Mulher executiva trabalhando no computador em um escritório com vista para a cidade ao entardecer. Imagem gerada digitalmente

Habilidade de comunicação afeta desempenho, saúde mental e uso de IA nas empresas

3 minutos de leitura

Com trabalho híbrido, sobrecarga informacional e avanço da inteligência artificial, clareza deixa de ser habilidade interpessoal e passa a estruturar cultura, colaboração e produtividade nas organizações



Por Redação em 29/04/2026

A comunicação no ambiente corporativo mudou com o avanço das ferramentas digitais, dos modelos assíncronos e da inteligência artificial. Mensagens não apenas circulam mais rápido, mas circulam de outro jeito, alterando vínculos, interpretações e níveis de estresse.

Em entrevista à Você RH, a fonoaudióloga e especialista em comunicação corporativa Juliana Algodoal afirma que a maneira como as pessoas gerem sua comunicação dita a construção de sua imagem profissional e de suas relações de confiança. Entretanto, o risco de abandonar os cuidados iniciais nas interações pode levar à retomada de padrões negativos de comunicação, gerando ruídos, desgastes e crises. Por isso, falhas de comunicação são apontadas como um dos principais gatilhos de exaustão emocional, conflitos e perda de performance nas equipes.

A especialista defende que, no cenário contemporâneo, se comunicar com clareza deixou de ser apenas uma habilidade técnica e passou a ser uma verdadeira agenda de saúde mental, produtividade e liderança sustentável.

Esses desafios de interação ganham contornos ainda mais complexos com a consolidação do modelo de trabalho híbrido ou totalmente remoto. A Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV) aponta que a sensação de desconexão e o isolamento figuram entre as maiores dificuldades desse modelo, seguidas de perto pelos obstáculos na comunicação espontânea e na colaboração com o restante do time. Conforme artigo no blog da entidade, quando as linhas delimitadoras entre a vida pessoal e a profissional se misturam, é muito comum o surgimento de desmotivação e de um sentimento de sobrecarga entre os funcionários.

Paulo Almeida, diretor do Núcleo de Pesquisa em Liderança da Fundação Dom Cabral, reconhece que o trabalho à distância impõe o desafio de não haver limites claros de tempo, gerando a sensação de estar sempre disponível, o que eleva o risco de burnout. Contudo, o especialista ressalta que o afastamento físico não precisa ser sinônimo de isolamento emocional. Se implementado com planejamento e criatividade, o trabalho remoto pode promover proximidade e fortalecer laços pessoais se a comunicação for intencionalmente estruturada.

Pesquisas mostram que até mesmo interações com informações visuais ou auditivas não intencionais, como a aparição de um animal de estimação ou sons da rotina doméstica durante uma videochamada, ajudam a humanizar os colegas, tornando-os mais autênticos e gerando maior empatia e colaboração.

Reconstruindo a cultura de comunicação

Um profissional usando tablet com gráficos e dados de análise de negócios em destaque, representando tecnologia e inteligência de mercado.
Foto: Summit Art Creations / Shutterstock / Modificado com IA

A Abracom (Associação Brasileira das Agências de Comunicação) ratifica a perspectiva do professor da FDC. Conforme o estudo Engajamento no trabalho híbrido, do GT de Comunicação Interna, a manutenção da cultura organizacional não depende da presença física na empresa, mas fundamentalmente do comportamento e das estratégias de comunicação interna.

Para construir essa cultura à distância, líderes de TI e de RH precisam adotar posturas que humanizem o convívio digital, permitindo que as pessoas recebam informações alinhadas à estratégia do negócio, interajam e sejam valorizadas. No mesmo sentido, a ABQV sugere a promoção de uma comunicação aberta e transparente, utilizando ferramentas digitais não apenas para o envio de mensagens isoladas, mas para facilitar a troca diária e garantir o alinhamento constante por meio de reuniões regulares.

Para fomentar essa cultura de equipe e estruturar o contato social, Paulo Almeida recomenda a implementação de reuniões semanais de check-in iniciadas com perguntas quebra-gelo sobre o contexto fora do trabalho, além da organização de cafés virtuais de quinze a trinta minutos entre pares. Essas conversas informais e muito bem estruturadas fortalecem o senso de pertencimento, criam redes de apoio e constroem uma cultura de cooperação autêntica. Somado a isso, é indispensável o respeito aos limites dos colaboradores e o incentivo prático ao equilíbrio entre vida pessoal e profissional, definindo horários claros para o início e o término das atividades de rotina.

Inteligência Artificial como nova fronteira conversacional

Se as ferramentas de chat e videoconferência mudaram a forma como interagimos uns com os outros, a Inteligência Artificial generativa está adicionando uma camada inédita, e muito complexa, a essa equação. O relatório O novo futuro do trabalho, da Microsoft, destaca que a IA não está apenas acelerando tarefas, mas transformando ativamente a forma como colaboramos, decidimos e aprendemos em equipe.

Os pesquisadores da Microsoft lembram que no cerne da colaboração eficaz está o entendimento compartilhado que permite às pessoas coordenar e comunicar. “Em uma conversa humana, verificamos constantemente o alinhamento por meio de esclarecimentos, confirmações e perguntas de acompanhamento. No entanto, os sistemas de IA atuais frequentemente ignoram essas etapas, gerando respostas que pressupõem o entendimento em vez de construí-lo. Pesquisas mostram que essa falta de fundamentação conversacional pode levar a falhas na interação humano-IA. Felizmente, sistemas como o CollabLLM estão surgindo, que levam a IA a fazer perguntas esclarecedoras e a responder em várias etapas, demonstraram melhor desempenho nas tarefas e interações mais dinâmicas”, consta no relatório.

Os autores do estudo defendem, portanto, que até os chatbots e agentes de IA precisam aprimorar suas habilidades conversacionais, inclusive com mecanismos de adaptação a limitações do interlocutor nessas habilidades, para que atuem verdadeiramente como parceiros e não apenas como ferramentas de execução cega.

O cenário exige que os profissionais da área de TI também desenvolvam um novo tipo de letramento focado no questionamento e na revisão crítica de processos, visto que os trabalhadores estão deixando de produzir tudo do zero para atuar cada vez mais como curadores, guias e editores do trabalho gerado pelas máquinas.



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