O amadurecimento das fintechs trouxe desafios e responsabilidades que transformaram o cenário competitivo do setor financeiro. “Muitas instituições dormiram startups e acordaram bancos”, afirmou Regina Pedroso, diretora-executiva da Associação Brasileira de Tokenização (ABToken), durante o Febraban Tech 2026.

A frase sintetiza a transformação das empresas nativas digitais, que passaram a lidar com a complexidade das instituições reguladas e a se orientar por três pilares essenciais:
- Sustentabilidade financeira: foco em rentabilidade e fluxo de caixa consistente, em vez de crescimento isolado ou pontual.
- Governança corporativa: criação de comitês, transparência nas decisões e controles internos que assegurem conformidade com normas e regulamentos.
- Gestão de riscos: implementação de defesas robustas para garantir a continuidade das operações mesmo em cenários de alta volatilidade.
Essa adaptação, porém, trouxe um dilema: ao adotar estruturas mais rígidas, as fintechs podem perder parte de sua agilidade e perfil experimental, reduzindo a velocidade no lançamento de inovações. O desafio é equilibrar o cumprimento das “regras do jogo” com a capacidade de desenvolver, testar e aplicar novos conceitos rapidamente.
Nesse contexto, a proporcionalidade regulatória surge como alternativa para preservar a inovação. Como destacaram Sergio Costantini, presidente da ABFintechs, e Eduarda Davidovic, da Febraban, é necessário calibrar normas de acordo com o risco intrínseco da operação, e não apenas pelo tamanho do patrimônio. Assim, evita-se uma “bancarização” que dilua os diferenciais competitivos das fintechs.

Autorregulação como pacto de credibilidade
Outro caminho apontado é o fortalecimento das associações setoriais como braços auxiliares dos reguladores, como Banco Central e CVM. A autorregulação funciona como um pacto de credibilidade que qualifica o mercado. Os exemplos incluem:
· Know My Associate (KMA), da ABToken: programa de autorregulação para ativos digitais, que aplica checklists rigorosos de governança antes do licenciamento oficial, acelerando a entrada de players sérios.
· Núclea: iniciativa criada para reduzir desvios de conduta entre correspondentes bancários. Hoje reúne 600 participantes, com regras claras de ressarcimento e monitoramento, mostrando que a governança setorial pode escalar sem depender de intervenção constante do regulador.
Cibersegurança e compliance no centro das operações
Eduarda Davidovic reforçou que cibersegurança e compliance devem ser nativos e integrados ao plano de negócios, pois a eficiência operacional está diretamente ligada à proteção de dados, especialmente diante de ataques cada vez mais sofisticados.

Pelo lado do compliance, um exemplo prático de solução que protege a credibilidade do segmento é o Mecanismo Especial de Devolução (MED), com protocolos de rastreabilidade para recursos movimentados por múltiplas chaves Pix. A medida fortalece a confiança dos usuários e evita perdas operacionais.
Ao final do painel, o consenso entre os debatedores foi que o futuro das fintechs depende da capacidade de equilibrar inovação e responsabilidade, sem perder a essência que as tornou protagonistas.
*Especial para o Próximo Nível
