Mulher esperando para atravessar a rua com sinal de pedestre verde. Imagem gerada digitalmente

A era das “Smart Cities” no Brasil

7 minutos de leitura

Entenda como as cidades estão se tornando cada vez mais integradas por meio de tecnologia, urbanismo e regulação



Por Redação em 08/01/2026

O mercado brasileiro de “cidades inteligentes” está em aceleração. Ainda em 2024, movimentou cerca de US$ 17,2 milhões e projeta saltar para US$ 61 milhões até 2030, refletindo um crescimento médio anual de 25,3% no período. Os dados são do Grand View Research. A guinada vem sendo considerada uma transformação urbana em curso, das redes de telecom e infraestrutura digital à mobilidade, segurança e governança pública, num momento em que municípios, empresas e governos começam a enxergar as smart cities como necessidade estratégica para eficiência, sustentabilidade e inclusão.

Cada vez mais municípios adotam sistemas digitais para gestão urbana. A iniciativa Rede GOV.BR, plataforma federal de governo digital, alcançou 1.800 municípios em 2025, ou seja, pelo menos 31% dos municípios do país, ampliando o acesso a serviços públicos digitais e fortalecendo a transformação digital no setor público.

Na prática, são serviços públicos mais ágeis, menos burocráticos, e com  maior potencial de integração de dados e automação de processos críticos, que vão de licenças urbanísticas ao transporte público, passando por segurança, saúde e meio ambiente.

O conceito de desenvolvimento urbano conhecido como “cidades inteligentes” começou a ser formalizado nos anos 1990, ganhando destaque após a publicação do relatório “Smart Cities: Ranking of European Medium-Sized Cities” em 2007, resultado de uma pesquisa conduzida por acadêmicos da Universidade de Tecnologia de Viena.

Principais indicadores de inteligência urbana

Semáforo inteligente com indicador de tempo para pedestres em uma cidade moderna, representando a eficiência das smart cities no gerenciamento urbano.
Imagem gerada digitalmente

De acordo com o relatório Cities in Motion, produzido pela IESE Business School (Universidade de Navarra, Espanha), o grau de desenvolvimento de uma cidade inteligente é avaliado a partir de nove dimensões centrais:

  • Capital humano: abrange políticas voltadas à formação pessoal e profissional da população, com ênfase em educação de qualidade, inovação científica e estímulo à produção cultural.
  • Coesão social: avalia a capacidade da cidade de promover integração comunitária, inclusão, acessibilidade e ações que fortalecem empatia, participação e pertencimento.
  • Economia: considera iniciativas para fortalecer setores produtivos, atrair investimentos e fomentar o empreendedorismo.
  • Governança: analisa práticas de gestão pública, envolvendo transparência, eficiência na alocação de recursos e compromisso com integridade administrativa.
  • Meio ambiente: mede o grau de sustentabilidade das políticas urbanas, incluindo proteção ambiental, mitigação de impactos e incentivo ao uso racional de recursos naturais.
  • Mobilidade: examina sistemas de transporte integrados, eficientes e acessíveis, fundamentais para a qualidade de vida e para uma cidade ambientalmente responsável.
  • Planejamento urbano: engloba soluções de infraestrutura, gestão energética, sistemas de resíduos e iniciativas de modernização, como iluminação pública inteligente e redes urbanas conectadas.
  • Projeção internacional: refere-se às estratégias de promoção global, turismo, participação em rankings e eventos internacionais, fatores que reforçam a visibilidade e competitividade da cidade.
  • Tecnologia: considerado um eixo estruturante, reúne as ferramentas digitais que viabilizam serviços públicos inteligentes, segurança, sustentabilidade e inovação urbana.

Urbanismo 4.0: reconfigurando a cidade com dados e design

O conceito de “Cidade 4.0” ganha força como um novo paradigma do urbanismo: baseado em plataformas de dados, conectividade e colaboração, especialmente entre poder público, setor privado, academia e sociedade, esse modelo pretende tornar as cidades mais eficientes, sustentáveis e resilientes. 

Um estudo recente que avaliou 27 capitais brasileiras através de critérios como inovação, bem-estar, sustentabilidade e governança concluiu que as cidades com melhor “smartness”, ou seja, mais preparadas para o futuro urbano, são aquelas com ecossistemas de inovação fortes, legislação favorável ao empreendedorismo, formação de capital humano e oferta de serviços digitais. 

Isso reforça a ideia de que urbanismo contemporâneo não é só sobre asfalto, concreto e metrô, mas também sobre dados: sensores urbanos, infraestrutura IoT, monitoramento ambiental, mobilidade inteligente e serviços públicos orientados por tecnologia. Essa abordagem pode permitir melhor gestão de trânsito, otimização de energia, uso eficiente de recursos, e maior qualidade de vida para a população.

