O rádio continua sendo um dos meios de comunicação de maior alcance no Brasil e sua evolução já não se limita às ondas hertzianas. Durante painel na SET Expo 2026, especialistas descreveram como a convergência entre streaming, plataformas digitais, assistentes de voz, satélite e novas ferramentas de distribuição está redefinindo o mercado. A constatação é que o comportamento do público mudou menos do que se imagina: as pessoas continuam consumindo rádio, mas cada vez mais por meios digitais.
João Confrance, fundador da Loopert, empresa especializada em tecnologia e monetização para emissoras de rádio, abriu sua apresentação abordando dois desafios históricos do setor: mensuração de audiência e monetização. Ele destacou que a maior parte das emissoras brasileiras ainda opera sem informações precisas sobre seu público.
“O rádio tradicionalmente não sabe qual audiência tem, com exceção das grandes emissoras que pagam pesquisas caras. Do universo de 5.700 a 6.000 rádios no Brasil, a maioria não sabe. Porém, o ouvinte não mudou seu comportamento; ele continua ouvindo rádio, mas agora pela internet”, ponderou.
O executivo apresentou indicadores que mostram a relevância do áudio no ambiente digital. Dados da Kantar IBOPE apontam que 92% da população consumiu algum formato de áudio nos últimos 30 dias. Além disso, 60% dos ouvintes de rádio também utilizam serviços de streaming musical e metade consumiu podcasts nos últimos três meses.
Para Confrance, esses números mostram que rádio, streaming e podcasts não competem necessariamente entre si, mas fazem parte de uma mesma jornada de consumo.
O desafio da monetização
Embora a audiência tenha migrado para diferentes plataformas digitais, a distribuição dos investimentos publicitários ainda não acompanha esse movimento. Segundo os dados apresentados, o mercado publicitário destinou R$ 11,7 bilhões para mídia digital no último ano, enquanto o áudio digital recebeu apenas R$ 34,9 milhões.
“Há dinheiro na mesa e audiência consumindo, mas o rádio/áudio digital não consegue capturar essa verba”, disse Confrance.
A própria base de dados da Loopert ilustra o potencial do setor. A empresa já validou mais de 135 milhões de sessões de áudio digital e processou interações de cerca de 360 mil ouvintes por meio dos canais de WhatsApp das emissoras.
Outro dado destacado foi o tempo de permanência dos ouvintes. Segundo Confrance, a audiência do rádio em streaming permanece conectada por períodos comparáveis, e em alguns casos superiores, aos observados em plataformas digitais amplamente consolidadas.
“O rádio é sim muito relevante no digital”, resumiu.
O valor do conteúdo local
Questionado sobre o avanço dos podcasts em vídeo e a crescente presença de conteúdo audiovisual em plataformas como YouTube, Confrance defendeu que o áudio continuará tendo espaço próprio. “Sim, há muito espaço para o puro áudio e o consumo de áudio digital vai crescer ainda mais. Os podcasts e o streaming de áudio não canibalizam o rádio; eles se complementam”, afirmou.
Na avaliação do executivo, a principal vantagem competitiva do rádio continua sendo sua capacidade de conexão à realidade local. “O comunicador fala dos problemas da cidade, o que nenhuma mídia global substitui”, destacou.
Ele observou ainda que, especialmente em municípios de pequeno e médio porte, o rádio continua desempenhando papel central na cobertura jornalística e na formação da agenda pública. “Em cidades de 50 a 150 mil habitantes, quem manda é o rádio”, resumiu.
Rádios temáticas e presença multiplataforma
Outro tema abordado durante o debate foi o crescimento das rádios web e dos canais especializados em nichos.
Segundo Confrance, projetos temáticos conseguem construir audiências expressivas quando oferecem conteúdo diferenciado e uma estratégia consistente de distribuição. “Se for apenas mais uma rádio web genérica de música sem estrutura, não atrai audiência”, contrapôs.
Para ele, a presença em múltiplos canais tornou-se indispensável. “É fundamental estar em todas as plataformas e agregadores, ter aplicativo próprio e estar presente em assistentes de voz como a Alexa, pois as pessoas substituíram o rádio de pilha por caixas de som conectadas em casa”, observou.
O papel do satélite na expansão do rádio
A transformação do setor também alcança os modelos de distribuição. Durante o painel, o diretor de vendas para mídia e satélite da Claro empresas e conselheiro da SET, Guilherme Saraiva, destacou que a migração das parabólicas da banda C para a banda Ku, realizada para liberar espectro para o 5G, acabou ampliando a presença das emissoras de rádio em um novo ambiente de distribuição.
“Na migração da banda C para a banda Ku, atingimos cerca de 17 milhões de domicílios com as novas antenas”, contou. Segundo o executivo, a inclusão de emissoras de rádio na grade de programação surgiu inicialmente como uma oportunidade complementar, mas rapidamente demonstrou potencial de audiência. Atualmente, a plataforma reúne 33 emissoras de rádio e 187 canais na grade distribuída via satélite. “Quando inserimos os canais de TV, a chegada das rádios foi uma surpresa muito agradável”, lembrou.
Novos formatos para monetização
A experiência de incluir rádios nos pacotes de TV aberta via satélite também levou ao desenvolvimento de novos formatos comerciais. Saraiva mencionou o “Canal Podcast”, criado para aproveitar visualmente os canais de rádio distribuídos pela plataforma.
“Como a rádio no satélite normalmente ficava com uma tela azul sem imagem, criamos uma opção com metade do custo de um canal de TV, em que transmitimos a imagem em estúdio reduzida com um banner ao redor para veiculação comercial e chamadas”, descreveu.
