A IBM ratificou seu plano de longo prazo ao anunciar um novo compromisso de investir US$ 10 bilhões em computação quântica ao longo dos próximos cinco anos. O aporte reflete a estratégia agressiva da companhia, de se consolidar como a “Nvidia da computação quântica”, conforme disse o diretor do IBM Think Lab, George Tulevski, à revista Época.
Segundo a reportagem, assim como a fabricante de chips se tornou a peça central da inteligência artificial, a IBM busca fornecer o maquinário fundamental para esta nova geração de supercomputadores. “Queremos fazer avançar a indústria de computação quântica. Já fabricamos o melhor e mais eficiente hardware quântico do mundo e vamos continuar fazendo isso”, afirmou o executivo.
Com esse anúncio recente da IBM, a companhia detalha os desdobramentos os preceitos da estratégia definida no ano anterior, para entrega do Quantum Starling, a máquina de larga escala projetada para 2029 que, segundo a empresa, será capaz de realizar cálculos de forma confiável e com correção de erros para aplicações comerciais e científicas.
“A IBM está mapeando a próxima fronteira na computação quântica”, definiu o presidente e CEO da IBM, Arvind Krishna. “Nosso expertise em matemática, física e engenharia está abrindo caminho para um computador quântico de larga escala e tolerante a falhas que resolverá desafios do mundo real e abrirá imensas possibilidades para os negócios”, argumentou.
Aporte do Estado
Pelo papel que hegemonia quântica tende a desempenhar nas disputas geopolíticas do final desta década em diante, a corporação norte-americana ganhou um sócio investidor de peso, que ainda agrega garantia de escala. Conforme detalhado pelo portal TI Inside, a IBM assinou uma carta de intenções com o Departamento de Comércio americano para viabilizar a Anderon, uma empresa independente sediada em Nova York.
O empreendimento é avaliado em US$ 2 bilhões, sendo custeado por US$ 1 bilhão da própria IBM — em dinheiro, propriedade intelectual e força de trabalho — e por uma subvenção governamental de US$ 1 bilhão via Lei CHIPS. A Anderon operará de forma pioneira como uma fundição “pure-play”, estritamente dedicada à fabricação de wafers quânticos.
A engenharia por trás do sistema: qbits em supercondutores
A abordagem da IBM para a escalabilidade de seus processadores baseia-se na representação dos qbits em supercondutores. A companhia adota uma técnica considerada “canônica”, com o silício resfriado por meio de uma tecnologia conhecida como junção Josephson.
Ao reduzir a temperatura do metal depositado sobre o silício até um ponto muito próximo do zero absoluto, o material atinge o estado supercondutor. Nessa condição extrema, os elétrons perdem sua resistência elétrica e passam a se comportar de maneira coletiva, permitindo que os sensíveis fenômenos quânticos sejam estabilizados e levados a uma situação macroscópica para, enfim, realizar a computação.
Do roteiro à realidade: o caminho para o Quantum Starling e além

O foco principal do roteiro quântico da empresa é construir máquinas tolerantes a falhas, utilizando “qubits lógicos”, um conjunto de vários qubits físicos ruidosos que operam agrupados para armazenar informações e monitorar erros uns dos outros ativamente.
Os pontos desse roadmap exigirão grandes inovações de engenharia:
- 2026 (IBM Quantum Kookaburra): O primeiro processador modular projetado para processar e armazenar informações quânticas interligando operações de mais de um chip .
- 2027 (IBM Quantum Cockatoo): Uma evolução na arquitetura que vai interligar dois módulos Kookaburra através de “acopladores C”, evitando a necessidade de construir chips grandes e pouco práticos.
- 2029 (IBM Quantum Starling): A concretização do primeiro sistema quântico de larga escala tolerante a falhas, que utilizará 200 qubits lógicos estruturados a partir de blocos menores para executar 100 milhões de operações quânticas sem falhas.
- Pós-2029 (IBM Quantum Blue Jay): Utilizando o Starling como bloco base, o objetivo final projetado para o início da próxima década é um computador monumental, capaz de executar 1 bilhão de operações usando 2.000 qubits lógicos.
A corrida quântica

O imenso horizonte comercial da tecnologia abriu uma intensa frente de disputa entre as gigantes globais, testando diferentes abordagens físicas. A posição dos principais concorrentes se desenha da seguinte forma:
- IBM: Com mais de 90 sistemas quânticos já instalados globalmente , possui o roadmap mais agressivo centrado na escalabilidade da abordagem dos supercondutores.
- Microsoft: A fabricante do Windows aposta na arquitetura dos “qubits topológicos”, buscando a estabilidade por meio de materiais físicos inovadores em vez do uso intensivo de correção de erros da concorrência. Especialistas apontam, no entanto, que ela ainda carece de uma demonstração prática tão robusta quanto a dos sistemas supercondutores.
- AWS (Amazon): A líder global em nuvem investe na diversificação, focando esforços alternativos no desenvolvimento do chip Ocelot e dos “cat qubits”. O objetivo central dessa vertente tecnológica é reduzir a necessidade de recursos voltados para a correção de erros em até 90%.
- Google: Assim como a IBM, o Google aposta de forma agressiva nos qubits supercondutores. A companhia tem um roadmap voltado para a escala de correção de erros com o objetivo final de construir uma máquina com 1 milhão de qubits físicos na próxima década.
