Durante anos, a computação quântica ocupou um espaço quase mítico no imaginário da tecnologia. Associada a laboratórios de pesquisa, universidades e projetos governamentais de longo prazo, a área parecia distante da realidade das empresas. Apesar disso, o cenário começa a mudar. O avanço acelerado da inteligência artificial, a corrida global por soberania tecnológica e os investimentos bilionários das gigantes de tecnologia transformaram a computação quântica em um dos temas mais observados do setor. E o Web Summit Rio 2026 chega justamente no momento em que essa discussão está deixando o campo da teoria para entrar na agenda estratégica de executivos, investidores e formuladores de políticas públicas.
Embora a programação oficial do evento não conte com uma trilha exclusiva dedicada à computação quântica, o tema aparece de forma transversal em debates sobre inteligência artificial, infraestrutura computacional, cloud computing, semicondutores, deep techs e soberania tecnológica. A computação quântica não é apenas uma nova categoria de hardware. Ela representa uma possível mudança de paradigma na forma como problemas complexos serão processados nas próximas décadas.
A próxima fronteira da infraestrutura digital
O Web Summit Rio 2026 deve reunir mais de 34 mil participantes, 1.500 startups e centenas de investidores e líderes globais da tecnologia. Entre os palestrantes confirmados estão executivos de empresas que já participam direta ou indiretamente da corrida quântica, como representantes da Microsoft, NVIDIA, Google Cloud, Huawei Cloud e OpenAI.
Entre os destaques da programação está Priscyla Laham. A Microsoft está entre as empresas que mais investem em computação quântica no mundo e voltou ao centro das atenções recentemente ao anunciar novos avanços em sua estratégia baseada em qubits topológicos, uma das apostas mais ambiciosas do setor. A companhia afirma que pretende disponibilizar sistemas quânticos comercialmente úteis até o final desta década.
Outro destaque é Marcio Aguiar. Embora a NVIDIA não desenvolva computadores quânticos diretamente, a empresa se tornou uma peça-chave do ecossistema ao criar plataformas que unem inteligência artificial e computação quântica, permitindo acelerar simulações, correção de erros e desenvolvimento de algoritmos. Hoje, IA e computação quântica são vistas por muitos especialistas como tecnologias complementares na construção da próxima geração de sistemas computacionais.
Também ganha atenção a participação de Mark Chen. A Huawei é uma das empresas que investem em pesquisa quântica aplicada a telecomunicações e segurança, áreas consideradas estratégicas para governos e grandes corporações.
Por que o mercado está olhando para a computação quântica agora?
A resposta passa por uma combinação de fatores tecnológicos e geopolíticos. Em maio de 2026, a IBM anunciou um plano de investimento superior a US$ 10 bilhões para acelerar o desenvolvimento de um computador quântico de larga escala até 2029. A empresa já opera mais de 90 sistemas quânticos acessíveis pela nuvem e possui uma rede global com centenas de organizações que experimentam aplicações da tecnologia. Poucos dias depois, a Microsoft apresentou novos avanços em seu roadmap quântico e reforçou a previsão de disponibilizar sistemas comercialmente relevantes até o fim da década.
São movimentos que mostram uma mudança na discussão. Atualmente, não se fala apenas de pesquisa científica, mas especialmente sobre o ecossistema dos negócios.
Empresas dos setores financeiro, farmacêutico, energético, logístico e de materiais avançados já estão tentando aplicações capazes de resolver problemas praticamente impossíveis para computadores convencionais. Entre os usos mais promissores estão a otimização de redes complexas, a descoberta de novos medicamentos, a simulação molecular e o desenvolvimento de baterias mais eficientes, em tempo recorde.
Existe outro motivo para o tema ganhar relevância justamente em 2026: a explosão da inteligência artificial generativa.
O crescimento exponencial do uso de IA elevou a demanda por processamento computacional a níveis sem precedentes. Data centers consomem mais energia, exigem maior capacidade de cálculo e impulsionam uma corrida global por infraestrutura digital. A computação quântica está sendo vista como uma possível resposta de longo prazo para problemas que exigem poder computacional além dos limites da arquitetura tradicional.
Não por acaso, a convergência entre IA e computação quântica aparece como uma das principais tendências observadas por analistas de tecnologia. Empresas trabalham para utilizar inteligência artificial na calibração de sistemas quânticos, enquanto pesquisadores estudam como computadores quânticos poderão acelerar algoritmos de IA no futuro.
Computação quântica no Web Summit Rio 2026
Na trilha IA Summit, Xianmin Jin, fundador da TuringQ e professor titular de destaque da Universidade Jiao Tong de Xangai (China), vai apresentar a palestra: “Velocidade da luz: a corrida quântica que ninguém ainda está vencendo”. Jin costuma dizer que a nova guerra da computação não será travada com silício, mas sim com luz. O professor deve defender a computação fotônica como o caminho decisivo: “mais rápida, mais barata e livre das restrições criogênicas que limitam os sistemas supercondutores. A corrida não é mais hipotética”, afirma o pesquisador.
Outro momento voltado ao tema na programação do evento é a masterclass de Glauco Reis, especialista sênior em Inteligência Artificial da IBM e embaixador da empresa para computação quântica. Ele deve apresentar como o Bob, da IBM, é usado para escrever código, mas também para otimizar processos de desenvolvimento. Segundo ele, “o objetivo é reduzir a complexidade, acelerar a entrega e transformar a modernização em um processo contínuo, em vez de um esforço pontual”. Vale ressaltar que as vagas para as masterclass são limitadas e preenchidas por ordem de inscrição.
