data analytics mobilidade urbana

Data Analytics pode revolucionar a gestão de mobilidade urbana no Brasil

4 minutos de leitura

Painel no Connected Smart Cities & Mobility 2022 mostrou usos positivos de data analytics em mobilidade urbana no Brasil



Por Nelson Valencio em 17/10/2022

As prefeituras e concessionárias de transportes públicos estão descobrindo o valor do data analytics para a gestão dos serviços de mobilidade urbana. Já existem boas práticas em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, mas o melhor exemplo vem de Londres, onde a Transport of London (TfL), empresa responsável pela estratégia do setor na Grande Londres, abriu 75% dos seus dados. O custo de abertura foi de 1 milhão de libras, mas a economia para o sistema de transporte em função das melhorias no planejamento e gestão está estimada em 130 milhões de libras. 

A informação é de Tainá Bittencourt, especialista em mobilidade urbana da Frente Nacional de Prefeitos (FNP) e que participou de uma mesa redonda sobre o uso de data analytics em mobilidade urbana durante o evento Connected Smart Cities & Mobility 2022

Segundo ela, a abertura de dados em concessionárias de serviços públicos municipais ainda é restrita no Brasil. Uma pesquisa recente da FNP mostra que apenas 9,5% das cidades pesquisadas têm acesso aos dados sobre bilhetagem eletrônica, embora em 85% delas esse tipo de informação seja coletada. 

Outro gap acontece com os dados de GPS/AVL (localização automática de veículos): eles são coletados em 78% das cidades pesquisadas, mas em apenas 20% a informação é aberta para as prefeituras. 

O GTFS, sigla para General Transit Feed Specification, que é um padrão mundial para dados de trânsito em serviços de mobilidade urbana, é outro desafio: embora 53% das cidades pesquisadas tenham a coleta dessa informação, apenas 26% delas os têm disponibilizados. Nota: a pesquisa da FNP cobriu 87 cidades de 21 estados e que representam 38,3% das pessoas que usam o sistema de transporte público no Brasil. 

Dados de telecomunicações otimizando mobilidade urbana 

A coleta e o compartilhamento de dados tem exemplos de uso com informação das antenas de operadoras móveis, que coletam inputs dos usuários de celular. É o caso da Claro, com seus 63 milhões de assinantes, que geram 14 bilhões de dados diários, a partir do registro detalhado de chamada (CDR). Muito usado em operações de bilhetagem em telecomunicações, o CDR também pode ser aplicado para o planejamento e gestão da mobilidade urbana. 

“Dados gerados nas antenas são os eventos de celulares, como ligações, e que permitem fazer análises de deslocamento de um grande volume de pessoas”, resume Ageu Dantas, head de Data Insights da Claro. “Os dados são anonimizados na origem, agrupados e ainda adicionamos um ruído estatístico”, completa o especialista, explicando como o processo é seguro e despersonalizado. 

Além de seguro, o dado de telecomunicações é mais rico, pois a amostragem é maior e acontece durante várias horas do dia. Não é o caso da informação gerada por aplicativos, cuja amostragem é baixa e limitada. Os dados de internet das coisas (IoT) também têm a limitação de estarem focados em veículos e não em pessoas: são ótimos para gerenciamento de frota, mas não identificam o deslocamento de pessoas da estação de metrô X para a estação Y, por exemplo. 

Dantas lembra que o uso do CDR para análise de mobilidade acontece no mundo inteiro. A novidade da Claro é o refino do uso do dado a partir da plataforma GeoData, lançada recentemente. Esse refino inclui o uso de machine learning (ou aprendizado de máquina) para ampliar a precisão da informação, a partir do cruzamento de dados de várias antenas e da divisão do Brasil em cerca de 250 mil quadrículas. Traduzindo: é possível ter uma precisão maior e mais riqueza de informações sobre o deslocamento em uma cidade e ajudar prefeituras e concessionárias na melhoria do transporte urbano.

Em matéria recente do Próximo Nível, João Del Nero, gerente de Vendas de Data Analytics da Embratel – unidade corporativa da Claro – detalhou que a operadora lida com 2,5 petabytes de dados. “E esses já são dados transformados, direcionados à utilização do nosso time em consultas, serviços, processos e outras demandas”, adianta. Em outra esfera, são 5 bilhões de registros por dia. 

