Mulher usando laptop com interface de inteligência artificial, simbolizando o avanço da tecnologia e história da inteligência artificial no presente Imagem gerada digitalmente

Inteligência artificial: a longa história do presente repentino

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Ao contextualizar 75 anos de história da IA, Sílvio Meira esclarece os pontos de perplexidade, mas sem ilusões de previsibilidade



Por Redação em 18/12/2025

Embora o avanço recente da inteligência artificial costume ser percebido como uma ruptura súbita, o cientista-chefe da TDS.company, Sílvio Meira, usa uma breve retrospectiva dos avanços técnicos e dos fatos que definem os impactos da IA neste momento, assim como seus possíveis desdobramentos. “Em outubro, comemoramos os 75 anos da publicação do primeiro paper sobre inteligência artificial. No artigo “Máquinas Computacionais e Inteligência”, Alan Turing formulou a questão central, se as máquinas poderiam pensar”, lembra o professor em entrevista ao podcast Próximo Nível. “O que mudou ao longo das décadas foi o ambiente que passou a cercar a IA”, nota.

No podcast, Meira explica que a virada ocorre quando três fatores se encontram: dados, poder computacional e modelos matemáticos aptos a aprender com esse volume. “O ambiente mudou porque, de repente, tínhamos dados demais, computação demais e modelos capazes de lidar com isso”, enumera.

Durante grande parte do século XX, a IA evoluiu em camadas. Primeiro, com sistemas simbólicos baseados em regras explícitas. Depois, com a ascensão de modelos estatísticos que aprenderam a identificar padrões em grandes bases de dados. “Com o deep learning, muitos problemas que pareciam impossíveis passaram a ter solução, ainda que dentro de domínios restritos”, menciona.

A inflexão, descreve o professor, ocorre quando a IA deixa de operar apenas nos bastidores. “A tecnologia já estava em tomógrafos, nos datacenters e nas grandes plataformas que gerenciam os serviços e a Internet ao nosso redor. Só que, de repente, apareceu uma caixa em que do outro lado tinha um algoritmo com o qual podemos conversar”, destaca. Com a adoção explosiva, de cerca de 100 milhões de usuários em dois meses, as pessoas, empresas e instituições passaram a perceber e intensificaram uma interação direta com a IA.

IA e cisnes vermelhos

A compreensão da trajetória da IA não implica capacidade de prever seus rumos. Até porque, durante o podcast as referências históricas se articulam à teoria dos cisnes vermelhos, marcados exatamente pela insuficiência das análises conforme parâmetros do passado.

A breve retrospectiva de décadas de pesquisa, ciclos de experimentação, avanços discretos e pequenos acúmulos técnicos desmistificam a sensação de que a mudança chegou “de repente”, quando, na verdade, vinha sendo construída silenciosamente. Contudo, Meira lembra que os cisnes vermelhos não apenas desafiam previsões, mas também modos tradicionais de formular estratégias. São fenômenos que alteram as regras do jogo, exigindo reorganização profunda e respostas contínuas, não ajustes incrementais.

Meira defende que a inteligência artificial não é uma simples extensão da automação, mas uma infraestrutura cognitiva capaz de reorganizar a forma como sistemas inteiros percebem e respondem ao ambiente. A tecnologia permite detectar sinais emergentes, ajustar operações quase em tempo real e simular rotas alternativas quando a realidade se torna instável demais para depender apenas de dados históricos.

Ao escalar para bilhões de usuários, a IA passa a atuar diretamente sobre sistemas adaptativos da sociedade, alterando fluxos de informação e influenciando decisões em múltiplas camadas. Ela deixa de ser ferramenta isolada e se converte em parte ativa dos processos sociais e econômicos.

Esse fenômeno se aproxima da lógica dos cisnes vermelhos. Ambos dependem de interdependência, velocidade e reorganização constante.

Resiliência cognitiva

Sílvio Meira argumenta que resiliência não é estabilidade, mas capacidade de recomposição contínua. Sistemas complexos não voltam ao normal; eles se reconfiguram. A inteligência artificial amplia essa dinâmica ao acelerar ciclos de aprendizado e obrigar organizações a revisar hipóteses, testar caminhos paralelos e aceitar contradições como parte inerente do processo.

A IA funciona, portanto, como um instrumento de navegação em ambientes instáveis. Não antecipa rupturas, mas ajuda a identificar padrões emergentes, ajustar estratégias e responder mais rápido a mudanças estruturais.

Pessoa assistindo à entrevista ao podcast Próximo Nível em um laptop, com cenário de janelas e vista para o mar ao fundo, destacando tendências tecnológicas.
Imagem gerada digitalmente

O modelo de maturidade descrito no artigo Ruptura sistêmica e inteligência estratégica – a emergência dos cisnes vermelhos converge com os argumentos que Sílvio Meira traz na entrevista ao podcast Próximo Nível. Em vez de uma escada rígida, ele descreve fases que se sucedem, mas também se sobrepõem. Organizações começam explorando a tecnologia, avançam para projetos pontuais, evoluem para operações assistidas e, em alguns casos, alcançam ambientes parcialmente autônomos.

Mas o percurso é circular. Mudanças regulatórias, novos modelos, pressões competitivas ou saltos tecnológicos frequentemente fazem empresas recuarem ou voltarem a estágios anteriores para reaprender práticas e reconstruir capacidades.

Essa oscilação é coerente com o histórico apresentado por Meira e com a teoria dos cisnes vermelhos. Em ambos os casos, a evolução acontece por ciclos, ajustada a incertezas e impulsionada por reorganizações sucessivas.

Ao integrar a trajetória histórica da IA, o salto perceptivo provocado pelos modelos generativos, o arcabouço dos cisnes vermelhos e o modelo de maturidade, o diagnóstico se torna claro. A IA não inaugura a complexidade; ela floresce dentro dela. E, por isso, exige conhecimento histórico para evitar o deslumbramento, contexto para compreender o sistema em que opera e estratégia para transformar tecnologia em capacidade adaptativa.

A inteligência artificial, na visão articulada por Sílvio Meira, não é ruptura isolada nem solução universal. É uma camada cognitiva em permanente recomposição; um artefato para interpretar um mundo que se reorganiza mais rápido do que modelos tradicionais conseguem prever.



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