A descentralização dos data centers brasileiros concentrados no Sudeste enfrenta um desafio geográfico e de infraestrutura. A maioria dos projetos de missão crítica encontra-se concentrada em polos da capital paulista e de duas cidades do interior – Barueri e Campinas – além do Rio de Janeiro.
Essa concentração ocorre porque o Sudeste atualmente consegue unir as três pontas essenciais para a tecnologia de nuvem e IA: alto consumo de processamento, disponibilidade de energia e, sobretudo, boa conectividade.
Em contrapartida, as regiões Norte e Nordeste possuem um grande potencial para abrigar novos data centers, uma vez que dispõem de energia limpa e renovável, como as fontes eólica e solar, em abundância e a um custo acessível.
Um dos principais fatores que têm impedido que os imensos data centers de IA sejam instalados nessas regiões é justamente o gargalo na conectividade de ponta. A chave para resolver essa questão está nos cabos submarinos, que atuam como a principal solução técnica para viabilizar a descentralização das estruturas.
Isso ocorre porque os cabos desse tipo são a espinha dorsal da comunicação global, sendo responsáveis pelo transporte de 98% de todo o tráfego mundial de dados, voz e vídeo, operando com um índice de falhas muito inferior ao das redes terrestres de fibra óptica.
Para lidar com essas demandas, projetos recentes focados especificamente no tráfego gerado pela IA estão sendo executados com diferenciais. Um exemplo é o novo cabo submarino internacional Synapse, anunciado pela empresa V.tal.
De acordo com o site Submarine Telecoms Forum, esse sistema foi projetado para conectar Tuckerton, no estado norte-americano de Nova Jersey, a São Paulo, criando uma nova rota transatlântica dedicada a garantir resiliência e alta capacidade de tráfego de dados entre a América do Norte e a América do Sul.
O cabo terá uma extensão aproximada de 9.700 quilômetros e será equipado com 16 pares de fibra óptica, tendo a capacidade desenhada para suportar circuitos de até 800 Gbps.
Esse projeto foi idealizado para atender aos requisitos crescentes dos provedores de nuvem (hyperscalers) e acomodar cargas maciças de trabalho impulsionadas pela IA, que vêm aumentando exponencialmente os fluxos internacionais de dados.
Outro aspecto relevante é que, além de sua rota principal, o Synapse prevê uma ramificação futura no Nordeste brasileiro, com uma extensão de cerca de 460 quilômetros até Fortaleza, no Ceará. Essa ramificação permitirá uma interconexão direta com o data center Mega Lobster, uma instalação de 20 MW administrada pela Tecto, consolidando a importância de Fortaleza como o maior hub de cabos submarinos da América Latina.
A simples chegada de cabos a novas regiões atrai o mercado imediatamente, fenômeno observado também com a extensão do cabo Malbec até Porto Alegre (RS), projeto anunciado em 2025 que já atraiu empresas de data centers para investir no Sul do país.
Cabos costeiros ampliam a conectividade no litoral
Entretanto, levar a conexão internacional até hubs específicos do país resolve apenas uma parte da equação. Para que a descentralização dos data centers de IA de fato ocorra ao longo de todo o litoral, é essencial compreender as diferenças entre os tipos de cabos submarinos e suas aplicações.
Os grandes cabos projetados para conectar longas distâncias transoceânicas precisam ser lançados em águas profundas, o que exige a contratação de embarcações altamente especializadas. Por cruzarem oceanos inteiros, essas infraestruturas dependem da instalação de um grande número de repetidores de sinal ao longo do trajeto, o que encarece significativamente a operação e a manutenção.
A solução tecnológica e econômica que tem atraído empresas de data centers para distribuir a conectividade robusta pelo litoral é o uso do cabo submarino do tipo festoon, como aponta reportagem da Tele.Sintese. Diferente das rotas em águas profundas, esses cabos são instalados ao longo da extensa plataforma continental do Brasil, acomodados em águas mais rasas que variam entre 100 e 150 metros de profundidade.
Essa característica costeira permite que a instalação seja feita por embarcações mais simples. Mais importante ainda, como esses cabos têm o objetivo de conectar pontos em distâncias mais curtas, geralmente em trechos de até 300 quilômetros, eles dispensam o uso de repetidores de sinal.
Consequentemente, o investimento para a construção, a operação e a manutenção de cabos festoon é muito menor e o processo muito mais simples. Essa viabilidade torna o sistema uma alternativa mais adequada para aproveitar a alta disponibilidade dos cabos submarinos internacionais que chegam a Fortaleza e distribuí-la eficientemente para diversas outras capitais e cidades ao longo da costa brasileira.
Com a construção dessa malha litorânea de cabos, cria-se uma rede redundante, segura e estável, superando o principal obstáculo que afastava os data centers de IA das áreas onde há fartura de energia limpa.
Essa rede costeira de cabos tem o potencial de integrar até mesmo projetos estatais, conectando-se futuramente às infovias do programa Amazônia Conectada. Para os especialistas, a sinergia entre projetos internacionais de longa distância e a capilaridade dos cabos submarinos do tipo festoon pode ser a base física que permitirá ao Brasil integrar conectividade e energia renovável, criando o ambiente favorável para a descentralização e expansão dos data centers de IA.
