Pessoa digitando em um laptop enquanto gráficos financeiros e linhas de mercado aparecem sobrepostos na tela, incluindo setas vermelhas e verdes indicando variações de valores e tendência de alta. Foto: Leonid Sorokin / Shutterstock

A economia e a verdade estão entre as vítimas dos conflitos

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Beligerância geoeconômica e desinformação aparecem como os maiores riscos globais para os próximos dois anos, segundo o Relatório de Riscos Globais do Fórum Econômico Mundial



Por Redação em 18/03/2026

A escalada de rivalidades entre Estados, o uso beligerante de instrumentos econômicos e o avanço da desinformação estão no centro das preocupações globais para o curto prazo. O diagnóstico aparece na 21ª edição do Relatório de Riscos Globais do Fórum Econômico Mundial, que aponta a confrontação geoeconômica e a desinformação como as maiores ameaças para os próximos dois anos.

A avaliação reflete uma percepção crescente de que a economia global atravessa um período de competição sistêmica entre países, com impactos diretos sobre cadeias de suprimentos, comércio e estabilidade financeira. Segundo o relatório, a cooperação internacional perdeu força e o sistema multilateral enfrenta pressões inéditas desde o pós-guerra.

A pesquisa se baseia na Global Risks Perception Survey (GRPS), um levantamento feito entre 12 de agosto e 22 de setembro de 2025 com mais de 1.300 especialistas e líderes de governo, empresas e organizações internacionais. O objetivo é capturar a percepção de riscos em três horizontes: imediato, curto prazo (até dois anos) e longo prazo (dez anos).

Os resultados sugerem um ambiente de elevada incerteza. 50% dos entrevistados esperam um cenário “turbulento ou tempestuoso” nos próximos dois anos, enquanto 40% classificam o período como “instável”. Apenas 1% prevê um cenário de calmaria, segundo reportagem da CNBC baseada no relatório.

Nesse ambiente, a confrontação geoeconômica aparece como o risco mais provável de desencadear uma crise global relevante no curto prazo. Cerca de 18% dos entrevistados apontaram esse fator como o principal risco para 2026, seguido por conflitos armados entre Estados, mencionados por 14% dos respondentes, antes do agravamento das tensões militares envolvendo os EUA. O foco de preocupações naquele momento, no terceiro trimestre do ano passado, se relacionava ao uso de tarifas, restrições regulatórias, controle de cadeias de suprimentos e limitações financeiras como instrumentos de disputa entre países, com potencial de provocar contração relevante do comércio internacional.

“A preocupação está muito relacionada a conflitos entre Estados e ao que isso significa para a economia global”, disse à CNBC a diretora-executiva do WEF, Saadia Zahidi. “Quase um terço dos respondentes está muito preocupado com o impacto desses fatores já em 2026.”

Multilateralismo em retração

A análise dos especialistas do WEF constata um período de deterioração da cooperação e da confiança. A transformação também aparece nas expectativas sobre a ordem política global. 68% dos respondentes acreditam que o mundo caminha para um sistema multipolar e fragmentado, no qual potências regionais e globais disputam regras e esferas de influência. Apenas 6% esperam o retorno de uma ordem internacional unipolar baseada em regras.

World Economic Forum
Foto: Ciaran McCrickard / World Economic Forum

A percepção é compartilhada por executivos e líderes empresariais. Para John Doyle, CEO da corretora de seguros Marsh, o mundo vive um momento marcado por múltiplas crises simultâneas. “Hoje não é um momento de uma grande crise global, mas de policrises”, afirmou à CNBC.

Vetores clássicos de instabilidade

Além da escalada geopolítica, o relatório também identifica vetores clássicos de crises econômicas, como recessão, inflação e bolhas de ativos.

Esses riscos registraram algumas das maiores altas de posição no ranking em relação ao ano anterior. A possibilidade de desaceleração econômica global subiu oito posições, alcançando o 11º lugar entre os principais riscos para os próximos dois anos. A inflação avançou oito posições, chegando à 21ª posição, enquanto o estouro de bolhas de ativos subiu sete posições, para o 18º lugar.

