Durante muito tempo, a inteligência artificial foi vista pelas emissoras como uma tecnologia voltada para automatizar tarefas específicas: transcrever entrevistas, organizar arquivos, recomendar conteúdos ou acelerar processos de edição. Essa fase, porém, ficou para trás. Agora, o debate que ganha força em 2026 é outro.
A IA já não está apenas transformando a operação das empresas de mídia, ela passou a redesenhar o próprio modelo de negócios do setor. Hoje algoritmos ajudam a decidir quais conteúdos produzir, quanto investir em infraestrutura, como distribuir publicidade e como monetizar audiências.
Como monetizar conteúdos em um ambiente cada vez mais personalizado? Como reduzir custos sem comprometer a qualidade editorial? Como produzir mais formatos para múltiplas plataformas sem ampliar proporcionalmente as equipes? E, principalmente, como competir em um mercado em que plataformas digitais, criadores independentes e empresas de tecnologia disputam a atenção do mesmo público?
Essas são algumas das discussões que estarão no SET Expo 2026, um dos principais encontros da indústria de mídia e tecnologia da América Latina. A programação deste ano evidencia uma mudança de perspectiva: a inteligência artificial não é mais um espaço exclusivamente técnico. Agora ela virou parte da estratégia para a sustentabilidade das empresas de comunicação.
Da automação à estratégia
A primeira onda da inteligência artificial nas emissoras teve como foco a eficiência operacional. Ferramentas de reconhecimento de voz, tradução automática, geração de legendas, indexação de acervos e apoio à edição de vídeo passaram a integrar o dia a dia de redações e produtoras. Agora, a conversa evoluiu.
As empresas começam a utilizar modelos de IA para apoiar decisões de negócios, prever comportamento das audiências, otimizar investimentos em infraestrutura, automatizar fluxos complexos de produção e identificar novas oportunidades de monetização. Em vez de substituir apenas tarefas repetitivas, a tecnologia influencia decisões que impactam na receita, nos custos e na competitividade.
Essa mudança acompanha um movimento observado em diversos setores da economia. Segundo estudos da McKinsey, organizações que conseguem integrar inteligência artificial aos seus processos estratégicos tendem a acelerar ganhos de produtividade, ampliar margens operacionais e responder com mais rapidez às mudanças do mercado.
O diferencial está além da produção

Uma das grandes mostras do avanço do uso de IA está atrelada à produção audiovisual, já que agora ela é mais acessível graças à evolução das ferramentas digitais. Hoje, criar vídeos, transmissões ao vivo ou podcasts demanda menos infraestrutura do que há uma década. Isso significa que o diferencial competitivo já não está apenas na capacidade de produzir conteúdo, mas em como distribuí-lo, personalizá-lo, monetizá-lo e medir seu desempenho. E é justamente nesse ponto que a inteligência artificial ganha protagonismo.
Os algoritmos conseguem identificar padrões de consumo em tempo real, recomendar conteúdos personalizados, otimizar grades de programação, apoiar estratégias de publicidade segmentada e antecipar tendências de audiência. Na prática, as emissoras conseguem integrar dados, automatizar decisões e utilizar análises preditivas para orientar programação, distribuição e monetização.
Embora o uso da IA em ambientes jornalísticos desperte grande atenção, sua influência se estende a praticamente todas as áreas de uma empresa de mídia.
Na engenharia, algoritmos ajudam a monitorar equipamentos e prever falhas antes que elas comprometam transmissões. Na área comercial, apoiam campanhas publicitárias mais eficientes e direcionadas. Em operações de streaming, contribuem para melhorar a experiência do usuário por meio de recomendações personalizadas e otimização da entrega de conteúdo.
Em áreas administrativas, modelos inteligentes auxiliam na gestão de custos, planejamento financeiro e otimização do uso de infraestrutura em ambientes de computação em nuvem.
Para os executivos do setor, isso representa uma vantagem competitiva em um cenário de crescente fragmentação das audiências. É a inteligência artificial influenciando decisões de engenharia, marketing, negócios, produtos e, acima de tudo, governança.
O novo desafio: transformar dados em vantagem competitiva
A expansão da inteligência artificial também muda a forma como emissoras lidam com seus dados. Durante anos, informações sobre audiência, consumo de conteúdo e comportamento dos usuários permaneceram distribuídas em diferentes sistemas. Agora, essas bases alimentam modelos capazes de gerar previsões e apoiar decisões estratégicas.
Quanto maior a qualidade dos dados disponíveis, mais precisos tendem a ser os resultados produzidos pelos algoritmos. Isso faz com que governança de dados, interoperabilidade entre plataformas e qualidade da informação se tornem ativos tão importantes quanto a própria infraestrutura tecnológica.
Outro aspecto que ganha relevância é o impacto financeiro da inteligência artificial. Treinar modelos, armazenar grandes volumes de dados e executar aplicações baseadas em IA exige capacidade computacional significativa. Com a crescente adoção da computação em nuvem, controlar esses custos é cada vez mais estratégico para as empresas. Não por acaso, temas como otimização de infraestrutura, eficiência operacional e gestão inteligente de recursos tecnológicos já estão ocupando espaço nas discussões do setor.
Como o SET Expo 2026 reflete a nova fase da IA

Para a organização do evento, esse movimento é algo inevitável. O SET Expo tem em sua essência sinalizar as transformações da indústria audiovisual. Por isso, entre as discussões previstas para o congresso está o futuro das empresas de mídia e como ele dependerá menos da adoção isolada de ferramentas inteligentes e mais da capacidade de integrar IA aos modelos de negócio, às estratégias de monetização e às decisões corporativas.
A programação trará também outras dimensões desse processo, incluindo aplicações em produção audiovisual, gestão de conteúdo, infraestrutura baseada em nuvem, automação de fluxos, análise de dados, publicidade digital, segurança e novos formatos de distribuição. Em comum, todos esses temas apontam para uma mesma direção: a inteligência artificial é um componente estrutural da competitividade.
Neste sentido, a programação oficial do evento traz palestras como: Possibilitando a escalada da IA com segurança. Como as organizações devem se preparar para acelerar o uso, sem aumentar a exposição ao risco; Novas Aplicações em Produções Audiovisuais do Jornalismo aos Mega Eventos; MCP e IA na Produção Virtual: A Nova Era da Automação Inteligente; Da Operação à Orquestração: os novos desafios da Tecnologia de Mídia na Era da IA; Possibilitando a escalada da IA com segurança. Como as organizações devem se preparar para acelerar o uso, sem aumentar a exposição ao risco, entre outras.
Para quem atua em emissoras, produtoras, plataformas de streaming, empresas de telecomunicações ou fornecedores de tecnologia, acompanhar essas discussões significa entender como será o mercado nos próximos anos.
As organizações que enxergarem a IA apenas como uma ferramenta de automação tendem a capturar ganhos limitados de eficiência. Já aquelas que conseguirem incorporá-la às estratégias de negócio estarão mais preparadas para responder às mudanças no comportamento das audiências, criar novos produtos digitais e explorar modelos de receita ainda em consolidação.
O 38º Congresso de Tecnologia e Negócios de Mídia e Entretenimento acontece durante o SET EXPO 2026, de 17 a 20 de agosto, no Centro de Convenções I e II – Distrito Anhembi.
