Odélio Horta Filho, líder de Vendas de Soluções Digitais para o Setor Público da Claro empresas Odélio Horta Filho, líder de Vendas de Soluções Digitais para o Setor Público da Claro empresas (Foto: Divulgação)

Educação e regulação: caminhos para proteger a autonomia humana na era da IA

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Estudo de executivo da Claro empresas analisa como preservar a capacidade humana de se informar, decidir e se expressar em um ambiente cada vez mais influenciado por algoritmos



Por Redação em 27/10/2026

A discussão sobre soberania digital costuma estar associada à infraestrutura tecnológica. Localização de datacenters, zonas na nuvem, proteção de dados e independência tecnológica aparecem no centro das estratégias de governos e organizações que buscam ampliar sua resiliência operacional e reduzir dependências críticas. Mas, à medida que a inteligência artificial se torna mais presente no cotidiano, entender os impactos humanos é fundamental para um protagonismo responsável no cenário de transformações. Esse é o ponto de partida do estudo de divulgação científica “Soberania digital e neurociências – hackeamento da mente dos brasileiros e nossa soberania”.

A partir de referências em neurociência, comportamento humano e regulação tecnológica, o Líder de Vendas de Soluções Digitais para o Setor Público da Claro empresas, Odélio Horta Filho, analisa como a evolução das plataformas digitais e dos sistemas de IA ampliou não apenas a capacidade de processamento e automação, mas também o potencial de influência sobre pensamentos, decisões e comportamentos.

O autor defende que os conhecimentos e técnicas da neurociência usados para direcionar a experiência digital e seus desdobramentos cognitivos também podem ser utilizados para mitigar os riscos e fortalecer a capacidade de pensamento crítico e autonomia diante das novas tecnologias.

Engenheiro de redes pela UnB e pós-graduado em Gestão Pública pela PUC-RS, Horta viu a necessidade de complementar seu repertório acadêmico com outra pós-graduação, também na PUC-RS, em Neurociência e Comportamento. Sua atuação profissional no setor de tecnologia também motivou a pesquisa sobre os impactos da IA e os desafios para sua adoção de forma sustentável e alinhada aos direitos fundamentais.

“Governança, regulação e princípios éticos são formas de garantir que o potencial da IA seja aplicado a promover usos que elevem a atividade humana, e não de suprimi-la”, resume Horta.

Odélio Horta Filho, líder de Vendas de Soluções Digitais para o Setor Público da Claro empresas
Odélio Horta Filho, líder de Vendas de Soluções Digitais para o Setor Público da Claro empresas (Foto: Divulgação)

O estudo recorre ao conceito de “hackeamento da mente” como uma metáfora para descrever a exploração de vulnerabilidades cognitivas, emocionais e comportamentais por meio de dados, algoritmos e técnicas de persuasão capazes de influenciar pensamentos, emoções e decisões, sem que as pessoas tenham plena consciência desse processo.

Ao analisar o funcionamento dos ambientes digitais contemporâneos, Horta recorre a estudos sobre atenção, vieses cognitivos, tomada de decisão e mecanismos de recompensa para explicar por que determinadas plataformas conseguem capturar o interesse dos usuários por períodos cada vez maiores.

O artigo faz referência às conclusões de Rápido e Devagar, do psicólogo e Nobel de Economia Daniel Kahneman. A obra demonstra como boa parte das decisões humanas é influenciada por processos intuitivos e automáticos, frequentemente baseados em atalhos mentais. Segundo o estudo, sistemas digitais podem explorar exatamente esses mecanismos para induzir escolhas, reforçar hábitos ou direcionar comportamentos.

Para o executivo, o avanço da IA torna essa discussão ainda mais relevante porque a tecnologia amplia a capacidade de personalização e adaptação dos sistemas digitais.

O desafio atual não é apenas proteger dados, mas proteger também a autonomia mental, a saúde emocional e a capacidade de decisão das pessoas.

Deepfakes x aprendizado cognitivo

Apesar dos riscos apontados pela literatura, Horta rejeita interpretações fatalistas sobre o impacto da tecnologia na sociedade. Ele lembrou o episódio com os Irmãos Lumière, que exibiram a filmagem de um trem chegando e os espectadores correram da sala de projeção. No século XX, com a popularização do audiovisual, a sociedade desenvolveu repertório para interpretar imagens mediadas pela tecnologia e diferenciá-las de acontecimentos reais. O mesmo processo continua acontecendo atualmente, mas em uma escala muito mais complexa.

“Desde então, tivemos vários avanços em processamento para criação audiovisual, até a realidade virtual e inteligência artificial. Em paralelo, há avanços incríveis na biotecnologia. Agora conseguimos testar hipóteses e entender mais profundamente como as partes do cérebro respondem às informações e estímulos”, destaca.

Na avaliação do executivo, a sociedade continua desenvolvendo mecanismos de adaptação e interpretação crítica. A diferença é que as tecnologias atuais possuem níveis de sofisticação, personalização e capacidade de influência muito superiores aos observados em revoluções tecnológicas anteriores.

