imagem desktop summit imagem desktop summit
Da esquerda para a direita: Bruno Alcantara, João Del Nero e Luiz Pacete . Durante painel no stand da Claro empresas no Web Summit Rio 2026 Da esquerda para a direita: Bruno Alcantara, João Del Nero e Luiz Pacete (Foto: Vanderlei Campos)

Orquestração e serviços avançam para a governança de IA

5 minutos de leitura

Claro empresas e IBM anunciam parceria para implementação do watsonx, para prover soluções que transformam experimentos tecnológicos em valor sustentável e seguro aos negócios



Por Vanderlei Campos em 12/06/2026

O avanço acelerado da inteligência artificial (IA) tem demandado das organizações uma postura estratégica que vai além da simples implementação de novas ferramentas. Para debater os impactos dessa evolução, especialistas compuseram o painel O Próximo Nível da IA Corporativa – Governança, Automação e Dados Integrados, realizado durante o Web Summit 2026

O encontro marcou o lançamento de uma parceria focada em unir a robusta estrutura de serviços da Claro empresas — que hoje conta com 6 mil profissionais dedicados a suporte, fábrica de software, analytics e IA — à reputação e liderança tecnológica da plataforma watsonx da IBM. O objetivo principal da iniciativa é disseminar a governança de dados e de IA no ambiente corporativo nacional.

Na busca por eficiência operacional, é comum que as empresas busquem soluções prontas capazes de trazer retornos rápidos. No entanto, o gerente de vendas de data analytics e IA da Claro empresas, João Del Nero, adverte sobre a necessidade de uma mudança estrutural interna. “É preciso criar estruturas e processos com as novas tecnologias, em vez de tentar aplicar as novas tecnologias sobre os mesmos processos”, destacou.

Del Nero ressalta que a governança deve ser encarada como um alicerce básico desde o início do projeto. Embora represente um custo adicional imediato, é o pilar que viabiliza a transição dos experimentos para a escala operacional com segurança. O executivo destacou o conceito de paradoxo artificial, sinalizando que, sem critérios rígidos, a tecnologia pode se voltar contra o negócio. “Quanto mais processos e mais agentes se pensa em colocar, mais risco se tem de tomar a decisão errada”, alertou, reforçando que a mitigação desse risco reside unicamente na governança, responsável por transformar a inteligência artificial em confiança artificial.

IA confiável

“Vemos hoje uma tendência semelhante à que ocorreu com a nuvem”, comparou o executivo de vendas de segurança de dados e IA da IBM, Bruno Alcântara. “Há uma década, os gestores lidavam com a desconfiança em relação aos custos variáveis da nuvem, desafio semelhante ao que ocorre hoje com a IA em produção”, lembrou.

“A IA gera valor sustentável se ela for confiável”, resumiu o especialista da IBM.

Segundo o executivo, a confiabilidade do sistema depende integralmente do tratamento dado aos insumos informacionais. “Se o processo de governança do dado, antes mesmo de chegar à IA, não está bem estabelecido, bem executado, com linhagem, com qualidade do dado, olhando se a informação que vem do CRM daquele cliente está cruzando certo com a informação que se tem na transação, a IA não vai conseguir dar a resposta certa na ponta”, argumentou.

Diante disso, a integração de bases de dados torna-se vital para potencializar o uso das ferramentas analíticas. Além da organização interna, a parceria estratégica visa habilitar a produtização e a monetização desses ativos por meio do compartilhamento seguro. “Dentro da nossa oferta, da parceria IBM e Claro, há um ponto essencial que chamamos de compartilhamento de dados (data sharing), de como transformar aquele dado em num produto”, explicou Alcântara.

“A parceria com a Claro empresas permite entregar ao cliente uma camada muito importante, de serviços. A Claro empresas mantém um Centro de Excelência em dados e IA e a proximidade e conhecimento dos clientes faz toda a diferença no custo e nos resultados dos projetos”, avaliou.

Governança do ciclo de vida dos modelos e a plataforma watsonx

A governança corporativa estende-se também ao gerenciamento do ciclo de vida dos modelos preditivos convencionais (machine learning) e dos novos modelos de IA generativa (LLMs). João Del Nero defende que o monitoramento deve ocorrer de forma agnóstica e open source, alinhado à realidade multicloud e híbrida do mercado. Essa supervisão contínua se conecta às práticas de FinOps, fornecendo insumos para que a gestão decida pelo descomissionamento de modelos obsoletos que consomem recursos sem trazer o devido retorno financeiro (ROI).

Para operacionalizar esses conceitos, as empresas demandam plataformas automatizadas como o watsonx, capaz de analisar desvios de comportamento dos algoritmos, monitorar a perda de performance (drift) e fixar barreiras de proteção (guardrails).

A urgência por controle técnico é referendada por dados de mercado. Bruno Alcântara aponta que, em períodos recentes, mais de 90% dos projetos e pilotos de IA falharam por ausência de governança e indefinição de casos de uso claros. Como contrapartida, ele cita a estratégia Client Zero da própria IBM, que aplicou os mecanismos internamente em seus sistemas legados de recursos humanos, vendas e help desk, gerando um retorno de US$ 4,5 bilhões entre 2023 e 2025. 

“A governança deixou de ser um tema de controle para ser um acelerador na adoção da IA”, afirmou Alcântara.

Regulamentação e conformidade no mercado

O ambiente de negócios também é pressionado pela evolução regulatória. Assim como a LGPD balizou o tratamento de dados pessoais no Brasil com base no modelo europeu, novas legislações começam a ditar os rumos da inteligência artificial.