A operadora coleta dados que incluem desde os eventos de conexão nas antenas da rede móvel, até transações,  faturamento, atendimentos de suporte e serviços. “Temos mais de 150 servidores físicos, fora os virtualizados, para abrigar essas informações, e os acessos são feitos por APIs, que garantem melhor segurança e acessibilidade das informações”, explicou.

Campina Grande adotou data analytics com sucesso 

Outro exemplo de mudança do data analytics em mobilidade foi dado por Juan Landeira, gerente de Negócios da Arcadis. O especialista destacou como a empresa está aplicando seu conhecimento para coletar e medir dados em campo em uma concessionária brasileira da área metroferroviária. O processo envolve medir o desempenho dos ativos de transporte e melhorar as iniciativas de manutenção, uma vez que eles são fundamentais no c ontrato de Parceria Público-Privada (PPP) adotada pela concessionária.  

De acordo com Landeira, o processo atual levou à automatização da medição de 40% dos fatores de desempenho da concessão. Agora, o trabalho da Arcadis é usar os dados coletados para suportar as ações de manutenção dos ativos de transporte, entre eles, os trens usados na concessão, indicando o quão efetiva estão sendo as medidas de manutenção atuais e como elas podem ser melhoradas.  

Em Campina Grande, o data analytics também permitiu mudanças significativas segundo Vitor Ribeiro, diretor da Superintendência de Trânsito e Transportes Públicos (STTP) da cidade paraibana. Para isso, ele precisou forçar a abertura da caixa preta das concessionárias locais de transporte. A “quebra” obedeceu a todos os parâmetros, inclusive ao da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e permitiu que os técnicos da prefeitura entendessem e modelassem novos valores para o subsídio que mantém a modicidade das tarifas na cidade. 

A disposição de dados de Origem e Destino (OD) levou a um novo modelo, com aumento da frota de ônibus em horário de pico e um incremento de uso do serviço: de 600 mil usuários para quase 1,2 milhão por mês. E com equilíbrio financeiro para as concessionárias de transporte público. De acordo com Ribeiro, o tratamento dos dados permitiu que Campina Grande entendesse melhor o perfil dos deslocamentos, criando uma “clusterização” e permitindo ações como a criação de novos serviços de troncais de transporte e substituição de linhas deficitárias, mas com opções para o deslocamento do usuário. 

“A população voltou a usar o sistema de transporte e, mesmo sem injetar dinheiro, foi mantido o equilíbrio financeiro do serviço. Isso mostra que o transporte público de passageiros é sim viável no Brasil”, finaliza.



Matérias relacionadas

Evento com cinco participantes sentados e conversando em um cenário de estúdio, com Euricion Murari, Sergio Costantini, Eduarda Davidovic, Regina Pedroso e Bruno Diniz ao redor de uma mesa e poltronas. Inovação

Ecossistema de fintechs: da expansão acelerada à busca por sustentabilidade

Debatedores do Febraban Tech defendem proporcionalidade regulatória, autorregulação e governança para conciliar inovação e solidez no setor

Da esquerda para a direita: Bruno Oliveira, Fabio Correa, Heitor Bernardes e Nelson Borges. Executivos sentados no palco durante painel na Febraban Tech 2026 Inovação

Agentes de IA já atuam na engenharia de software do Bradesco

Case apresentado no Febraban Tech 2026 mostrou quatro agentes em produção e os desafios para ampliar o modelo entre diferentes times do banco

Kathleen Woodard em palco durante apresentação em evento corporativo, com telões exibindo slides e mensagem sobre novos diferenciais competitivos e Era da IA. Inovação

Bancos entram na era dos agentes de IA, mas confiança e julgamento humano seguem como diferenciais

Kathleen Woodard, da Microsoft, afirma que instituições financeiras estão deixando a fase de testes para incorporar dados, conhecimento e processos a plataformas de IA em escala

Palestra no evento FEBRABAN TECH com Silvia Bassi, Daniel Augusto Falbi, Estevam Carvalho e Wladimir Silva em um painel, telão com o tema “Do data center ao cluster de IA: infraestrutura, automação de o novo core bancário”. Inovação

IA leva bancos a redesenhar infraestrutura e perfil dos profissionais de tecnologia 

Painel no Febraban Tech 2026 mostra como IA leva bancos a repensar data centers, nuvem e automação e amplia a demanda por novas competências nas equipes de tecnologia