Os computadores quânticos disponíveis atualmente ainda não têm capacidade para quebrar, em escala prática, os principais mecanismos criptográficos utilizados pelo sistema financeiro, mas os bancos já tratam a possibilidade como uma questão de planejamento. A estratégia envolve identificar onde estão os algoritmos potencialmente vulneráveis, avaliar sistemas e dados que precisam de proteção de longo prazo e preparar uma transição para a criptografia pós-quântica (PQC, na sigla em inglês).
O tema ganha espaço no Febraban Tech 2026, que será realizado de 24 a 26 de agosto, no Distrito Anhembi, em São Paulo. A programação coloca a computação quântica entre as tecnologias capazes de reconfigurar áreas como cibersegurança, risco e investimentos. O evento também terá discussões específicas sobre a preparação do setor financeiro para a era quântica.
A preocupação não está apenas no momento em que um computador quântico suficientemente potente estará disponível. O problema é que a migração da infraestrutura de segurança pode ser mais lenta do que o avanço da tecnologia.
O que é criptografia pós-quântica?
A criptografia pós-quântica reúne algoritmos desenvolvidos para proteger dados contra futuros ataques de computadores quânticos. Eles podem ser executados em computadores convencionais e buscam substituir ou complementar mecanismos criptográficos atuais.
Em 2024, o NIST publicou três padrões de criptografia pós-quântica: FIPS 203, FIPS 204 e FIPS 205. Em março de 2025, também selecionou o HQC para padronização como um mecanismo adicional de encapsulamento de chaves. O processo de padronização continua em andamento. A migração pode ser demorada porque envolve sistemas legados, aplicações, certificados, APIs, dispositivos, serviços em nuvem e fornecedores externos.
Um estudo da Febraban sobre tecnologias emergentes aponta a necessidade de planejamento estratégico, atualização de mecanismos de segurança e criptoagilidade, que é a capacidade de substituir algoritmos sem reconstruir toda a infraestrutura.
O primeiro passo é o inventário criptográfico: identificar onde os algoritmos são utilizados, quais dados protegem e quais sistemas dependem deles. A partir desse mapeamento, os bancos podem definir prioridades e planejar a migração.
Migração exige testes e flexibilidade
Uma das estratégias possíveis durante a transição é combinar algoritmos convencionais e pós-quânticos. A abordagem permite testar novos mecanismos antes de ampliar sua utilização. Outro conceito importante é a criptoagilidade, que permite atualizar algoritmos e mecanismos de proteção conforme novos padrões e ameaças surgem.
A preparação também considera o risco de “harvest now, decrypt later” (“coletar agora, decifrar depois”): dados criptografados podem ser capturados hoje e eventualmente decifrados no futuro, caso a capacidade computacional necessária esteja disponível.
A computação quântica representa, ao mesmo tempo, um desafio de segurança e uma possível oportunidade para o setor financeiro. Entre as aplicações estudadas estão otimização de carteiras, análise de riscos, derivativos e detecção de fraudes. A tecnologia, porém, ainda não substitui a computação convencional nas operações bancárias cotidianas. Para as instituições, o desafio é acompanhar seu desenvolvimento enquanto preparam a infraestrutura para possíveis impactos sobre a segurança digital.
Para o consumidor, grande parte dessa transição tende a ocorrer nos bastidores, com atualizações em sistemas, protocolos, certificados e equipamentos, sem necessariamente alterar a experiência de uso dos canais digitais.
Computação quântica no Febraban Tech 2026
No Febraban Tech 2026, o tema aparece na trilha “Tecnologias em ascensão reprogramam os setores” e no painel “IA + computação quântica: os novos horizontes da inteligência financeira”, em 26 de agosto, às 15h50, no Auditório Febraban Amarelo.
A discussão reforça um dos principais desafios da era quântica: a preparação precisa começar antes que a tecnologia represente uma ameaça concreta aos sistemas atuais. Inventário, novos padrões, criptoagilidade e atualização gradual da infraestrutura fazem parte desse processo.
