Mão em primeiro plano segurando um escudo digital em estilo holográfico com ícones de tecnologia, sugerindo proteção e soberania digital. Ao fundo, notebook na mesa. Foto: Ole.CNX / Shutterstock / Modificada com IA

Estudo identifica inovação, governança e autonomia tecnológica como pilares da soberania digital

4 minutos de leitura

Publicação do CTS-FGV defende a implementação de um Sistema Nacional de Soberania Digital para reduzir a dependência de plataformas estrangeiras



Por Redação em 14/07/2026

As tensões geopolíticas no mundo trouxeram à tona o debate sobre soberania em diversas instâncias, dentre elas a digital. Impulsionado pelo avanço da transformação digital, da inteligência artificial e das preocupações com a cibersegurança, o debate sobre a soberania digital ganhou força nos últimos anos. O tema, especialmente seus impactos para o desenvolvimento tecnológico brasileiro, foi o foco central do livro “Soberania Digital e Artificial no Brasil”, lançado pelo Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV Direito Rio (CTS-FGV).

A publicação reúne os principais resultados do projeto CyberBRICS, que analisa a atuação dos países do BRICS em relação à soberania digital. Antes de se aprofundar nos cinco capítulos, os autores definem a soberania nacional, ainda no resumo executivo, como “a capacidade de entender o funcionamento das tecnologias digitais, conseguir desenvolvê-las e regulá-las efetivamente, exercendo, portanto, autodeterminação, poder e controle sobre ativos digitais tais como dados, softwares, hardwares e redes eletrônicas”.

O conceito, antes relacionado prioritariamente à “organização jurídico-política da sociedade a partir do poder estatal”, se tornou apenas uma das dimensões da soberania. Diante da digitalização da economia e das relações, o controle sobre a infraestrutura tecnológica que sustenta setores internos da sociedade ganhou um peso maior no novo arranjo socioeconômico. A manutenção da dependência externa, nesse sentido, compromete a capacidade do Estado de ordenar a vida social.

Sem o conhecimento e o desenvolvimento de soluções nacionais de serviços e de plataformas tecnológicas para assegurar a transformação digital até mesmo de organizações públicas, o país opta por soluções de terceiros. Em um movimento de conveniência, guiado, de acordo com o estudo, por incentivos corporativos e não por critérios de responsabilidade democrática, perde-se o domínio sobre informações críticas e  operações estratégicas para a administração. As soluções, frequentemente administradas por empresas estrangeiras, são descritas como difíceis de substituir devido à dependência  que a arquitetura delas causa. Como resultado, a autonomia da maioria dos países — com exceção dos Estados Unidos e, em certa medida, da China — permanece limitada. Para reverter esse quadro, o estudo aponta para o investimento em pesquisa e inovação.

Open Source fortalece a soberania digital

Por oferecer “vetores tangíveis de autodeterminação e possibilitar a verificabilidade, auditabilidade e colaborações público-privadas baseadas em transparência”, o livro identifica o open source como alavanca para autonomia tecnológica. A experiência brasileira, ainda que pioneira, mostrou que além de ampliar o acesso e a transparência, o open source deve ser estimulado para a produção e exportação de tecnologias em software de código aberto. Dessa forma, o modelo deve ser incentivado como política industrial que promova o desenvolvimento de produtos e serviços inovadores capazes de reduzir a dependência estrangeira.

Há, no entanto, uma diferença entre adotar as tecnologias abertas e produzi-las, determinante para avançar em soberania digital, especialmente no que diz respeito à inteligência artificial. Os autores explicam que “em vez de se limitar à substituição de softwares proprietários por equivalentes abertos, trata-se de usar o open source como uma plataforma de coordenação público-privada e de projeção de poder infraestrutural, capaz de moldar padrões tecnológicos e regulatórios a partir da própria arquitetura”.

O código aberto também exige normas específicas em segurança, privacidade e não discriminação, por exemplo. Além disso, a política de soberania por código aberto compreende, conforme a obra relata, três pilares:

  • Regulação: enquadramento regulatório que determine a obrigatoriedade de práticas transparentes e de auditoria.
  • Financeiro: trata de incentivos industriais, como o financiamento da manutenção de bens.
  • Cooperação: mecanismos interadministrativos de compartilhamento de componentes críticos que constituem bens públicos digitais.

No contexto da IA, o open source atua simultaneamente em três frentes da estruturação da soberania, sendo ele o mitigador de riscos de dependência, o catalisador de capacidades locais de pesquisa e certificação e o vetor de projeção internacional de autonomia tecnológica.

No primeiro caso, ao basear os sistemas de IA em arquiteturas de código aberto, facilita-se a portabilidade e a interoperabilidade dos dados e serviços. Isso significa que o Estado ou as empresas podem trocar de fornecedor com mais facilidade, evitando que o país fique dependente de infraestruturas proprietárias estrangeiras.

No segundo caso, a abertura do código permite o fomento de um ecossistema produtivo interno, com maior poder de adaptar, manter e auditar componentes críticos de forma independente.

