A evolução das tecnologias baseadas em software e nuvem está transformando a forma como emissoras e centrais de produção são projetadas e operadas. Nesse cenário, o Media Exchange Layer (MXL) e o conceito de Dynamic Media Facility (DMF) surgem como elementos centrais para a construção de uma infraestrutura de mídia mais aberta e capaz de conectar aplicações e recursos computacionais. Em painel realizado na SET Expo 2026, Claudio Szabas (Grass Valley), Carlos Cesar Abrahão (CCATECH) e os gerentes de Tecnologia da Globo, Marcelo Fontana e Edson Moura, apresentaram uma visão dessa mudança, abordando desde os fundamentos até os desafios práticos de implantação, orquestração e operação de ambientes baseados em software.
Marcelo Fontana e Edson Moura detalharam como a Globo está aplicando esses conceitos na prática. Diante da necessidade de modernizar os 38 controles de produção em operação, a emissora criou a Produção Central, plataforma em nuvem privada com aplicações em software, camada de orquestração e backbone IP 2110. Já existem cinco controles operando nesse modelo, com o objetivo de renovar progressivamente os demais, reduzir o tempo de configuração entre produções e viabilizar a operação descentralizada.
O MXL atua como camada de troca entre aplicações, enquanto a orquestração permite a ampliação de recursos para grandes eventos e a definição de camadas de infraestrutura, possibilitando que uma mesma sala opere em diferentes níveis de complexidade, conforme a demanda.
Aprofundando o tema, Claudio Szabas, da Grass Valley, explicou que o MXL resolve um gargalo crítico da virtualização: a comunicação entre aplicações de software sem a necessidade de constantes codificações e decodificações via ST 2110, NDI ou SRT, que podem aumentar a latência e a complexidades de sincronização. A solução permite o compartilhamento de áudio, vídeo e metadados por meio de memória de baixa latência. O MXL, um SDK aberto da Linux Foundation disponível no GitHub, habilita a DMF.
Szabas citou a BMC Production, na Holanda, como exemplo concreto de uso da tecnologia: uma das primeiras emissoras construídas integralmente em software, com nove salas de controle e recuperação de desastres (disaster recovery) na nuvem.
Flexibilidade amplia desafios de resiliência
Carlos Cesar Abrahão, da CCATECH, completou a discussão alertando para os cuidados estratégicos que a nova arquitetura exige. A migração para ambientes distribuídos multiplica dependências (APIs, identidade, DNS, infraestrutura híbrida) e pontos críticos de falha. Ele defendeu a adoção de uma matriz de impacto — financeira, institucional ou reputacional — específica para cada produto e momento, em vez de uma abordagem genérica.
Exemplos como a falha de transmissão de um debate eleitoral ou a ausência da camada de e-commerce em uma novela ilustram a necessidade de definir o “mínimo viável” antes de arquitetar a continuidade. A integração, segundo Abrahão, deixa de ser mera conexão técnica e passa a ser uma estratégia de independência, com orquestração flexível para garantir a operação do que realmente importa ao negócio.
O painel evidenciou que a transição para uma cadeia de produção baseada em software não é apenas tecnológica, mas também cultural e estratégica. Com MXL e DMF como pilares, emissoras como a Globo já avançam na prática, enquanto o mercado discute como equilibrar flexibilidade, eficiência e resiliência.
*Especial para o Próximo Nível
