Da esquerda para a direita: Eduardo Costa, Fernando Macedo, Pedro Queiroz e Rafael Marquez. Especialistas durante painel no Rio Innovation Week 2026. Da esquerda para a direita: Eduardo Costa, Fernando Macedo, Pedro Queiroz e Rafael Marquez (Foto: Rafael Maia)

“O gargalo da IA não é o chip, é o elétron”

3 minutos de leitura

Painel do Rio Innovation Week aponta vantagem energética do Brasil para expansão da infraestrutura de IA, mas destaca desafios regulatórios e de transmissão



Por Rafael Maia em 13/08/2026

A corrida pela inteligência artificial já não é determinada apenas pela disponibilidade de chips, servidores ou modelos. O gargalo da IA começa antes, na capacidade de gerar, transmitir e entregar energia suficiente para sustentar a expansão dos data centers. Essa mudança foi resumida pelo gerente de soluções digitais da Vora Energia, Pedro Queiroz, durante o Rio Innovation Week: ‘o gargalo da IA não é o chip, é o elétron’. O cenário coloca o Brasil diante de uma oportunidade estratégica, sustentada por uma matriz energética diversificada e mais renovável que a média mundial. No entanto, o país precisa avançar em infraestrutura e ambiente regulatório para captar investimentos antes que outros países o façam.

Como resposta prioritária ao diagnóstico apresentado no painel “Data centers, IA e o desafio energético global”, os palestrantes apontaram a necessidade de maior previsibilidade regulatória. Na avaliação do CMO do Energy Summit, Rafael Marquez, um dos caminhos para enfrentar questões regulatórias e tarifárias é a aprovação no Senado do PL 278/2026, relacionado ao Redata.

Expansão de data centers de IA

Cérebro digital luminoso projetado sobre equipamentos em um data center com luzes vermelhas, simbolizando a expansão da IA
Imagem gerada digitalmente

O avanço dos serviços digitais e da computação em nuvem já havia ampliado a demanda por data centers. Com a inteligência artificial, porém, houve uma escalada na demanda global. Segundo Queiroz, os data centers já representam cerca de 1,5% do consumo global de energia, com concentração acima de 40% nos Estados Unidos. O crescimento é impulsionado pela necessidade de infraestrutura capaz de suportar volumes massivos de processamento, superiores aos exigidos pela computação tradicional.

A China oferece outro indicativo da importância da energia na localização desses empreendimentos. O país tem deslocado parte da infraestrutura de data centers para a região oeste, com maior oferta de energia renovável e clima mais frio. O movimento mostra que, além de critérios como terreno, conectividade e capital, a disponibilidade energética passou a ser um critério decisivo para definir onde os centros de dados serão instalados.

Brasil tem vantagens que precisam ser aproveitadas

Nesse cenário, o Brasil aparece com atributos difíceis de replicar. O país combina território, disponibilidade de recursos naturais, conectividade e uma matriz elétrica predominantemente renovável, com maiores participações das fontes hídrica, eólica, solar e de biomassa. 

A vantagem, contudo, não pode se resumir apenas em produzir energia limpa. Data centers precisam de fornecimento contínuo, previsível e confiável. Por isso, além da expansão da geração, entram na equação a necessidade de investimentos em transmissão, distribuição, armazenamento e soluções capazes de garantir estabilidade durante períodos de maior demanda. Baterias, por exemplo, podem ajudar a deslocar parte do consumo e reduzir a pressão sobre a rede nos horários de maior custo.

Vantagem energética esbarra em infraestrutura e regulação

O problema é que a velocidade de expansão da computação não acompanha a da infraestrutura elétrica. Queiroz destacou que projetos de data centers podem levar de cinco a sete anos para obter conexão à rede e que cerca de 20% dos empreendimentos no mundo sofrem atrasos relacionados a esse processo. No Brasil, a questão ganha outra dimensão: embora o país disponha de uma extensa rede elétrica, nem sempre há capacidade para entregar a energia necessária na ponta.

Outro ponto a ser solucionado diz respeito à agenda tributária e à agenda regulatória, que se cruzam no Redata. A iniciativa é vista como uma medida capaz de melhorar as condições para implantação de data centers no país, uma vez que prevê a suspensão de tributos federais na compra de equipamentos, desde que seja utilizada energia de fonte renovável e mantenha regularidade fiscal. A demora na definição de marcos regulatórios, inclusive para baterias, também foi citada como obstáculo à velocidade dos investimentos.

Mais do que um problema técnico, portanto, o desafio é de execução. O Brasil precisa transformar sua vantagem energética em capacidade contratável, conectada e disponível no prazo exigido pelos projetos. A oportunidade existe, mas não permanecerá aberta indefinidamente, visto que, como lembrou o diretor comercial da Solar Turbines, Eduardo Costa, outros mercados também disputam os mesmos investimentos.

Fábrica de IA é a próxima etapa

Essa pressão tende a aumentar à medida que a própria natureza da computação muda. No painel “NVIDIA Gov AI Academy: IA soberana para municípios – da demanda pública à infraestrutura crítica”, o engenheiro eletricista e gerente de negócios da NVIDIA Enterprise, Alaor Neto, apresentou o conceito de fábrica de IA como uma evolução do mercado em relação aos data centers tradicionais.

A lógica é tratar dados e energia como insumos que atravessam uma infraestrutura computacional para gerar tokens, transformando capacidade de processamento em inteligência. Nesse modelo, a eficiência passa a ser medida pela capacidade de gerar mais tokens com menor consumo de energia e menor custo, relacionando desempenho computacional, energia e eficiência econômica.

A ideia ganha relevância com a expansão dos agentes de IA. Em vez de uma interação pontual com um chatbot, múltiplos agentes podem operar continuamente, executar tarefas, pesquisar, raciocinar e acionar ferramentas para resolver problemas complexos de forma sistêmica. Segundo Neto, essa mudança pode multiplicar de dez a cem vezes a demanda de inferência.



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