O consumo de mídia passou por uma transformação irreversível na última década. O vídeo vertical, antes tratado como subproduto adaptado do tradicional 16×9 horizontal da televisão e do cinema, consolidou-se como a linguagem primária de engajamento e relacionamento. No painel “A força do vertical: novas linguagens, escala de produção e distribuição social”, realizado no SET Expo 2026, lideranças do setor audiovisual e de tecnologia debateram como transformar essa tendência em escala industrial e estratégia financeira.
Um dos pontos mais enfáticos das apresentações foi a diferenciação técnica e narrativa entre “cortar um vídeo horizontal” e “criar nativamente para o vertical”. A linguagem vertical exige gatilhos nos primeiros segundos, ritmo dinâmico e enquadramentos focados em expressões faciais, que prendam a atenção do usuário, explicou Arash Pendari, CEO & fundador da Vionlabs. “O vídeo vertical não é apenas a rotação do frame, é uma nova gramática audiovisual. O ritmo de edição, os gatilhos e o uso de inteligência contextual definem a retenção da audiência.”
Entre os exemplos práticos apresentados durante o painel estão grandes coberturas esportivas e jornalísticas, que exigem uma cadeia dedicada que transforma matérias de estúdio em vídeos ágeis, alinhando a autoridade da marca com criadores nativos. Outro exemplo são programas de entretenimento e marcas, com atrações focadas em comportamento, moda e universo automotivo, que utilizam linguagem de seriado, esquetes e testes de produto, criando oportunidades de branded content e patrocínio.
Inteligência artificial e automação
Mas como produzir conteúdo vertical em escala industrial mantendo a qualidade? A resposta apresentada por Arash Pendari passa pelo uso intensivo de inteligência artificial e análise de dados. A IA deixou de ser apenas um gerador de legendas automáticas para se tornar uma camada capaz de reenquadramento inteligente, que identifica pontos de interesse e readequa a ação principal dentro do frame 9×16.
A IA também surge na análise emocional e em cenas de alto impacto para identificar os momentos de maior interesse (gols, piadas, revelações) em longos acervos para gerar destaques automáticos. Surge ainda na acessibilidade, com modelos avançados para síntese de voz, narração automatizada e recursos visuais complementares que enriquecem a narrativa.
Embora plataformas como TikTok, Instagram e YouTube sejam indispensáveis para a descoberta de novos públicos, basear 100% da estratégia em algoritmos de terceiros representa um risco. Neste sentido, o painel destacou o desenvolvimento de ambientes próprios (como o UOL Flash) para hospedagem e monetização direta de vídeos verticais.
O debate mostrou que o vídeo vertical superou a fase de simples adaptação técnica. Ele passou a ser uma estratégia central de negócios, exigindo investimentos em infraestrutura de IA, capacitação de equipes e construção de ecossistemas híbridos de distribuição. Para os grandes veículos e criadores, o desafio não é mais decidir se devem produzir em vertical, mas sim como automatizar a produção com rigor editorial e rentabilizar a atenção do espectador onde quer que ele esteja.
*Especial para o Próximo Nível
