A produção musical já não é mais uma atividade restrita a gravadoras, artistas e estúdios, ela se tornou acessível a qualquer pessoa com acesso à internet. Ferramentas de IA possibilitam a criação de músicas completas a partir de simples comandos de texto, o que provoca uma explosão de conteúdos gerados por máquinas nas plataformas de streaming. Mas isso, por si só, não garante engajamento.
Dados levantados pelo The Verge mostram que a maioria dos ouvintes prefere músicas criadas por pessoas e afirmam que sequer ouviriam músicas de seus artistas favoritos que fossem produzidas com auxílio de IA.
Diante desse cenário, plataformas como Deezer, Spotify, Apple Music e YouTube vêm implementando mecanismos de identificação e controle de conteúdo, sem, contudo, optar por sua proibição.
Avalanche de músicas produzidas por máquinas
O uso de inteligência artificial na música não é exatamente novo. Há registro de projetos experimentais lançados já em 2018. Porém, o lançamento de ferramentas generativas voltadas ao grande público mudou a escala do fenômeno.
Com a chegada do Suno, em 2023, e do Udio, em 2024, produzir música virou uma tarefa simples até mesmo para quem não é artista ou especialista em tecnologia. Com um prompt comum, usuários podem criar composições inteiras e o resultado disso foi uma enxurrada de novos conteúdos nos serviços de streaming.
Esse crescimento tem gerado preocupação de profissionais, empresas e serviços digitais do ramo musical, que tentam equilibrar inovação tecnológica com transparência e proteção autoral aos criadores humanos.
A Deezer informou que, em setembro de 2025, cerca de 28% das músicas enviadas à plataforma foram totalmente geradas por IA. Poucos meses depois, o volume já superava 50 mil faixas por dia, ou 34% dos uploads. Os números continuaram a crescer e os envios diários alcançaram 75 mil músicas, aproximando-se do volume de produções humanas.
O Spotify também enfrenta o avanço desse tipo de conteúdo e busca maneiras para diminuir o impacto da tecnologia na plataforma. Em apenas um ano, ele removeu mais de 75 milhões de faixas classificadas como spam.
Crescimento dos uploads não significa audiência
Apesar da explosão na oferta, os números indicam que a demanda permanece limitada. De acordo com a Deezer, músicas geradas por IA representavam apenas 1% dos streams da plataforma em abril deste ano.
Levantamento da Deezer em parceria com a Ipsos mostrou que 51% dos entrevistados acreditam que a IA tende a gerar músicas mais genéricas e de menor qualidade, o que pode ajudar a explicar o desinteresse do público. Outro estudo, conduzido pelo The Hollywood Reporter em parceria com a Frost School of Music, revelou que 66% das pessoas afirmam nunca ouvir conscientemente músicas produzidas por inteligência artificial.
Repare que a pesquisa utiliza “conscientemente” para indicar a maneira que a ação de ouvir ocorre. Essa escolha de palavras se torna relevante diante da constatação da pesquisa da Deezer e Ipsos de que 97% dos entrevistados não conseguiram distinguir, em um teste às cegas, qual música era gerada por IA e qual era produzida por humanos.
Uma das explicações para a resistência relacionada às produções de IA reside na percepção de autenticidade. Pesquisadores de Singapura recorreram ao conceito de “vale da estranheza” do cientista japonês Masahiro Mori para explicar o viés negativo associado à música de IA. Mori descreve o desconforto humano ao se depararem com robôs que se parecem e imitam humanos, mas que carecem de autenticidade.
“Em contextos artísticos, esse desconforto surge não da aparência física, mas de como essas obras geradas por IA imitam a expressão artística humana sem capturar completamente sua profundidade emocional”, explicam os pesquisadores em artigo.
O que as plataformas estão fazendo
As principais plataformas não demonstram intenção de banir a música gerada por IA, mas têm ampliado medidas de controle e transparência.
A Deezer foi pioneira ao implementar sistemas de detecção automática, rotulagem e desmonetização. Atualmente, a empresa impede que esse conteúdo seja impulsionado por seus algoritmos de recomendação e retirou a monetização de 85% das reproduções identificadas como artificiais.
A Qobuz adotou tecnologia semelhante e publicou uma carta de princípios que reforça a centralidade da curadoria humana em sua plataforma.
Já Apple Music e Spotify optaram por modelos baseados em autodeclaração. As empresas exigem que gravadoras e criadores indiquem quando houve uso de IA. O Spotify também lançou recursos como créditos de IA, para identificar faixas de IA, e o selo “Verified by Spotify”, destinado a confirmar a existência de um artista humano por trás de um perfil.
O YouTube, por sua vez, exige a rotulagem de conteúdos produzidos com inteligência artificial e prevê penalidades para quem omitir essa informação.
Apenas o Bandcamp adotou uma política formal de proibição de músicas substancialmente geradas por IA, embora a fiscalização dependa principalmente de denúncias dos usuários.
