Servidores em um data center com racks iluminados por luzes vermelhas e arquitetura tecnológica de alta performance. Foto: Gorodenkoff / Shutterstock / Modificada com IA

Corrida pela infraestrutura de IA desafia a economia antes dos ganhos de produtividade

2 minutos de leitura

Investimentos bilionários em data centers, energia e chips pressionam custos globais e a política monetária, enquanto o Brasil busca espaço na nova cadeia de valor



Por Redação em 21/07/2026

Embora as tecnologias da informação historicamente estejam associadas a ganhos de eficiência e redução de custos, a atual corrida pela infraestrutura de IA tem produzido efeitos distintos no curto prazo. Antes que os ganhos de produtividade se materializem, a transição para essa nova etapa demanda investimentos expressivos em infraestrutura, capazes de pressionar cadeias de suprimentos e influenciar variáveis macroeconômicas, como juros e inflação.

Em entrevista à Forbes, o CIO do banco EFG para Américas, Luis Ferreira, aponta que a atual fase de investimentos em IA contraria a visão generalizada de que a adoção da tecnologia traria uma redução de despesas imediata. Nesse cenário, não haveria indícios concretos de que eventuais reduções no quadro de funcionários (headcount) sejam capazes de compensar financeiramente a massiva injeção de capital necessária para a infraestrutura, percepção semelhante à registrada pelo próprio banco central americano. “Diferente do senso comum de que a IA poderia reduzir custos, a ata do Fed afirma que essa expansão da IA, neste momento, está pressionando a inflação”, constata o economista.

Esse “choque de custos” gerado pelos investimentos atinge três setores principais.

No setor de Tecnologia, apenas quatro corporações (Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft) injetarão cerca de US$ 720 bilhões em datacenters neste ano, provocando uma escassez global que pode encarecer os chips de memória em até 400% e refletir no aumento de preços de laptops e smartphones para os consumidores finais.

Em Energia e Serviços Públicos, a necessidade colossal de eletricidade da infraestrutura obriga as empresas do setor a expandirem suas redes, movimento que repassa os altos custos adiante e deve manter as contas de luz inflacionadas pelo menos até 2028.

Na Construção Civil, como destaca o economista-chefe da Reach Capital, Igor Barenboim, erguer essas novas estruturas desencadeou uma alta demanda por matérias-primas como o cobre e até mesmo escassez de trabalhadores para as obras.

Expectativas, consumo e o mercado de trabalho

Para além dos custos tangíveis, o impacto macroeconômico decorre também das expectativas. Pesquisadores do Fed de St. Louis demonstram que o forte otimismo funciona como um “choque de notícias“: as famílias antecipam que os ganhos de produtividade da IA trarão um aumento salarial futuro e, para suavizar o padrão de vida, começam a aumentar o consumo e os gastos no tempo presente.

Em paralelo às incertezas ligadas a esses ganhos futuros, o mercado começa a notar dados mais fracos no emprego, pesando contra uma alta ainda maior dos juros pelas autoridades monetárias .

Com as famílias consumindo mais e as corporações gastando fortunas, a tese que previa cortes rápidos nas taxas de juros americanas tornou-se desatualizada. A equipe econômica da Reach Capital alerta que as taxas precisarão permanecer restritivas por mais tempo para desacelerar o choque inflacionário induzido pela própria tecnologia.

O presidente do Fed, Kevin Warsh, reconhece que o desenvolvimento atual da IA impulsiona fortemente a demanda agregada, caracterizando-se como uma força inflacionária que não pode ser tratada de forma passageira.

O risco Brasil: estagnação na base da cadeia de valor

Nessa verdadeira corrida de cifras bilionárias, Igor Barenboim adverte que o Brasil “não está no jogo“. O grave risco seria não reconhecer ou não utilizar politicamente as vantagens competitivas da geografia brasileira, especialmente sua abundância de energia limpa e água. Sem uma estratégia de inserção em alto nível, o país pode se limitar a exportar commodities (como minério de ferro e terras raras) para alicerçar a tecnologia estrangeira, permanecendo apenas como um coadjuvante na maior revolução tecnológica das últimas décadas.



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