias e as diferentes formas de compor suas equipes.
A discussão ganha relevância diante da combinação de dois movimentos que permearam outras sessões do evento. De um lado, os sistemas de inteligência artificial começam a executar tarefas que antes dependiam exclusivamente de pessoas. De outro, o aumento da longevidade exige que os profissionais permaneçam ativos por mais tempo, atualizem seus conhecimentos e encontrem maneiras de financiar uma vida mais longa. O resultado é uma transformação que envolve tanto as estratégias das empresas quanto o planejamento individual de carreira.
A diferença entre trabalho e emprego

Uma das principais teses de Tobaccowala é que trabalho e emprego não são sinônimos. Ao longo da história, as pessoas realizaram atividades produtivas e geraram renda de diferentes maneiras, mas as organizações modernas passaram a estruturar grande parte desse trabalho em torno de cargos e jornadas convencionais.
A inteligência artificial acelera a revisão desse modelo porque os sistemas são desenvolvidos para executar tarefas, não necessariamente para ocupar posições inteiras dentro de uma organização. Em vez de substituir de forma integral um profissional, um agente pode assumir determinadas etapas de um processo, enquanto as pessoas se concentram em outras atividades.
Na avaliação do especialista, essa mudança deve ampliar a presença de profissionais com jornadas reduzidas e de agentes de IA nas equipes. A ideia é compatibilizar as necessidades das empresas com a possibilidade de distribuir o trabalho de maneira mais flexível.
O cenário desenhado por Tobaccowala é de maior diversidade nas formas de contratação e organização das atividades, com equipes compostas por pessoas com diferentes jornadas e sistemas de inteligência artificial com variados graus de autonomia.
Essa perspectiva também abre espaço para rever a resposta das empresas aos ganhos de produtividade proporcionados pela tecnologia. Em vez de converter automaticamente a eficiência em redução de pessoal, as organizações poderiam utilizar parte desse ganho para diminuir a jornada de trabalho, preservando os vínculos profissionais.
Tobaccowala sugere que, se a automação permitir elevar a produtividade em 20%, por exemplo, a empresa considere reduzir proporcionalmente o tempo de trabalho, em vez de simplesmente dispensar uma parcela de seus funcionários. A mudança depende de decisões sobre remuneração, benefícios, custos trabalhistas e desenho das funções, mas representa uma alternativa à associação direta entre automação e cortes de pessoal.
Viver mais exige trabalhar e aprender por mais tempo
A transformação do trabalho se conecta a outra mudança estrutural: a longevidade. O aumento da expectativa de vida amplia o período durante o qual as pessoas precisarão manter sua autonomia financeira e, ao mesmo tempo, acompanhar as mudanças nas profissões e nos negócios.
Essa relação foi abordada também por Laércio Cosentino, fundador e presidente do conselho da TOTVS, em sua apresentação no evento. Ao discutir longevidade, sucessão e equilíbrio, o executivo chamou a atenção para o descompasso entre o tempo de vida das pessoas e a velocidade de transformação das competências profissionais e dos modelos de negócio.
Na perspectiva apresentada por Cosentino, uma vida que pode chegar aos 100 anos exige rever a ideia de que a formação ocorre principalmente no início da carreira, seguida por décadas de trabalho relativamente estáveis e, por fim, pela aposentadoria. Nesse horizonte, a atualização profissional deixa de ser uma etapa pontual e passa a acompanhar toda a trajetória.
Cosentino destacou que a aceleração tecnológica torna os conhecimentos adquiridos no início da carreira insuficientes para garantir a atuação profissional ao longo de toda a vida. Enquanto uma pessoa completa sua formação, novas tecnologias podem alterar práticas, processos e competências exigidas pelo mercado.
O executivo também relacionou a longevidade à necessidade de planejamento financeiro. Viver mais significa precisar de recursos por mais tempo, o que pode exigir uma extensão da vida profissional. Surge, assim, uma equação que combina a necessidade de poupar, a disposição para continuar trabalhando e a atualização constante para permanecer relevante.
A inteligência artificial acrescenta outra dimensão a esse cenário. Se os sistemas assumirem uma parcela crescente das tarefas, os profissionais precisarão identificar como contribuir em atividades nas quais o conhecimento, a capacidade de julgamento e a compreensão do contexto continuem fazendo diferença.
Para Cosentino, a resposta passa por aprender e desaprender. A experiência acumulada continua sendo importante, mas não deve impedir a revisão de práticas que perderam a utilidade. A troca entre gerações também ganha relevância, tanto nas empresas quanto na preparação de sucessores, porque permite combinar o conhecimento adquirido ao longo da trajetória com novas competências e formas de trabalhar.
Empresas e profissionais precisam rever seus planos
As reflexões de Tobaccowala e Cosentino convergem em um ponto: a velocidade das mudanças torna menos previsíveis as trajetórias profissionais e a continuidade dos negócios. Para as empresas, isso significa rever estruturas, funções e formas de distribuir o trabalho. Para os indivíduos, exige preparar-se para uma vida profissional mais longa, com períodos de aprendizado, transição e adaptação.
O livro Rethinking Work amplia essa discussão ao questionar não apenas quem realizará o trabalho, mas também onde, quando e por que ele será feito. A obra aborda a diversidade de modelos organizacionais, a possibilidade de as pessoas combinarem diferentes atividades profissionais e a busca por maior autonomia e propósito, especialmente entre os trabalhadores mais jovens.
Segundo o autor, a jornada convencional com horários fixos perde espaço como referência universal. O trabalho pode ser realizado em ambientes distribuídos, com equipes que atuam em diferentes localidades e profissionais que combinam vínculos, projetos e objetivos. A flexibilidade, contudo, não elimina a necessidade de coordenação, liderança e definição de responsabilidades.
Para os gestores, a mudança implica ir além da escolha de ferramentas de IA. É preciso entender quais atividades precisam ser executadas, como pessoas e agentes podem colaborar e quais competências devem ser desenvolvidas para que a organização continue competitiva.
Para os profissionais, a longevidade reforça a importância de manter o aprendizado ativo, rever planos de carreira e desenvolver a capacidade de adaptação. A experiência não perde valor, mas precisa ser combinada com a disposição para incorporar conhecimentos e abandonar modelos que deixaram de funcionar.
A questão central, portanto, não é apenas quanto a inteligência artificial poderá automatizar. É como empresas e trabalhadores vão reorganizar as atividades, distribuir os ganhos de produtividade e criar oportunidades em uma sociedade na qual as pessoas vivem mais e as tecnologias transformam mais rapidamente as atividades profissionais.