No contexto do sul do Brasil, mais especificamente em estados como o Paraná, há exemplos promissores: autoridades locais têm investido em tecnologias de detecção de riscos naturais, como deslizamentos, combinando geografia montanhosa e clima instável com sensores e monitoramento para prevenção de desastres.

As cidades mais inteligentes do Brasil

O Ranking Connected Smart Cities (CSC) 2025 aponta as cidades brasileiras que mais avançaram nas dimensões de conectividade, inovação, sustentabilidade e qualidade de vida. Com metodologia ampliada e inédita, o estudo passou a abranger os 5.570 municípios do país, oferecendo uma análise comparativa mais profunda por indicadores técnicos e sociais, e é considerado hoje a principal referência nacional para avaliar a maturidade das cidades brasileiras em sua trajetória rumo às smart cities. 

O ranking é elaborado a partir da análise de 75 indicadores, organizados em 13 áreas temáticas que refletem diferentes dimensões do desenvolvimento urbano. Os resultados são apresentados em quatro recortes: posição geral, desempenho por eixo temático, comparação regional e faixa populacional, permitindo uma leitura ampla e detalhada do nível de inteligência das cidades. Entre os eixos avaliados estão Economia e Finanças; Governança; Meio Ambiente e Mudanças Climáticas; Resíduos Sólidos; Esgotos e Água; Educação; Habitação e Planejamento Urbano; Mobilidade Urbana; Saúde; Agricultura Local, Urbana e Segurança Alimentar; Telecomunicações; Energia; Inovação e Empreendedorismo; População, Condições Sociais e Segurança.

Confira o ranking das cidades mais inteligentes do Brasil em 2025:

  • Vitória (ES): lidera o ranking geral em 2025 com gestão orientada a dados, integração entre sustentabilidade e governança digital, ampliação da digitalização de serviços públicos e investimentos em conectividade que impulsionaram o salto ao topo. 
  • Florianópolis (SC): tem forte ecossistema de tecnologia e startups, boa cobertura de conectividade e desempenho elevado em inovação e qualidade de vida. A capital catarinense vinha liderando as edições anteriores e se mantém entre as primeiras posições por seu polo tecnológico e ambiente favorável à inovação. 
  • Niterói (RJ): avanço notável em economia e finanças (lidera o eixo Economia e Finanças no CSC 2025) e desempenho consistente em tecnologia e mobilidade; destaque por políticas públicas e indicadores fiscais/administrativos que melhoraram sua posição nacional. 
  • São Paulo (SP): diferencial na escala (maior mercado, infraestrutura e ecossistema de inovação), destaque em mobilidade e empreendedorismo/inovação; embora enfrente desafios urbanos complexos, sua capacidade de implementar soluções digitais em larga escala a coloca entre as mais bem colocadas. 
  • Curitiba (PR): reconhecida por tecnologia & inovação e por indicadores sólidos em saneamento e gestão de resíduos; tradição em planejamento urbano e iniciativas de mobilidade sustentável permanecem como fatores de destaque no ranking. 
  • Recife (PE): líder no Nordeste no CSC 2025; diferencial em transformação digital e iniciativas de inovação pública que fortaleceram serviços digitais e conectividade, além de premiações/reconhecimentos em inovação urbana. 
  • Barueri (SP): destaque por eficiência administrativa, indicadores econômicos e adesão a práticas de governo digital (recebeu selo/ reconhecimento no ecossistema CSC). 
  • Santos (SP): a cidade deu um salto significativo em relação ao ano anterior, com diferencial em urbanismo, infraestrutura portuária integrada e investimentos em TIC, que ampliaram sua nota no ranking. 
  • Salvador (BA): a capital baiana é reconhecida no eixo “População e Condições Sociais” (prioriza inclusão social e políticas de equidade), além de subir posições no ranking nacional. Possui diferencial ligado a indicadores sociais e iniciativas de inclusão digital. 
  • Rio de Janeiro (RJ): a capital carioca recuperou posições em 2025 e figura entre as 10 primeiras. Tem como diferencial, os programas de conectividade urbana, projetos de governança e iniciativas que visam ampliar serviços digitais e segurança. 

A regulação por trás das smart cities

Por trás das inovações, surgiu a necessidade de um marco regulatório e institucional robusto. Surgiu então o PL 976/2021, que propõe a criação da Política Nacional de Cidades Inteligentes (PNCI), um arcabouço legal para orientar municípios e estados na adoção de soluções de smart city, definindo diretrizes como inclusão digital, interoperabilidade de sistemas, governança participativa, sustentabilidade, inovação e incentivos para empreendedorismo. 

