O Poder Judiciário consolidou-se como o segmento mais avançado da administração pública brasileira na adoção de Inteligência Artificial (IA). Segundo a pesquisa TIC Governo 2025, divulgada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), 94% dos órgãos do Judiciário já utilizam a tecnologia, índice superior ao observado no Ministério Público (92%), no Legislativo (83%) e no Executivo (55%).
Ao mesmo tempo, o levantamento evidencia que a transformação digital segue marcada por desigualdades estruturais, especialmente nos municípios de menor porte, onde a ausência de equipes de tecnologia continua entre os principais obstáculos à modernização.
A pesquisa mostra que a IA já está presente em 59% dos órgãos públicos federais e estaduais e, pela primeira vez, mapeou sua adoção nas prefeituras. Nesse universo, 27% dos municípios declararam utilizar a tecnologia. O percentual, porém, varia de 85% nas cidades com mais de 500 mil habitantes e 81% nas capitais para apenas 22% nos municípios com até 10 mil habitantes.
A disparidade acompanha diferenças históricas de estrutura tecnológica. Em 2025, 96% das prefeituras com mais de 500 mil habitantes possuíam área ou departamento de Tecnologia da Informação, contra apenas 33% dos municípios com até 10 mil habitantes. No conjunto das administrações municipais, 51% não contavam com uma área própria de TI.

Segundo Manuella Maia Ribeiro, coordenadora de Projetos de Pesquisa TIC do Cetic.br, a capacidade de adoção de tecnologias mais sofisticadas está diretamente relacionada à existência dessas estruturas institucionais. “O que os resultados permitem afirmar é que municípios maiores tendem a reunir condições institucionais e técnicas mais favoráveis para planejar, contratar, implementar e acompanhar projetos tecnológicos mais complexos, como iniciativas de Inteligência Artificial”, explica.
A pesquisadora ressalta que a TIC Governo não investigou o grau de sofisticação das soluções adotadas, o que impede diferenciar o uso de ferramentas genéricas de aplicações baseadas em modelos próprios ou bases de dados especializadas. Ainda assim, os indicadores sugerem que a escassez de equipes técnicas continua sendo um fator determinante para a capacidade de inovação das administrações locais.
Capacitação avança, mas ainda é barreira
A pesquisa também revela que a expansão da IA no setor público vem acompanhada de esforços crescentes de qualificação. Entre 2023 e 2025, a oferta de capacitação, cursos ou treinamentos sobre IA para profissionais de TI passou de 60% para 84% nos órgãos federais e de 26% para 69% nos estaduais.
Apesar disso, a falta de pessoal capacitado permanece como a principal barreira à adoção da tecnologia. O problema foi apontado por 21% dos órgãos federais, 19% dos estaduais e por 40% das prefeituras.
Entre os municípios, também aparecem como entraves a ausência de prioridade governamental para o tema (36%), a falta de necessidade percebida ou interesse (35%), problemas relacionados à disponibilidade e qualidade dos dados (35%) e os custos elevados (34%).
“Os resultados mostram que a expansão da IA ocorre paralelamente à adoção de algumas medidas de estruturação e apoio ao uso institucional. Ainda assim, essas iniciativas não estão disseminadas de maneira uniforme: são mais frequentes entre os órgãos federais e, mesmo nesse nível de governo, não alcançam a totalidade das instituições”, observa Manuella Maia Ribeiro.
No caso da IA generativa, os órgãos federais apresentam os indicadores mais elevados de preparação institucional. Entre eles, 59% oferecem treinamentos, 46% contrataram ferramentas específicas para uso corporativo e 43% disponibilizam guias, manuais ou diretrizes para orientar os funcionários.
“Os resultados permitem observar que parte dos órgãos públicos federais e estaduais já possuem ações voltadas para orientar e qualificar a adoção de IA nas suas atividades”, acrescenta a pesquisadora.

Justiça se consolida como referência na adoção de IA
A liderança do Judiciário na pesquisa ocorre em um contexto de amadurecimento de iniciativas nacionais de transformação digital e automação processual.