Por fim, ao investir na produção de modelos e infraestruturas de IA em código aberto, o país deixa de ser um mero consumidor passivo de soluções prontas. 

Autonomia tecnológica requer governança

A autonomia tecnológica não é apenas uma aspiração política, mas um imperativo jurídico previsto no artigo 219 da Constituição Federal, que orienta o incentivo ao mercado interno para o desenvolvimento nacional. 

Na prática, o Brasil busca essa autonomia por meio de políticas como o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que prevê investimentos de R$ 23 bilhões até 2028. O plano, estruturado em cinco eixos, visa estruturar um supercomputador nacional, uma nuvem soberana de dados públicos e o fomento a modelos de linguagem em português.

De acordo com o estudo, o sucesso dessa jornada depende da articulação dos Facilitadores Essenciais da Soberania em Inteligência Artificial (FESIA), que compõem a pilha (stack) tecnológica. Essas camadas interdependentes englobam desde o controle de dados pessoais e capacidade computacional, até o fornecimento de recursos energéticos e minerais críticos, conectividade significativa, cibersegurança e a formação e retenção de talentos (humanware). Software e modelos algorítmicos, regulação de riscos e resiliência cognitivo-informacional completam a pilha.

A pesquisa revela, no entanto, que a governança atual ainda é altamente fragmentada, com atores e políticas atuando de forma desarticulada. Sugere-se a criação de um sistema de governança multissetorial por meio de um Conselho que coordene políticas públicas, financiamento, e desenvolvimento no curto, médio e longo prazo.

O Estado, mais do que um regulador ou financiador, deve atuar como um cliente-âncora, “criando demanda inicial para tecnologias emergentes e garantindo condições de escala e aprendizado para fornecedores nacionais. Essa lógica se estende desde os supercomputadores e softwares de código aberto até serviços de nuvem soberana e soluções de cibersegurança”.

Caminhos para o Brasil

Bandeira do Brasil hasteada em um mastro sob céu azul com nuvens, vista ao ar livre em dia ensolarado. Verde e amarelo em destaque.
Foto: Em_concepts / Shutterstock

Como solução e estratégia para a soberania digital, o CTS-FGV propõe a implementação de um Sistema Nacional de Soberania Digital (SNSD). Este sistema deve ser encarado como um projeto de Estado, operando de forma contínua para garantir a coerência das ações ao longo das trocas de governos.

A arquitetura proposta para o SNSD contaria com a criação de um Conselho Nacional de Soberania Digital (CNSD), que teria como função:

  • definir prioridades estratégicas e planos plurianuais de soberania digital
  • alocar recursos do Fundo Nacional de Soberania Digital (FNSD)
  • elaborar notas para fundamentar tomada de decisões estratégicas 
  • arbitrar conflitos federativos ou interministeriais

O estudo também propõe o estabelecimento de uma Secretaria Executiva Técnica para reduzir a fragmentação institucional e operar como centro de expertise, responsável por avaliar políticas e coordenar planos interinstitucionais. Para garantir a viabilidade  e a previsibilidade econômica da soberania digital, o documento também propõe a criação de um Fundo Nacional de Soberania Digital (FNSD). 

O projeto também prevê a “Avaliação de Autonomia Tecnológica” (AAT), um instrumento de certificação para verificar o cumprimento dos padrões de segurança da informação.



Matérias relacionadas

Profissional de TI em data center observa um notebook enquanto ao fundo servidores e racks com luzes vermelhas indicam infraestrutura digital e computação em nuvem Estratégia

Bancos investem R$ 50 bi em infraestrutura digital e inovação de serviços

Modernização de arquitetura, cloud, segurança e IA são eixos da estratégia para absorver o aumento contínuo do volume transacional e das ofertas de facilidades aos clientes

Close em um notebook com alertas visuais e ícones de risco em vermelho ao redor de um envelope de e-mail, sugerindo ameaças e vulnerabilidades de software em segurança digital. Estratégia

O sistema global de alarme da cibersegurança está entrando em colapso

Há um grande esforço para lidar com o backlog no rastreamento de vulnerabilidades. Especialistas correm para criar alternativas

Profissional em escritório de cibersegurança observando telas com painéis e códigos em vermelho, indicando monitoramento e análise de sistemas e ameaças digitais. Estratégia

Claro empresas e MIT Technology Review Brasil lançam iniciativa colaborativa de CISOs

Comunidade reúne líderes de grandes organizações para discutir desafios locais em cibersegurança, promover colaboração entre empresas e posicionar a segurança como um pilar de crescimento sustentável

Pessoa usando notebook com interface de cibersegurança: ícone de alerta, máscara de dados em formato de rosto, bloqueio e sinais de deepfake na tela, com criptografia e códigos digitais ao redor. Estratégia

Como a IA reduz o tempo de ataque e por que a defesa tradicional não é suficiente

Ataques impulsionados por inteligência artificial reduzem drasticamente o tempo de resposta das empresas e exigem uma nova arquitetura de defesa baseada em automação, integração e IA