A PNCI prevê que cada município elabore seu “Plano de Cidade Inteligente”, integrado ao plano diretor local (exigência para acesso a recursos federais). O objetivo é garantir que a tecnologia não seja aplicada isoladamente, mas alinhada a uma estratégia urbana coerente e participativa. 

Embora o tema esteja avançando, o caminho ainda está longe de ser consolidado. Durante a tramitação do PL 976/2021, por exemplo, foi descartada a criação de um fundo nacional destinado exclusivamente ao financiamento de iniciativas de cidades inteligentes, uma decisão que mantém indefinidos os mecanismos de implementação para grande parte dos municípios e atrasa o contexto de implantação das novas tecnologias urbanas.

Pesquisadores do Instituto Federal do Espírito Santo, também fazem um alerta: a expansão acelerada de tecnologias no ambiente urbano, quando não acompanhada de regulação adequada, transparência, proteção de dados e critérios de equidade, pode aprofundar desigualdades e ampliar a marginalização de grupos vulneráveis. Para esses especialistas, a construção de smart cities exige uma postura crítica, centrada na dignidade urbana e no bem-estar coletivo.

A PNCI estabelece diretrizes para orientar municípios na implementação de soluções inteligentes, destacando:

  • inclusão digital,
  • interoperabilidade de sistemas,
  • governança participativa,
  • integração com o plano diretor,
  • estímulo à inovação e ao empreendedorismo urbano.

Por que o momento é agora? 

O mercado está amadurecendo e crescendo rapidamente: com estimativa de triplicar receita em poucos anos, o setor de smart cities oferece oportunidades para empresas de tecnologia, startups, fornecedores de infraestrutura e consultorias. De acordo com a Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), o mercado de cidades inteligentes no Brasil está projetado para alcançar cerca de US$ 1 trilhão em movimentação até 2027, destacando a importância da área para negócios e inovação no país.

  • Governos ganham eficiência e agilidade: com a expansão da Rede GOV.BR e adoção de serviços digitais, municípios e estados podem oferecer serviços públicos de forma mais moderna, reduzindo burocracia e custos operacionais.
  • Inovação urbana como estratégia de desenvolvimento sustentável: o urbanismo 4.0 permite planejar cidades resilientes, com mobilidade inteligente, uso racional de recursos, prevenção de riscos ambientais e inclusão digital, fatores decisivos para competir no século XXI.
  • Necessidade de regulação e governança inclusiva: o sucesso das smart cities não depende apenas da tecnologia, mas de marcos regulatórios, participação da sociedade, proteção de dados e capacitação de gestores públicos. A PNCI (mesmo em andamento), é vista como um passo nessa direção.

Tecnologias habilitadoras: IoT, hiperconectividade e proteção de dados

A base tecnológica que sustenta a evolução das smart cities no Brasil passa, obrigatoriamente, pela expansão da Internet das Coisas (IoT), redes de alta velocidade e novos padrões de conectividade que unem infraestrutura física e digital. Sensores, câmeras inteligentes, dispositivos urbanos conectados e sistemas de automação são hoje os principais responsáveis por captar, transmitir e analisar dados urbanos em tempo real, elementos centrais para a operação eficiente de serviços públicos.

O Brasil deu um salto relevante com a aprovação do marco legal da IoT e com a consolidação de redes como 4G, 4.5G e, sobretudo, 5G. Nas cidades onde o 5G já está ativo, surgiram aplicações antes inviáveis, como monitoramento preditivo de enchentes, gestão inteligente de semáforos, telemedicina avançada e análise de tráfego por modelos de IA embarcados. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), 64,94% dos brasileiros já contam com cobertura da rede móvel de 5G, o que representa 2.019 municípios. “Nosso objetivo é levar conectividade de qualidade a todas as regiões, reduzindo desigualdades e promovendo oportunidades por meio da transformação digital”, disse o ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho, no site da Anatel

Essa hiperconectividade, porém, traz desafios. Quanto mais sensores e sistemas são conectados, maior é o volume de dados sensíveis gerados, como padrões de deslocamento, hábitos de consumo, imagens de reconhecimento facial ou registros de serviços públicos. Para especialistas em regulação digital, o risco está na combinação entre expansão acelerada de dados, ausência de critérios claros de governança e capacidades técnicas insuficientes em muitos municípios.

Por isso a LGPD vem sendo considerada peça central para a construção de cidades inteligentes. Ela exige que os municípios garantam bases legais para o uso de dados, políticas de segurança da informação, relatórios de impacto e transparência para o cidadão. Isso significa desenvolver projetos urbanos que não apenas sejam tecnologicamente avançados, mas também éticos, auditáveis e responsáveis. A ampliação do uso de IoT, 5G e automação, coloca o Brasil em uma nova fase da digitalização urbana.



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