O contexto das entrevistas ajuda a explicar parte dessa percepção. Quando a pesquisa foi realizada, entre agosto e setembro de 2025, grande parte das preocupações econômicas estava associada ao aumento de tensões comerciais e políticas tarifárias agressivas entre países.

Posteriormente, fatores adicionais, como conflitos armados e rupturas logísticas, acentuaram os riscos inflacionários e de interrupção das cadeias produtivas.

Outro destaque do relatório é o avanço das preocupações com inteligência artificial. O risco de efeitos adversos da IA apresentou a maior escalada no horizonte de longo prazo, passando da 30ª posição no curto prazo para a 5ª posição entre as ameaças mais relevantes em dez anos. Coerentemente às expectativas de recessão, os receios relacionados à IA dizem respeito principalmente ao seu impacto sobre os trabalhadores, com deslocamento de empregos, aumento da desigualdade e redução do consumo, gerando um potencial ciclo de tensões sociais e econômicas.

Desinformação e crise de confiança

“Ilustração digital em tons de vermelho e preto mostra a silhueta de uma cabeça humana cercada por ícones e palavras como "fake news", simbolizando a propagação de informações falsas e manipulação de conteúdo no ambiente digital.
Foto: Skorzewiak / Shutterstock

A segunda maior preocupação global no horizonte de dois anos é a disseminação de desinformação e informações falsas, que aparece na segunda posição entre os riscos globais para o período.

O fenômeno não é novo. Em 1917, no contexto da Primeira Guerra Mundial, o senador norte-americano Hiram Johnson afirmou que “a primeira vítima da guerra é a verdade”. O estudo aponta que a desinformação se tornou um risco crescente. Os especialistas do WEF remetem ao Reuters Institute Digital News Report 2025, que revela que a parcela atenta às ameaças da desinformação cresceu de 54% para 58% entre 2018 e 2025. No mesmo período, a confiança nos noticiários foi de 44% para 40%, enquanto a evasão (pessoas que deliberadamente renunciam a buscar notícias) aumentou de 32% para 40%.

Entre líderes empresariais e formuladores de políticas, perfil predominante na amostra da pesquisa, a preocupação vai além das fake news nas redes sociais. O foco está no impacto econômico da informação distorcida, capaz de afetar mercados, decisões de investimento e políticas públicas.

A erosão da confiança informacional também agrava a polarização social, outro risco que aparece entre os mais relevantes no curto prazo. No ranking do relatório, polarização social ocupa a terceira posição entre os riscos de curto prazo, refletindo o aumento de tensões políticas e culturais em diversas regiões.

Clima continua na agenda de riscos

Embora as preocupações imediatas estejam concentradas em conflitos e economia, o relatório alerta que os riscos ambientais continuam dominando o horizonte de longo prazo.

Eventos climáticos extremos permanecem entre as ameaças mais graves para a próxima década, ainda que tenham perdido posições no ranking de curto prazo. Essa mudança de foco revela uma conjuntura que o relatório descreve como um “balançar à beira do precipício”. A atenção dos líderes globais neste momento é capturada por crises imediatas — guerras, inflação, desinformação e disputas comerciais — enquanto ameaças estruturais, como mudanças climáticas, continuam se acumulando.

Mesmo assim, o impacto econômico dos eventos climáticos já é significativo. Segundo estimativas citadas na reportagem da CNBC, as perdas seguradas globais causadas por catástrofes naturais chegaram a cerca de US$ 107 bilhões em 2025, superando a marca de US$ 100 bilhões pelo sexto ano consecutivo.

Segundo Zahidi, essa dinâmica cria um desafio para a governança global. “O grande risco existencial ligado ao clima continua presente. Mas nossa capacidade coletiva de agir está sendo reduzida pela quantidade de crises de curto prazo”, avalia.

O relatório conclui que enfrentar esse cenário exigirá novas formas de cooperação entre governos, empresas e instituições. No entanto, o documento reconhece que a própria fragmentação geopolítica que define o momento atual torna essa cooperação cada vez mais difícil.



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