A parabólica digital pode entrar em uma nova etapa de evolução. Depois de alcançar cerca de 17 milhões de receptores instalados em quatro anos, a plataforma de TV aberta via satélite ganha recursos de conectividade capazes de aproximar radiodifusores e telespectadores, gerar métricas de consumo e ampliar oportunidades de monetização. O desafio, segundo os participantes do painel TVRO 2.5 – Perspectivas para Consumidores, Radiodifusores e Indústria Nacional, na SET Expo 2026, é incorporar essas funcionalidades sem comprometer os atributos que explicam o sucesso da plataforma: ampla cobertura, regionalização e acessibilidade econômica.
Os painelistas defenderam que a próxima fase da TVRO combine distribuição linear via satélite e conectividade IP em um modelo complementar. A proposta busca ampliar o relacionamento entre emissoras e telespectadores, viabilizar publicidade segmentada e oferecer experiências interativas, preservando o papel da TV aberta como instrumento de inclusão e acesso à informação em regiões menos atendidas por outras infraestruturas de comunicação.
“Olhando hoje para a parabólica, já conseguimos visualizar uma plataforma vencedora”, afirmou Tiago Tolentino, executivo de assuntos regulatórios da Globo. Segundo ele, a trajetória da tecnologia demonstra sua capacidade de adaptação, da expansão da TV aberta para regiões remotas à regionalização dos sinais e à recente migração para a banda Ku.

A proposta em discussão prevê a manutenção da distribuição linear via satélite, complementada por uma camada de conectividade IP. A ideia não é transformar os receptores em plataformas semelhantes às TVs conectadas ou aos dispositivos Android, mas permitir que as emissoras incorporem serviços digitais ao conteúdo já distribuído pelo satélite.
“A proposta é que a própria emissora consiga disponibilizar seus conteúdos que hoje trafegam via internet, somados ao conteúdo linear que já transmite via satélite”, explicou Carlos Ottoboni, gerente de engenharia da Century.

Segundo Tolentino, a iniciativa procura equilibrar interesses de todos os participantes do ecossistema. “O que nós estamos buscando é uma experiência mais ampla para o consumidor. É trazer um valor que olhe para todos os pontos do ecossistema: para o consumidor, para que ele tenha então uma nova atratividade, funcionalidades adicionais através do seu televisor; radiodifusores com possibilidades ampliadas de relacionamento com esse usuário; e com a indústria também tendo oportunidades de ofertas de maior valor agregado”, enumerou.
Os estudos conduzidos pelo grupo de trabalho da SET e pela Associação Brasileira das Empresas de Telecomunicações (ABRASAT) envolvem arquitetura técnica, interoperabilidade, experiência do usuário e modelos de negócio. A expectativa é criar uma plataforma capaz de evoluir ao longo do tempo por meio de atualizações de software e firmware.
O desafio de preservar a acessibilidade
Embora o conceito de receptor conectado tenha despertado interesse entre radiodifusores e fabricantes, os participantes destacaram que a evolução tecnológica não pode comprometer a acessibilidade que permitiu a rápida adoção da nova parabólica.
Ao abrir o painel, Guilherme Saraiva, diretor de Vendas de Mídia e Satélite da Claro empresas e conselheiro da SET, lembrou que cerca de 70% dos 17 milhões de receptores instalados foram adquiridos diretamente pelo varejo e observou que os equipamentos atuais podem ser encontrados na faixa de R$ 90 a R$ 100.

“O grande desafio é manter o hardware atual ou fazer algum upgrade, mas sem necessariamente chegar a todas as funcionalidades de um receptor Android, que já tem um outro custo”, definiu Ottoboni. Ele explicou que a indústria busca desenvolver um equipamento capaz de incorporar conectividade sem alterar significativamente o perfil de custo da solução, preservando o foco nas classes de menor renda e nos usuários localizados em áreas remotas.
A preocupação apareceu em diferentes momentos do painel. Os participantes ressaltaram que a evolução tecnológica precisa preservar o papel da parabólica como ferramenta de democratização do acesso à informação e ao entretenimento, especialmente em regiões onde a televisão aberta continua sendo um dos principais meios de comunicação.
Dados e publicidade entram na equação
Entre os recursos em estudo estão guias eletrônicos de programação mais avançados, atualizações remotas de software, integração entre transmissão e internet, ferramentas de acessibilidade aprimoradas, mensuração de audiência e publicidade dinâmica.
Para as emissoras, um dos maiores potenciais está na possibilidade de compreender melhor o comportamento da audiência.
“Se a caixinha estiver conectada, se consegue medir e ver quem está assistindo. Há chances de bons negócios para o comercial com isso”, mencionou Alexandre Vila, gerente de transmissão de rádio e TV do Grupo Bandeirantes. Segundo ele, a combinação entre regionalização e mensuração permite formatos mais aderentes ao perfil de cada audiência.

“Modelos como o DAI (Dynamic Ad Insertion) abrem novas oportunidades de receita para a emissora”, acrescentou Tolentino.
O executivo também ressaltou o potencial de recursos de participação do público, incluindo votações, enquetes, informações contextuais e serviços complementares integrados à programação.
Regionalização fortaleceu o modelo
Além das funcionalidades digitais, os participantes apontaram a regionalização como um dos principais fatores por trás do sucesso da plataforma.
Segundo Saraiva, a expectativa inicial era distribuir entre 200 e 300 canais pelo sistema. Atualmente, a plataforma reúne 187 canais de TV e 33 emissoras de rádio, um resultado que demonstra a consolidação do modelo.
Vila destacou que a regionalização criou oportunidades comerciais para os grupos de mídia e ampliou a relevância local da TV aberta.
O executivo apresentou a experiência da Bandeirantes na criação de um teleporto próprio para distribuição regionalizada de sinais. O projeto permitiu transformar despesas recorrentes em investimento de infraestrutura, consolidar a operação dentro da própria emissora e ampliar gradualmente a quantidade de canais distribuídos. “É um case de sucesso. Prova que dá para fazer com uma boa organização, um budget bem reduzido, mas certeiro”, observou.
Evolução sem ruptura
Uma preocupação recorrente ao longo do debate foi evitar que a evolução da plataforma descaracterize o papel da televisão linear aberta.
Questionados sobre a integração com outras tecnologias, incluindo satélites de baixa órbita, os participantes defenderam uma abordagem complementar. A conectividade pode ampliar funcionalidades e criar experiências mais ricas, mas sem substituir o conteúdo linear que caracteriza a radiodifusão aberta.
“Temos no Brasil uma oferta de conteúdo da televisão linear muito boa, e não podemos perder isso”, afirmou Ottoboni.
O executivo observou que a combinação entre satélite, internet, 5G e futuras redes de baixa órbita pode ampliar as possibilidades da plataforma. Mas defendeu que a inovação seja construída como complemento à experiência atual.
