Conforme prevê o relatório Latin America in the Intelligent Age, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial (WEF) em janeiro, a inteligência artificial pode acrescentar entre US$ 1,1 trilhão e US$ 1,7 trilhão à economia da América Latina até 2030. Durante o Web Summit Rio 2026, realizado na semana passada com cobertura do Próximo Nível, a head do Centro de Excelência em IA e membro do Comitê Executivo do WEF, Cathy Li, explicou os motivos, entre os quais está o envelhecimento populacional.
Segundo Cathy, o impacto econômico da tecnologia poderá elevar a produtividade regional entre 1,9% e 2,3%, movimento considerado relevante em um contexto de desaceleração do crescimento da força de trabalho. Para o WEF, a América Latina precisará substituir parte do modelo de expansão baseado na oferta de mão de obra por ganhos de eficiência impulsionados por tecnologia.
A mudança ocorre em um cenário de envelhecimento populacional. O relatório projeta que, até meados do século, cerca de um quarto da população latino-americana terá mais de 60 anos, reduzindo o chamado bônus demográfico que sustentou parte do crescimento econômico das últimas décadas.
Ao mesmo tempo, a região reúne condições consideradas favoráveis para capturar parte do valor gerado pela IA. Cathy listou a agricultura, mineração, energia e turismo entre os setores com potencial de aplicação da tecnologia, combinando relevância econômica e disponibilidade de dados operacionais.
O estudo do WEF também destaca a matriz energética da região como um diferencial competitivo. No caso brasileiro, cerca de 90% da geração de eletricidade provém de fontes renováveis, característica vista como estratégica em um momento de expansão global dos data centers e do consumo energético associado à inteligência artificial.
Adoção ainda gera pouco valor econômico
Para aproveitar o potencial da IA, Cathy pontuou que a adoção da tecnologia ainda enfrenta obstáculos. “Muitas empresas e organizações estão usando IA individualmente, mas isso não está realmente se traduzindo em valor”, disse. Segundo ela, dados do estudo do WEF indicam que apenas 23% das organizações conseguem capturar algum valor econômico a partir da inteligência artificial. E mais: somente uma parcela reduzida reporta ganhos considerados relevantes.
Cathy completou que muitas iniciativas permanecem restritas a projetos-piloto ou aplicações isoladas voltadas à produtividade individual. Contra isso, a recomendação é que empresas integrem a tecnologia aos processos centrais de negócios e a vinculem diretamente às estratégias corporativas. “A IA é um jogo de escala”, definiu.
Outro desafio identificado pela especialista é a formação de profissionais qualificados. Neste aspecto, a América Latina tem uma das maiores lacunas globais, como identificou o estudo. Entre os fatores que levam a isso estão a migração de profissionais qualificados para outros mercados, a competição com multinacionais por especialistas e o desalinhamento entre currículos educacionais e demandas da indústria.
A situação ganha relevância diante do peso das pequenas e médias empresas na economia regional. Elas representam aproximadamente 99,5% das organizações da América Latina, mas grande parte ainda encontra dificuldades para incorporar inteligência artificial aos negócios.
Para o WEF, portanto, ampliar a capacitação profissional exigirá integrar competências tecnológicas aos programas educacionais e aproximar profissionais de tecnologia e áreas de negócio.
Infraestrutura e governança
O relatório também identifica desafios relacionados à infraestrutura digital: entre 15% e 17% dos domicílios da região ainda não possuem acesso adequado à internet fixa, enquanto a expansão de aplicações de IA aumenta a necessidade de investimentos em conectividade, redes de alta capacidade e data centers.
Outro ponto é a participação latino-americana limitada na infraestrutura global de inteligência artificial. Embora empresas globais tenham anunciado investimentos recentes em países da região, o WEF avalia que ainda há espaço para ampliar a presença local em ativos estratégicos da cadeia tecnológica.
No campo regulatório, a governança de dados continua sendo uma preocupação, uma vez que empresas e organizações relatam incertezas relacionadas à privacidade, proteção de dados e definição de regras para o desenvolvimento e uso da inteligência artificial.
Região atrai apenas 1,6% dos investimentos globais em IA
Entre os indicadores apresentados por Cathy, a diferença entre o peso econômico da América Latina e sua participação nos investimentos em inteligência artificial foi um destaque. Isto porque, embora represente cerca de 6,3% do PIB global, a região captura apenas 1,6% dos investimentos destinados à IA.
Para ela, reduzir essa diferença exigirá maior coordenação entre governos, empresas, universidades e instituições financeiras, além da criação de mecanismos para ampliar o financiamento de startups e projetos tecnológicos.
Quatro prioridades para IA na América Latina
O relatório do Fórum Econômico Mundial organiza as suas recomendações para os países latino-americanos em quatro frentes principais:
- Estratégias com metas mensuráveis
Definir estratégias nacionais e empresariais de IA vinculadas a resultados concretos, com foco em setores nos quais a região já possui vantagens competitivas, como mineração, agricultura, energia e turismo.
- Infraestrutura e dados
Ampliar investimentos em infraestrutura digital, energia, conectividade, data centers e mecanismos de compartilhamento e governança de dados.
- Formação de talentos
Adaptar sistemas educacionais e programas de capacitação às novas demandas do mercado, reduzindo o déficit de profissionais qualificados em inteligência artificial.
- Governança e coordenação
Fortalecer marcos de governança, ampliar a coordenação regional e construir confiança entre governos, empresas, universidades e sociedade.