Nos últimos anos, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) estruturou um ecossistema de governança e compartilhamento de soluções por meio de iniciativas como a Plataforma Sinapses, que permite o desenvolvimento e a reutilização de modelos de IA entre tribunais, e do programa Justiça 4.0, conduzido em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o Conselho da Justiça Federal (CJF).
Ao mesmo tempo, tribunais superiores e regionais passaram a desenvolver aplicações voltadas à triagem processual, classificação de documentos, identificação de temas repetitivos, elaboração de minutas e sumarização de processos. Entre os exemplos mais conhecidos estão o Victor, do Supremo Tribunal Federal (STF), o Athos e o Socrates, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), o Alice, do Tribunal de Contas da União (TCU), além de iniciativas implantadas em tribunais estaduais e federais.
Mais recentemente, o foco começou a migrar para aplicações baseadas em modelos generativos de linguagem, voltadas à produção de resumos, apoio à elaboração de decisões e simplificação da linguagem jurídica para os cidadãos.
Embora a TIC Governo não detalhe a distribuição dessas ferramentas entre os tribunais, os dados de adoção indicam que o Judiciário se tornou o principal ambiente de experimentação e institucionalização da IA no setor público brasileiro. Além dos ganhos de produtividade, o ambiente regulado do Judiciário, com normas e diretrizes próprias para o uso da tecnologia, tende a favorecer a institucionalização e a expansão dessas iniciativas.
IA é usada principalmente para automação
Assim como ocorre no setor privado, conforme a pesquisa TIC Empresas, o uso de IA para resolver os gargalos operacionais mais comuns prevalece nas organizações. Entre os órgãos públicos federais e estaduais que utilizam Inteligência Artificial, a aplicação mais frequente é a automação de processos e fluxos de trabalho, citada por 39% das instituições. Em seguida aparecem mineração de texto e análise de linguagem (35%) e ferramentas de aprendizagem de máquina para predição e análise de dados (31%).
Nas prefeituras, o padrão é semelhante. As aplicações mais comuns são automação de processos (14%) e mineração de texto (12%). Os gestores municipais afirmam utilizar IA principalmente para melhorar os serviços prestados à população (17%), aprimorar operações internas (17%), apoiar políticas públicas e atividades-fim (14%) e fortalecer mecanismos de fiscalização do uso de recursos públicos (10%).
Monitoramento ainda é limitado
Outro aspecto destacado pela pesquisa é a baixa utilização de mecanismos de monitoramento dos serviços digitais oferecidos à população. Embora 69% das prefeituras disponibilizem emissão de documentos pela internet e 83% ofereçam nota fiscal eletrônica, apenas 30% coletam estatísticas de uso desses serviços e somente 22% medem a satisfação dos usuários.
Nos órgãos federais, os percentuais sobem para 63% e 56%, respectivamente. Na esfera estadual, alcançam 47% e 33%.
Para Manuella Ribeiro, o desafio não é apenas digitalizar serviços, mas acompanhar sua efetividade ao longo do tempo. “Quando o governo oferta um serviço digital, mas não monitora o seu uso ou a satisfação do usuário ao longo do tempo, perde a capacidade de identificar se a ferramenta de fato atende às necessidades dos cidadãos e se está sendo útil. Por isso, esse monitoramento contínuo é fundamental para produzir evidências que permitam aperfeiçoar os serviços públicos digitais para que cheguem com qualidade e eficiência a quem mais precisa”, avalia.
Realizada a cada dois anos desde 2013, a TIC Governo traz um levantamento sobre a incorporação de tecnologias da informação e comunicação nos órgãos públicos e sua aplicação na oferta de serviços digitais, transparência, participação social e modernização administrativa.
Nesta edição foram ouvidos 576 órgãos públicos federais e estaduais dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além do Ministério Público, e 3.253 prefeituras de todo o país. A coleta foi realizada por telefone entre julho de 2025 e abril de 2026.
