Os golpes envolvendo dados pessoais afetam usuários de diferentes idades, classes sociais e regiões do país, mas a forma como esses impactos se distribuem não é homogênea. A nova edição da pesquisa Privacidade e Proteção de Dados Pessoais 2025, do Cetic.br, apresentada durante o 17º Seminário de Proteção à Privacidade e aos Dados Pessoais, mostra que fatores como escolaridade e tipo de dispositivo utilizado para acessar a internet influenciam diretamente a exposição a fraudes e a capacidade de reação das vítimas.
Um dos resultados inéditos da pesquisa mostra que 32% dos usuários de internet afirmam ter vivenciado tentativas de golpes usando seus dados pessoais em 2025, enquanto 20% foram efetivamente vítimas. O resultado indica uma mudança importante no cenário das fraudes digitais, com o e-mail caindo para a quinta posição entre os vetores mais mencionados. Os principais canais utilizados pelos fraudadores foram aplicativos de mensagens (84%) e ligações telefônicas (79%), seguidos por sites ou aplicativos falsos (71%), SMS (71%), e-mail (69%) e redes sociais (67%).

Os dados indicam que a vulnerabilidade aos golpes é fortemente relacionada às condições de acesso e uso da tecnologia. A pesquisa mostra que, entre as vítimas de golpes envolvendo sites ou aplicativos falsos, 80% utilizam exclusivamente o telefone celular para acessar a internet.
O coordenador da pesquisa, Winston Oyadomari, destacou que o tipo de dispositivo altera a exposição ao risco. Segundo ele, os dados mostram que vulnerabilidades digitais não decorrem apenas do comportamento individual, mas também das condições em que as pessoas acessam a Internet.
“Os dados mostram a Segurança como dimensão de conectividade significativa”, afirmou. O indicador global considera ter banda larga por um custo razoável; usar vários tipos de dispositivos; a qualidade da conexão; e a diversidade de ambientes em que navega. Conforme dados da pesquisa TIC Domicílios, apenas 20% dos cidadãos contam com condições plenas de acesso.
“Os usuários que combinam celular e computador reportam uma diversidade maior de práticas de gerenciamento de privacidade”, mencionou Oyadomari.
A diretora-executiva do InternetLab, Fernanda Campagnucci, observou que o ambiente móvel oferece uma experiência de uso que dificulta a proteção contra fraudadores. “É mais difícil conferir o endereço de um site no celular”, notou. Segundo ela, a navegação em aplicativos e as próprias circunstâncias de uso reduzem alternativas de verificação que costumam estar mais visíveis em computadores. A especialista constatou que em telas menores elementos como endereços completos, certificados de segurança e detalhes de autenticação tendem a ficar menos evidentes, reduzindo a capacidade de verificação dos usuários.

O risco é agravado por hábitos que se consolidaram na experiência digital cotidiana. O excesso de permissões solicitadas por aplicativos e a falta de clareza das interfaces em muitos serviços legítimos acabam acostumando os usuários a clicar rapidamente apenas para se livrar de avisos, pop-ups e telas de autorização. Distinguir uma solicitação legítima de uma tentativa de fraude torna-se uma tarefa cada vez mais difícil.
Frequência com que os usuários concordam com termos de uso sem ler

Políticas de privacidade geram valor
Os dados da pesquisa revelam que a preocupação com privacidade continua influenciando decisões dos usuários. Entre os entrevistados, 69% afirmaram já ter desinstalado aplicativos por receio sobre o uso de seus dados pessoais, 68% deixaram de acessar páginas na internet, 54% abandonaram plataformas ou serviços digitais e 52% desistiram de comprar aparelhos eletrônicos por preocupações relacionadas à privacidade. Os indicadores sugerem que, embora os usuários frequentemente aceitem termos e autorizações sem análise detalhada, continuam sensíveis aos riscos associados à coleta e ao tratamento de informações pessoais.
Para Fernanda Campagnucci, os dados ajudam a combater uma percepção cada vez mais comum de que a privacidade já teria sido definitivamente perdida. “Hoje se tem a percepção de que privacidade não existe mais e que nossos dados já estão espalhados de alguma forma. Mas é muito importante para os golpistas ter dados atualizados”, enfatizou.

Fernanda observou que a banalização da coleta de dados pode gerar uma sensação equivocada de inevitabilidade. Segundo ela, informações aparentemente triviais e dispersas ganham valor quando atualizadas e combinadas com outros registros, permitindo abordagens mais convincentes por parte dos fraudadores.
Ao comentar o uso crescente de ferramentas de inteligência artificial e dos mecanismos de rastreamento utilizados por plataformas digitais, a diretora-executiva do InternetLab chamou atenção para formas menos visíveis de coleta de dados. “Os chats com IA começam a incluir cookies. Podem não compartilhar nossos conteúdos, mas vão nos tagueando”, mencionou. Independentemente da política de uso dos dados inseridos nos prompts, processos de categorização e perfilização permitem inferir interesses, hábitos e características dos usuários a partir de seus comportamentos online.
Golpes atingem a todos, mas impactos são desiguais
Outro dado que chamou a atenção dos pesquisadores é que mesmo pessoas que tentam reduzir sua presença digital continuam expostas ao uso indevido de informações pessoais.
“Mesmo as pessoas que tentam fugir do ambiente digital podem ter seus dados explorados de alguma forma pelos fraudadores”, advertiu Winston Oyadomari. “Alguém que não se expõe em redes sociais pode aparecer no perfil de um parente ou amigo. Essas informações sobre parentesco e outros vínculos podem ser usadas para obter mais dados pessoais e usá-los nas fraudes”, exemplificou. Ele lembrou que esse é um dos fatores que coloca as chamadas telefônicas em posição destacada entre os canais usados pelos criminosos.

“Todos nós estamos sujeitos a tentativas de golpe”, resumiu Oyadomari. No entanto, os efeitos não são distribuídos da mesma maneira. Pessoas com menor escolaridade relatam impactos mais intensos em praticamente todas as categorias investigadas.
“Os mais vulneráveis a sofrer os golpes são também os que sentem mais o impacto”, observou Fernanda Campagnucci.
As consequências vão muito além da perda financeira. Os entrevistados relataram mal-estar emocional, estresse, roubo de dinheiro, perda de acesso a contas, roubo de informações bancárias e contratação de dívidas em seu nome. Também aparecem consequências ligadas à interrupção de serviços e ao bloqueio de acessos essenciais para a vida cotidiana. “O beneficiário de um programa social que perca acesso ao gov.br tem mais dificuldade de recuperar e o bloqueio tumultua toda sua vida”, exemplificou o pesquisador do Cetic.

Os números da privacidade no Brasil
- 32% dos usuários sofreram tentativas de golpes com dados pessoais em 2025
- 20% foram vítimas efetivas
- Aplicativos de mensagens (84%) e ligações telefônicas (79%) lideram os canais de fraude
- E-mail caiu para a quinta posição entre os vetores mais citados (69%)
- 80% das vítimas de golpes por sites ou aplicativos falsos acessam a internet exclusivamente pelo celular
- 69% já desinstalaram aplicativos por preocupações com privacidade
- 68% deixaram de acessar páginas na internet
- 54% abandonaram plataformas ou serviços digitais
- 52% desistiram de comprar algum aparelho eletrônico
