A corrida dos bancos pela inteligência artificial está começando em uma camada que nem sempre aparece para o cliente: a infraestrutura. Data centers, energia, refrigeração, conectividade, cloud, automação e governança estão sendo redesenhados para sustentar uma nova geração de aplicações e serviços. O movimento exige estruturas mais simples e modulares, mas também profissionais com novas competências e decisões tecnológicas tomadas em ciclos cada vez mais curtos.
Esse foi um dos principais pontos discutidos no painel “Do data center ao cluster de IA: infraestrutura, automação e o novo core bancário”, realizado nesta segunda-feira (24), no Febraban Tech 2026. Participaram Daniel Augusto Falbi, do Bradesco; Estevam Carvalho, do BTG Pactual; e Wladimir Silva, da Ascenty, com mediação de Silvia Bassi, da The Shift.
Para o Bradesco, a simplificação é um dos pilares dessa transformação. A instituição trabalha para reduzir a complexidade dos ambientes, com estruturas mais compactas e modulares, orientadas por propósitos bem definidos. A lógica é conectar infraestrutura e plataformas para criar condições de escala para a inteligência artificial.
“A infraestrutura deve ser leve, simples e modular”, destacou Falbi durante o painel, ao contrapor o novo modelo aos ambientes tradicionais, marcados pelo excesso de robustez.
A mudança também passa pela construção de plataformas capazes de integrar diferentes ambientes tecnológicos. No Bradesco, essa estratégia inclui iniciativas como o BEX (Bradesco Engineer Xperience), voltado à simplificação da jornada de infraestrutura, e ferramentas que utilizam IA para acelerar o trabalho das equipes de tecnologia.
IA muda também o data center
Se a IA exige mais capacidade computacional, a transformação não acontece apenas nos servidores. Para os data centers, a nova demanda significa repensar engenharia, energia, refrigeração e conectividade.
Segundo Wladimir Silva, da Ascenty, os bancos passaram a demandar ambientes preparados para uma lógica “AI first”, o que aproxima cada vez mais as áreas de tecnologia e engenharia. A infraestrutura precisa ser capaz de acompanhar cargas que podem crescer rapidamente e, ao mesmo tempo, operar dentro de parâmetros de sustentabilidade.

Nesse cenário, a energia ganha protagonismo. “Energia é a palavra-chave, o principal ativo”, afirmou Silva. Segundo Silva, a questão não está necessariamente na existência de capacidade instalada, mas na disponibilidade imediata para atender às novas demandas.
O redesenho também envolve automação. Monitorar consumo de energia, necessidade de refrigeração e conectividade passa a fazer parte de uma operação em que a infraestrutura precisa responder de maneira mais dinâmica às cargas de inteligência artificial.
Cloud e decisões em ciclos mais curtos
No BTG Pactual, a nuvem pública continua sendo uma das bases da estratégia tecnológica. Estevam Carvalho afirmou que, sem cloud, o banco teria levado mais tempo e gastado mais para chegar ao estágio atual.

Ao mesmo tempo, a velocidade da evolução da IA tornou as decisões de infraestrutura menos permanentes. O banco acompanha as mudanças nas estratégias dos grandes fornecedores e mantém aberta a possibilidade de rever suas escolhas.
“Nada é definitivo no mundo atual de IA”, afirmou Carvalho. Segundo ele, o horizonte de planejamento também mudou: em vez de pensar em ciclos de um ano, a instituição passou a considerar períodos de aproximadamente seis meses.
A mudança revela uma característica da atual transformação tecnológica do setor financeiro: a infraestrutura precisa ganhar capacidade de adaptação na mesma velocidade em que a tecnologia evolui.
IA também muda o perfil dos profissionais
A transformação não se limita à tecnologia. O avanço da automação e da IA também modifica o perfil das equipes responsáveis por construir e operar esses ambientes.
Carvalho apontou para a evolução do profissional de TI em direção a funções mais próximas do desenvolvimento de infraestrutura. A tendência é que especialistas passem a combinar conhecimento técnico sobre ambientes de infraestrutura com capacidade de desenvolver e otimizar soluções próprias.
O Bradesco também destacou o papel da experiência acumulada pelas equipes. Profissionais que conhecem profundamente os ambientes de infraestrutura podem ser potencializados por ferramentas de IA e gerar ganhos de produtividade.
Ao mesmo tempo, permanece um desafio: a formação de mão de obra. O BTG apontou uma escassez de profissionais especializados, enquanto a Ascenty destacou que a curva de aprendizado ainda está distante do ideal.
Governança para escalar
Com mais tecnologia, mais automação e mais possibilidades de uso de IA, surge outra questão: como escalar sem aumentar a complexidade?
Para o Bradesco, a resposta passa pela governança. A instituição considera necessário centralizar diretrizes para permitir a distribuição das soluções em escala, mantendo segurança e capacidade de mensurar o valor gerado.
A discussão mostra que a transformação da infraestrutura bancária não é apenas uma corrida por capacidade computacional. É uma busca por estruturas capazes de combinar escala, eficiência, segurança e flexibilidade em um ambiente tecnológico que muda em intervalos cada vez menores.
No caminho do data center ao cluster de IA, o setor financeiro está redesenhando não apenas sua infraestrutura, mas também a forma como desenvolve, opera e governa a tecnologia.
