Fabio Alencar, Renato Sviresky, Guilherme Saraiva e Deepak Mathur durante uma apresentação em um evento, em um palco com telões e painéis de conferência. Da esquerda para a direita: Fabio Alencar, Renato Sviresky, Guilherme Saraiva e Deepak Mathur (Foto: Divulgação)

TV via satélite combina inovação e inclusão para sustentar crescimento da TV aberta

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Painel na SET Expo 2026 mostrou como, mesmo com o avanço do streaming, a TV via satélite incorpora recursos digitais e novos modelos de negócio sem abrir mão do alcance e da acessibilidade



Por Vanderlei Campos em 21/08/2026

A distribuição de conteúdo via satélite continua ampliando alcance, diversidade de programação e oportunidades de negócios, mesmo em um cenário de crescimento do streaming. Durante o painel Evolução tecnológica na distribuição de conteúdo via satélite, no SET Expo 2026, representantes da Claro empresas, Mileto Tecnologia e SES apresentaram números que apontam para a expansão da TV aberta via satélite, com forte presença nas regiões Norte e Nordeste, estímulo à produção audiovisual regional e novos modelos de monetização baseados em microrregionalização e na integração entre transmissão linear e serviços digitais.

Os painelistas defenderam que o sucesso dessas iniciativas está ligado à combinação entre inovação tecnológica e preservação da acessibilidade econômica. Ao mesmo tempo, alertaram que mudanças disruptivas que elevem custos podem comprometer a trajetória de inclusão que levou televisão, informação e conteúdo regionalizado a milhões de brasileiros.

Os casos apresentados mostraram que a evolução do setor tem ocorrido menos pela substituição de modelos e mais pela combinação entre alternativas de consumo. Enquanto a distribuição via satélite amplia a oferta de conteúdo regional e a cobertura em áreas menos atendidas, recursos de conectividade e streaming começam a criar formas de monetização e relacionamento com o público.

“Se perguntasse agora o que está ‘bombando’ na área de satélite e distribuição audiovisual, com certeza vocês pensariam em satélite de baixa órbita e streaming. Vou falar exatamente o oposto: de um caso de sucesso de TV aberta, linear, no satélite geoestacionário”, provocou Guilherme Saraiva, diretor de vendas de mídia e satélite da Claro empresas e conselheiro da SET, no início de sua apresentação.

Guilherme Saraiva, diretor de vendas de mídia e satélite da Claro empresas e conselheiro da SET, fala em um evento com microfone na mão e gesto de apresentação.
Guilherme Saraiva, diretor de vendas de mídia e satélite da Claro empresas e conselheiro da SET (Foto: Divulgação)

Segundo os dados apresentados por Saraiva, a plataforma TVRO Ku alcançou 17 milhões de receptores instalados desde 2022, com forte presença nas regiões Norte e Nordeste. Atualmente, cerca de 37% dos domicílios nordestinos e 24% dos domicílios da região Norte recebem o serviço.

A plataforma reúne atualmente 187 canais lineares e 33 rádios. Desses, 108 canais são regionalizados, permitindo que emissoras locais ampliem sua audiência e viabilizem novas oportunidades comerciais.

O executivo destacou que a iniciativa produziu efeitos que iam além do previsto inicialmente. A TV Diário, de Fortaleza, por exemplo, passou a alcançar audiência nacional mantendo uma linguagem fortemente regional. O mesmo ocorreu com canais do Piauí e do Rio Grande do Sul, que ganharam visibilidade fora de seus mercados de origem.

A estratégia evoluiu para projetos de microrregionalização. Em Minas Gerais, a TV Alterosa expandiu sua presença para cinco sinais distintos. A Rede Bahia opera seis sinais regionalizados, enquanto a Rede Amazônica chegou a 16 sinais diferentes na região Norte, utilizando microestúdios conectados a partir de Manaus. Segundo Saraiva, além de aproximar o conteúdo da realidade local, a iniciativa abriu novas fontes de receita para as afiliadas.

A expansão da plataforma também ampliou a diversidade da produção audiovisual disponível ao público. À medida que a ampliação da grade permite que o conteúdo vá além da produção em São Paulo e Rio de Janeiro, o espectador de fora desse eixo passa a contar com conteúdos que falem de sua região, ao mesmo tempo em que tem acesso a produções de diferentes partes do país. 

Além das grandes redes nacionais, a grade reúne canais regionais, religiosos, de notícias, turismo, agronegócio e esportes. Em vários casos, emissoras de pequeno porte passaram a alcançar todo o território nacional, mesmo operando com estruturas enxutas. “Tive a oportunidade de visitar a TV Imaculada, em Campo Grande. É de uma associação, que fica em uma residência, e com muito pouco recurso o pessoal consegue fazer um canal bem feito, que agora distribui conteúdo para o Brasil inteiro”, exemplificou Saraiva.

