Da esquerda para a direita: Renan Vieira, Maria Teresa Lima, Alessandra Andrade, Marilia Garcez, Samanta Souza e Lia Rizzo. Especialistas durante painel do evento SP2B Da esquerda para a direita: Renan Vieira, Maria Teresa Lima, Alessandra Andrade, Marilia Garcez, Samanta Souza e Lia Rizzo (Foto: Vanderlei Campos)

Dados, IA e integração conectam inovação ao dinamismo das cidades

4 minutos de leitura

Tecnologias geram resultados na gestão urbana quando sistemas e agentes atuam de forma integrada e dados orientam estratégias alinhadas às necessidades da população



Por Vanderlei Campos em 14/08/2026

A transformação digital das cidades não depende apenas da adoção de sensores, conectividade, automação ou inteligência artificial. O benefício dessas tecnologias está na capacidade de interconectar as diferentes inovações, integrar agentes públicos e privados e usar os dados produzidos pela própria cidade para adaptar estratégias à evolução das necessidades da população. Essa foi uma das principais conclusões do painel A engrenagem que mantém a cidade viva, durante o SP2B, realizado nesta semana, em São Paulo.

Os painelistas defenderam que a gestão das cidades exige cada vez mais integração entre infraestrutura, planejamento urbano, sustentabilidade e políticas públicas. A articulação entre diferentes níveis de governo e setores da economia é necessária para evitar decisões fragmentadas e transformar os recursos tecnológicos em resultados para a população.

“Quando se pensa em uma cidade, vem à mente a dimensão física: prédios, ruas, veículos e pessoas transitando. Mas também há outra cidade; digital, com sensores, câmeras, malhas de fibra, acessos wireless e tudo isso interconectado. Essa estrutura gera inúmeros sinais, que, quando agregados, geram dados que permitem que a cidade se conheça”, descreveu a diretora executiva da Claro empresas para Governo, Maria Teresa Lima.

Segundo a executiva, essa infraestrutura permite que os serviços públicos atuem de forma proativa. “Hoje, quando é necessário tapar um buraco ou acionar uma ambulância, é o cidadão que tem que ir atrás do serviço. Com conectividade e IA, passa a se entender o que não se via antes e se pode pensar em uma gestão proativa”, disse.

Bem-estar, inclusão, meio ambiente e economia interconectados

Ônibus 100% elétrico em operação pelo sistema de transporte público nas ruas de São Paulo
Veículo 100% elétrico e acessível nas ruas de São Paulo materializa a interconexão entre preservação do meio ambiente, bem-estar social, inclusão no transporte público e desenvolvimento econômico urbano (Foto: rafaelnlins/ Shutterstock)

A diretora-presidente da São Paulo Negócios, Alessandra Andrade, destacou as interseções entre qualidade de vida e desenvolvimento econômico. “Para atrair investimentos, a cidade tem que ser boa para se morar”, resumiu. Ela enfatizou que a capacidade de atrair e reter profissionais é um fator decisivo, principalmente para empresas intensivas em capital humano.

A diretora de Sustentabilidade, Economia Circular e Comunicação da Orizon VR, Marília Garcez, observou que, além dos serviços digitais, a capacidade das cidades de expor informações relevantes é um fator decisivo. No caso da coleta e destinação de resíduos, ela defende que tudo começa pela visibilidade dos efeitos ambientais, econômicos e fiscais das decisões estratégicas. “Isso é importante para a própria sociedade direcionar suas cobranças”, notou.

A eficiência das conexões entre os agentes públicos, privados e cidadãos, segundo Marília, é outro pilar de resultados das inovações. A própria Orizon define sua atividade como “valorização de resíduos”, por agregar lógica econômica às melhores práticas ambientais e sociais, com inovações industriais. Ela mencionou que, ao mesmo tempo em que a cidade de Recife teve reduções de emissões e custos com ônibus movidos a biometano (de lixo orgânico), os catadores de resíduos sólidos tiveram um aumento de 25% na renda, por uma conexão mais eficaz às indústrias.

Cultura de compartilhamento, transparência e colaboração

O presidente da Agência São Paulo de Desenvolvimento, Renan Vieira, lembrou que o Smart Sampa foi um dos primeiros grandes casos de uso do Geodata. Junto ao trabalho técnico de captura, agregação, análise e disparo de ações com base na riqueza de dados que se tornou disponível, ele destacou a importância de transformações também no relacionamento e na própria cultura das instituições, que passam por adequar os esquemas de compartilhamento e colaboração às oportunidades de melhorias que a tecnologia proporciona.

Central de monitoramento do programa Smart Sampa
Central de monitoramento do programa Smart Sampa (Foto: Divulgação/ Prefeitura Municipal de São Paulo)

“Não dá para aceitar aquele clichê de série policial americana, em que o FBI e o departamento local brigam pelo controle de uma investigação”, ironizou. “No Smart Sampa, conseguimos integrar forças policiais de jurisdições distintas (Polícia Federal, Secretaria de Segurança e Guarda Municipal)”.

A diretora executiva de Relações Institucionais e Sustentabilidade da Sabesp, Samanta Souza, chamou atenção para a importância de definir corretamente os parâmetros dos projetos. “Em qualquer projeto de infraestrutura e dados, temos que partir das premissas corretas”, afirmou.

Como exemplo, Samanta citou a ampliação do conceito de universalização trazida pelo novo marco legal do saneamento, que passou a incluir áreas rurais e ocupações informais. “Até 2023, 33% do esgoto ia para o Tietê, porque não se controlava as áreas informais”, esclareceu.

A diretora da Sabesp também destacou a importância da transparência e da confiabilidade dos dados para alinhar expectativas da população aos resultados possíveis. “Para 2029, podemos esperar que o Tietê tenha alguma recuperação da fauna e da flora, além de uma redução do mau cheiro. Mas não vai dar para liberar o banho como no Sena, até porque Paris levou décadas para chegar nesse ponto”, exemplificou. “A universalização é percebida imediatamente, mas os efeitos da recuperação ambiental levam tempo”, argumentou.

Governança rígida para suportar estratégias de agilidade

“Segurança, ética, privacidade e uma perfeita governança de dados são condições para qualquer iniciativa”, lembrou Maria Teresa. “Confiança é o pilar mais importante para inovação e desenvolvimento econômico”, enfatizou Alessandra Andrade, da São Paulo Negócios.

Os requisitos de segurança e conformidade, embora pareçam a face conservadora dos grandes projetos de inovação, são exatamente o que habilita movimentações ágeis, outro requisito cada vez mais importante nos resultados que interessam à população.

A especialista em tecnologia aplicada a serviços públicos da Claro empresas destacou que a conectividade e os dados não servem apenas para incrementar a qualidade da gestão pública. A informação ampla e em tempo real modifica a própria estratégia, com um alinhamento mais refinado e dinâmico das políticas públicas às demandas do cidadão em cada momento. “Como a IA vai tornar as cidades mais inteligentes é uma pergunta limitadora. Temos que indagar como será a cidade quando a IA gerar novas formas de viver”, afirmou Maria Teresa.

“Até então, falávamos de inclusão digital medindo uso de dispositivos e conectividade. Isso já está superado. Hoje, inclusão significa a capacidade das pessoas de usar a tecnologia para seu desenvolvimento e qualidade de vida. E tudo muda conforme as pessoas e o ambiente se transformam”, constatou. “A pandemia mudou conceitos de uma hora para outra, com impactos no mercado imobiliário, na mobilidade urbana e nas formas de emprego”, exemplificou.



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