O relatório Digital Sovereignty: AI & cloud policies and regulatory frameworks, publicado pela consultoria Omdia, aponta uma mudança na forma como os países tratam a soberania tecnológica. Segundo o documento, as discussões regulatórias internacionais deixaram de se restringir à localização física e à residência de dados e passaram a considerar o controle mais amplo de todo o ecossistema e do conjunto de ferramentas e técnicas usadas para criar aplicações e soluções de nuvem e IA. Essa ampliação abrange a infraestrutura de computação, os conjuntos de dados de treinamento e as regras de governança dos modelos.
Conforme o relatório, formuladores de políticas públicas reconhecem que a soberania em nuvem e inteligência artificial não envolve a busca por autossuficiência tecnológica completa. A impossibilidade de independência total decorre da estrutura da cadeia de suprimentos do setor, que possui caráter inerentemente global. Em razão dessa condição, os governos direcionam suas estratégias para ampliar sua capacidade de ação e de tomada de decisões informadas.
O levantamento da Omdia evidencia que, embora o tema da soberania conste nas diretrizes de diversos governos, a orientação clara sobre os requisitos operacionais para nuvem e inteligência artificial permanece ausente na maioria das jurisdições. Segundo a consultoria, ainda são necessárias definições técnicas mais precisas, mecanismos formais de certificação e estabelecimento de limites operacionais para os agentes do setor.
Modelo europeu

Nesse cenário regulatório global, a União Europeia situa-se como o exemplo mais estruturado de modelo soberano orientado por legislação. O modelo europeu segue o princípio da ‘abertura controlada’, que permite a participação do bloco em ecossistemas internacionais de inteligência artificial ao mesmo tempo em que preserva mecanismos rígidos de supervisão.
Esse formato busca converter a inteligência artificial soberana em requisito legal auditável. Como parte dessa estratégia, a proposta do Cloud and AI Development Act (CADA), anunciada em junho de 2026, foca em assegurar que o bloco disponha da capacidade, da infraestrutura e dos mecanismos de governança necessários para manter sua autonomia tecnológica.
Paralelamente às iniciativas regulatórias, o relatório da Omdia demonstra que o financiamento público constitui o principal mecanismo governamental para impulsionar o desenvolvimento de nuvens soberanas e de infraestruturas de inteligência artificial.
Investimentos públicos em soberania digital

O levantamento detalha os recursos orçamentários e investimentos direcionados por diferentes governos:
- O governo do Reino Unido anunciou o investimento de £ 500 milhões (US$ 671,4 milhões) para a criação de uma Unidade de Inteligência Artificial Soberana. Além disso, o Plano de Ação para Oportunidades em Inteligência Artificial atraiu mais de £ 14 bilhões (US$ 19 bilhões) em investimentos para projetos de infraestrutura, incluindo centros de dados de inteligência artificial soberana e polos tecnológicos.
- Na Arábia Saudita, o empreendimento de inteligência artificial soberana denominado HUMAIN conta com o aporte de US$ 100 bilhões, montante proveniente majoritariamente de financiamento governamental.
- O governo de Singapura anunciou mais de S$ 1 bilhão (US$ 784 milhões) em financiamento para o desenvolvimento da tecnologia no país, alocando S$ 500 milhões (US$ 392 milhões) especificamente para garantir capacidade de computação de alto desempenho.
Impacto nas telecomunicações
Apesar dos recursos financeiros e das metas de independência digital, a Omdia relata a permanência de obstáculos para o avanço do setor. A dependência contínua em relação a hardware, software, plataformas de nuvem e sistemas de inteligência artificial de origem estrangeira representa uma vulnerabilidade crítica indicada na análise. Os desafios abrangem limitações tecnológicas, custos elevados de desenvolvimento, divergências culturais, baixos níveis de confiança pública e a fragmentação na formulação de políticas públicas.
O levantamento assinala ainda que o debate sobre soberania digital expandiu-se geograficamente além da Europa e da América do Norte, com um número crescente de países estabelecendo posições próprias sobre a matéria.
Por fim, o estudo da Omdia avalia o impacto da busca por soberania sobre o setor de telecomunicações. Segundo a Omdia, a busca por soberania não representa apenas um desafio regulatório, mas também pode impulsionar mudanças no mercado e a diversificação das receitas das operadoras. Nesse cenário, as empresas de telecomunicações podem ampliar sua atuação na oferta de capacidade computacional, serviços em nuvem e infraestrutura digital.