Inovação sem comprometer a acessibilidade

A preservação dos custos foi apresentada como um dos fatores centrais para o sucesso da TV aberta via satélite.

Durante a apresentação, Saraiva mostrou que receptores compatíveis com o serviço podem ser encontrados por valores entre R$ 75 e R$ 100, enquanto kits completos custam pouco mais de R$ 200 em algumas ofertas.

O executivo ressaltou que a expansão da base está diretamente relacionada à acessibilidade econômica da solução. “Se começarmos a pensar em receptor de R$ 600, não vai vender. Tem que caber no poder aquisitivo das classes C e D”, resumiu.

Segundo ele, a plataforma continua crescendo em um ritmo superior a 2 milhões de receptores por ano e ainda possui potencial para avançar além dos atuais 17 milhões de domicílios atendidos. Ao mesmo tempo, reconheceu que o crescimento do streaming representa um desafio importante para o setor.

Para responder a esse cenário, a Claro vem discutindo uma nova etapa de evolução da plataforma, conhecida como TVRO 2.5. O projeto busca incorporar recursos digitais sem alterar a lógica econômica que permitiu a expansão da TV aberta via satélite.

A iniciativa está estruturada em quatro pilares: medição de audiência e perfil de consumo; criação de novas oportunidades de monetização por meio de publicidade segmentada; incorporação de recursos de interatividade; e manutenção do padrão atual de distribuição de canais de TV para evitar aumento de custos. “O mercado publicitário pede dados”, argumentou Saraiva ao explicar a necessidade de medir audiência e oferecer métricas que permitam monetizar melhor o conteúdo regional.

Operação combina satélite e streaming

Outro caso apresentado no painel foi a continuidade de uma operação de TV por satélite anteriormente mantida pela Oi. Segundo Renato Sviresky, CTO da Mileto Tecnologia, a empresa reorganizou e modernizou a infraestrutura para manter o serviço em funcionamento e desenvolveu uma oferta híbrida, combinando a estabilidade da distribuição via satélite com a flexibilidade do streaming.

Renato Sviresky, CTO da Mileto Tecnologia, fala em um palco durante um evento, segurando um microfone e fazendo um gesto com a mão, ao lado de telões em fundo azul
Renato Sviresky, CTO da Mileto Tecnologia (Foto: Divulgação)

“Conseguimos manter a operação funcionando sem grandes disrupções para os clientes”, lembrou. Para o executivo, o resultado foi preservar uma operação considerada importante para consumidores, emissoras e provedores de conteúdo.

O futuro é híbrido

Na avaliação de Deepak Mathur, presidente da SES Media, o avanço do streaming não representa o fim da TV linear, mas uma transformação da forma como o conteúdo é distribuído e consumido.

Deepak Mathur, presidente da SES Media, participa de um evento em um palco, sentado em uma cadeira branca e usando microfone durante uma fala, com fundo de telão azul.
Deepak Mathur, presidente da SES Media (Foto: Divulgação)

O executivo reconheceu que o setor passou por um período de retração quando grandes produtoras e plataformas de streaming passaram a distribuir conteúdo diretamente ao consumidor. No entanto, segundo ele, os números globais mostram estabilização e até retomada do crescimento em alguns mercados.

Mathur atribui esse movimento à busca dos consumidores por ofertas integradas.

“O futuro da TV é híbrido”, afirmou. Segundo ele, os consumidores querem acessar diferentes conteúdos em um único ambiente e com uma única relação comercial.

“O consumidor não assina a Netflix pela experiência com streaming, mas porque encontra o conteúdo que quer consumir”, observou. Na avaliação do executivo, o provedor que conseguir integrar TV linear e vídeo sob demanda em uma experiência única terá vantagem competitiva. Como exemplo, ele citou a França, onde a Netflix passou a incluir a programação da emissora TF1 (o mais tradicional canal de TV aberta daquele país) dentro de sua oferta.

Para Mathur, a renovação de contratos de capacidade satelital até 2040, inclusive em mercados europeus altamente conectados por fibra óptica, demonstra que a distribuição linear continua relevante. O diferencial está na capacidade de combinar essa infraestrutura com serviços digitais e experiências sob demanda.

“O que os consumidores querem é facilidade de escolha”, resumiu o executivo. A partir dessa lógica, concluiu, as plataformas que conseguirem reunir conteúdo linear, streaming e interatividade em uma experiência integrada serão as que apresentarão melhores resultados nos próximos anos.



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