Essa aceleração torna particularmente relevante o debate sobre deepfakes e conteúdos sintéticos produzidos por inteligência artificial. Vídeos, imagens e áudios gerados artificialmente já conseguem reproduzir com elevado grau de fidelidade a aparência, a voz e os comportamentos de pessoas reais. O problema não se limita à disseminação de informações falsas. Na avaliação do pesquisador, o avanço desse tipo de conteúdo também pode afetar mecanismos sociais básicos de validação da realidade, confiança institucional e tomada de decisão.

Para Horta, a discussão reforça a necessidade de combinar tecnologia, educação digital e governança. Assim como as gerações anteriores aprenderam a interpretar a linguagem do cinema, da televisão e da internet, será necessário desenvolver novas competências para lidar com conteúdos produzidos por IA.

O desafio, porém, é mais complexo porque os algoritmos não apenas produzem conteúdo. Eles também selecionam, priorizam e distribuem informações de maneira personalizada para cada indivíduo.

As lições da literatura

A análise desenvolvida por Horta reúne obras que ajudam a compreender diferentes dimensões desse fenômeno.

Em A Próxima Onda, Mustafa Suleyman e Michael Bhaskar alertam para os impactos da convergência entre inteligência artificial, biotecnologia e poder computacional, destacando riscos relacionados à concentração de poder e à governança dessas tecnologias.

Já A Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt, examina os efeitos da substituição progressiva das experiências presenciais pelo ambiente digital durante a infância e a adolescência. O livro se tornou uma das principais referências internacionais para o debate sobre restrições ao uso de celulares em escolas e influiu em iniciativas regulatórias adotadas recentemente em diferentes países, incluindo o Brasil.

Haidt mostra como a migração do brincar para o celular impacta atenção, sono, socialização e saúde mental.

Outra referência mencionada, Love Machines, de James Muldoon, amplia o debate para o campo dos relacionamentos, mostrando como sistemas de IA já influenciam vínculos afetivos, percepções de pertencimento e formas de interação social.

Da privacidade à integridade cognitiva

Na avaliação de Horta, a evolução da legislação brasileira acompanha essa ampliação do debate.

Se a LGPD concentrou esforços na proteção de dados pessoais, normas mais recentes passaram a incorporar preocupações relacionadas à influência comportamental, ao desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes e à proteção contra mecanismos digitais de indução.

“O tema central é a análise de como a regulação tecnológica evoluiu para proteger não apenas a privacidade dos dados, mas a própria autonomia do funcionamento mental humano contra manipulações algorítmicas e arquiteturas de escolha enviesadas”, explica o pesquisador.

Essa trajetória aparece na Lei dos Celulares nas Escolas, no ECA Digital e em dispositivos que restringem mecanismos voltados à captura excessiva de atenção ou ao estímulo compulsivo de comportamentos.

Regulação de IA e soberania cognitiva

Além de percorrer as legislações vigentes, Horta estende a análise às tendências de regulação da IA, a partir de uma avaliação do Projeto de Lei 2.338/2023.

“A proposta parte da premissa de que a IA não pode ser tratada apenas como vetor de inovação econômica, mas como tecnologia capaz de impactar direitos fundamentais, relações de trabalho, democracia, concorrência e segurança nacional”, reconhece.

O pesquisador nota que as plataformas com IA já são pilares da infraestrutura da economia e das relações sociais. Embora a proposta em discussão busque criar um ambiente mais seguro para o desenvolvimento de capacidades nacionais em pesquisa, infraestrutura computacional e soluções voltadas ao interesse público, a discussão avança além da infraestrutura.

“O conceito de integridade cognitiva torna-se central, entendido como a proteção da liberdade mental, da autonomia decisória e da capacidade crítica dos indivíduos diante de mecanismos tecnológicos persuasivos”, define Horta.

O estudo destaca que princípios como transparência, supervisão humana, prevenção de danos, não discriminação e tutela de direitos fundamentais buscam impedir que decisões relevantes sejam transferidas integralmente para sistemas automatizados sem controles adequados.

Transparência, observabilidade e controle

Embora a agenda envolva aspectos sociais, educacionais, jurídicos e culturais muito mais amplos do que a tecnologia em si, Horta entende que provedores de infraestrutura e parceiros de TI têm papel estruturante nesse processo.

A estratégia passa por oferecer mecanismos de transparência, observabilidade e controle capazes de garantir rastreabilidade de dados, auditoria de modelos, supervisão humana e governança ao longo de todo o ciclo de vida das aplicações.

“Os ambientes tecnológicos devem ser preparados não apenas para atender às exigências atuais da LGPD ou das normas voltadas à proteção de crianças e adolescentes, mas também para responder a demandas futuras relacionadas à explicabilidade dos algoritmos, gestão de riscos, visibilidade dos processos automatizados e preservação do poder de decisão humana”, descreve.



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