O mercado caminha sob as diretrizes de legislações específicas e de referências internacionais como o EU AI Act. “Hoje já temos uma legislação de IA (PL 2338), e já está em vigor na Europa o EU AI Act. Essas legislações vão dizer como a IA tem que ser regida: ela não pode ter viés, não pode ter caráter discriminatório, e tem que ter explicabilidade. Por exemplo, um banco não pode usar um CEP para calcular o score de crédito, pois tem caráter discriminatório”, mencionou Alcântara.

O executivo argumenta que a união de processos bem estruturados e plataformas tecnológicas adequadas traz segurança para o corpo diretivo das empresas. Ao conferir previsibilidade e sustentabilidade aos projetos, a governança garante ao CFO e aos demais tomadores de decisão a visibilidade necessária sobre os indicadores de eficiência e o retorno dos investimentos efetuados.

Estrutura de pilares de governança e implementação

Escopo da governança de dados

  • Controle e padrão de qualidade: verificação e padronização contínua dos ativos de dados.
  • Catalogação estruturada: organização e centralização de dados para otimizar o acesso técnico.
  • Descoberta automatizada: mapeamento completo e localização de informações no ecossistema corporativo (data lake).
  • Classificação de dados críticos: Identificação e separação de registros pessoais e sensíveis sob as normas da LGPD.
  • Linhagem e rastreabilidade: mapeamento da origem, transformações e destino do dado ao longo dos processos.
  • Gestão de acessos e permissões: controle estrito de credenciais, monitorando quem acessa e a respectiva finalidade.
  • Políticas de uso e compliance: estabelecimento de regras institucionais em conformidade com as regulações.
  • Integração e padronização: conexão de silos de dados para maximizar a eficiência dos algoritmos.
  • Gerenciamento de metadados: administração das propriedades estruturais e integridade dos dados.
  • Privacidade: adequação às normas legais de proteção à privacidade de dados.
  • Compartilhamento de dados (Data Sharing): estruturação e preparação dos ativos informacionais para fins de produtização e monetização.
  • Observabilidade e monitoramento: auditoria em tempo real dos fluxos de dados corporativos.

Escopo da governança de IA

  • Gestão do ciclo de vida: supervisão completa dos modelos tradicionais e generativos, desde a criação ao descomissionamento.
  • Monitoramento de performance e drift: avaliação contínua do desempenho técnico e desvios comportamentais dos modelos.
  • Detecção de viés e riscos éticos: identificação e neutralização de critérios discriminatórios ou preconceituosos nos algoritmos.
  • Explicabilidade algorítmica: capacidade de justificar as razões técnicas por trás de cada decisão automatizada.
  • Auditoria de processos: rastreabilidade total das rotinas operacionais executadas pelos sistemas inteligentes.
  • Governança de prompts e agentes: monitoramento de comandos, interações e autonomia das aplicações generativas.
  • Segurança dos modelos: salvaguarda contra vulnerabilidades na operação das estruturas de IA.
  • Compliance regulatório adicional: alinhamento estrito a leis vigentes, como o PL 2338 e diretrizes internacionais.
  • Gestão de risco e uso responsável: mitigação de ameaças institucionais atreladas à automação decisória.
  • Otimização financeira (FinOps): Descomissionamento de aplicações ineficientes para controle do consumo de tokens.

Como simplificar a jornada prática

  • Seleção restrita de casos de uso: iniciar o processo com foco delimitado em dois ou três cenários de negócios específicos (como vendas, logística ou atendimento), evitando dispersão de escopo.
  • Mapeamento diagnóstico dos dados: avaliar a qualidade atual, o nível de integração e a localização precisa das informações que alimentarão a IA.
  • Adoção conectada de políticas e plataformas: estabelecer diretrizes corporativas apoiadas pelo uso de ferramentas automatizadas, acelerando rotinas de descoberta e classificação de dados sensíveis.
  • Monitoramento prévio: iniciar a medição de performance e consumo de recursos ainda na fase de testes, garantindo previsibilidade orçamentária antes da implantação final.


Matérias relacionadas

Servidores em um data center com racks iluminados por luzes vermelhas e arquitetura tecnológica de alta performance. Estratégia

Corrida pela infraestrutura de IA desafia a economia antes dos ganhos de produtividade

Investimentos bilionários em data centers, energia e chips pressionam custos globais e a política monetária, enquanto o Brasil busca espaço na nova cadeia de valor

Pessoa trabalhando em notebook com interface digital de IA em estilo futurista, mostrando o texto “IA Agents”, elementos de busca, anúncios e painéis de análise em vermelho e branco. Estratégia

Tecnologia pode substituir horas de trabalho por eficiência no varejo

Automação de processos e inteligência artificial permitem elevar a produtividade, redistribuir tarefas e preservar a qualidade do atendimento diante da possível redução da jornada e do fim da escala 6×1

ícone de cadeado digital em destaque com circuitos e pontos luminosos em tons de vermelho, simbolizando cibersegurança, proteção e segurança de dados Estratégia

Organizações avançam na cibersegurança de ambientes industriais

Visibilidade sobre parques automatizados, estrutura de defesas e arquiteturas seguras de conectividade trazem amadurecimento da segurança em ambientes que sustentam operações críticas, enquanto amplia consciência sobre os riscos

Mão em primeiro plano segurando um escudo digital em estilo holográfico com ícones de tecnologia, sugerindo proteção e soberania digital. Ao fundo, notebook na mesa. Estratégia

Estudo identifica inovação, governança e autonomia tecnológica como pilares da soberania digital

Publicação do CTS-FGV defende a implementação de um Sistema Nacional de Soberania Digital para reduzir a dependência de plataformas estrangeiras