A transformação digital das empresas brasileiras segue avançando, impulsionada por uma combinação de maior conectividade, expansão da computação em nuvem, adoção crescente de inteligência artificial (IA) e uso cada vez mais intenso de canais digitais para relacionamento com clientes. É o que mostra a 16ª edição da pesquisa TIC Empresas, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br). Entre os destaques estão o crescimento da adoção de IA de 13% para 17% entre 2024 e 2025, a consolidação dos serviços em nuvem e a ampliação do uso de dispositivos conectados em diferentes setores econômicos.
A pesquisa ouviu 4.174 empresas brasileiras com dez ou mais pessoas ocupadas, por meio de entrevistas telefônicas realizadas entre fevereiro de 2025 e janeiro de 2026. O levantamento tem abrangência nacional e contempla diferentes portes empresariais, regiões geográficas e setores de atividade econômica.
O avanço da inteligência artificial foi observado em empresas de todos os portes, mas ocorreu com maior intensidade nas grandes organizações. Entre as companhias com mais de 250 funcionários, a adoção da tecnologia passou de 38% para 50% em um ano. Nas pequenas empresas, que representam a maior parte do universo pesquisado, o índice avançou de 10% para 15%.

“Os novos resultados da pesquisa TIC Empresas evidenciam maior escala de soluções de IA no mercado, impulsionadas principalmente pelo aumento de seu uso entre as pequenas empresas, embora ainda haja muito espaço para crescimento”, explica Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br.
Foco na otimização operacional
Entre as aplicações de IA, o destaque ficou para as ferramentas associadas à linguagem natural. A mineração de texto e análise da linguagem escrita passou de 33% para 38% entre as empresas usuárias de IA, enquanto a geração de linguagem natural registrou o maior crescimento, avançando de 20% para 30%. A automação de processos e fluxos de trabalho, entretanto, continua sendo a aplicação mais difundida, utilizada por 68% das empresas que empregam inteligência artificial.
Apesar do crescimento acentuado das aplicações típicas de GenIA, os números revelam que ainda predomina o uso de IA em automação. Isso converge com o que se constata na TIC Saúde, de ênfase nas tarefas operacionais. Possivelmente, ainda estaríamos na fase de trabalhar nos processos estáveis, em que o ROI parece mais claro.
“Não temos dados sobre o retorno do uso de tecnologias. Mas, o que se observa, é um uso de IA em processos auxiliares, sem relação com o core business da empresa. Um indicador que também vai nessa direção é o que mostra que a maior parte das empresas que usam IA comprou os sistemas prontos para uso. O que os dados mostram é que o uso de IA começa a ter escala, mas em processos pontuais, não sendo algo transformador do negócio, mas que ajuda na agilidade de processos”, avalia o pesquisador.

Os dados sobre aquisição de soluções reforçam essa percepção. Entre as empresas que utilizam IA, 80% adquiriram softwares prontos para uso e 60% contrataram fornecedores externos para desenvolver ou adaptar sistemas. Nas grandes empresas, por outro lado, cresce a internalização de competências, com o desenvolvimento próprio de aplicações passando de 24% para 37%.
“Atualmente, as tradicionais soluções digitais usadas pelas empresas podem incluir alguma aplicação de IA, como, por exemplo, IAs generativas, sobretudo na simplificação de processos administrativos e outras atividades internas. Nesse cenário, o aumento observado no uso dessa tecnologia pode ser entendido mais como uma adaptação dos processos das empresas, do que como uma mudança estrutural na forma como operam”, avalia o coordenador do estudo, Leonardo Melo Lins.
Jornada à nuvem continua
A infraestrutura tecnológica que sustenta essa transformação também segue em expansão. O estudo mostra que a contratação de serviços em nuvem continua avançando em praticamente todas as modalidades avaliadas.
O uso de e-mail em nuvem alcançou 54% das empresas, ante 53% em 2024. Os softwares de escritório hospedados em nuvem passaram de 48% para 51%. O armazenamento de arquivos e bancos de dados chegou a 45%, enquanto os softwares de segurança atingiram 38%. As plataformas de computação destinadas ao desenvolvimento, testes e implantação de aplicações alcançaram 26%.
A contratação de capacidade de processamento em nuvem passou de 33% para 36% das empresas entre 2024 e 2025. A evolução é ainda mais significativa quando observada em perspectiva histórica: o índice era de apenas 16% em 2017 e mais do que dobrou desde então.
Segundo o levantamento, a expansão da infraestrutura de conectividade acompanha esse movimento. Em 2025, 35% das empresas contratavam conexões superiores a 500 Mbps, frente a 28% no ano anterior. A fibra óptica já estava presente em 93% das empresas brasileiras, percentual que era de 87% em 2021.
“Essa infraestrutura viabiliza avanços na adoção de novas tecnologias. Sem fibra óptica de alta velocidade, não há como sustentar o processamento em nuvem em escala, utilizar dispositivos IoT com coleta de dados em tempo real ou rodar aplicações de IA com desempenho adequado. A expansão da conectividade é, portanto, indispensável para a transformação digital nas organizações”, afirma Alexandre Barbosa.
IoT avança para operações em campo
O uso de dispositivos de Internet das Coisas (IoT) alcançou 14% das empresas brasileiras em 2025, o equivalente a uma estimativa de mais de 77 mil organizações. Entre as grandes empresas, a adoção chegou a 40%.
As aplicações mais frequentes concentram-se em segurança e gestão operacional. Entre as empresas que utilizam IoT, 85% empregam a tecnologia para segurança de instalações e 44% para gerenciamento do consumo de energia. Também se destacam a gestão logística (39%), o atendimento ao cliente (31%), a manutenção de equipamentos (38%) e os processos produtivos (29%).

Os resultados sugerem que a digitalização avança especialmente em atividades ligadas a ambientes industriais, operações distribuídas e trabalhos de campo. O crescimento da conectividade e da disponibilidade de redes de alta capacidade amplia a viabilidade econômica da coleta de dados em tempo real, favorecendo aplicações voltadas à segurança operacional, monitoramento remoto de ativos, eficiência energética e automação de processos. Setores como construção civil, historicamente menos digitalizados, vêm se beneficiando desse movimento. A adoção de fibra óptica na construção passou de 51% para 61% em apenas um ano.
Brasil ainda atrás dos líderes internacionais
A comparação internacional mostra que a adoção de inteligência artificial pelas empresas brasileiras ainda permanece abaixo dos níveis observados em economias mais avançadas. Enquanto o Brasil registra índice de 17%, diversos países europeus já apresentam percentuais superiores, incluindo Dinamarca, Finlândia, Bélgica e Suécia.
A distância sugere não apenas diferenças de maturidade tecnológica, mas também distintos estágios de desenvolvimento regulatório, disponibilidade de infraestrutura digital e políticas de incentivo à inovação. A experiência europeia indica que ambientes regulatórios mais consolidados podem contribuir para acelerar a incorporação dessas tecnologias nas operações empresariais.

Novos cargos ganham espaço nas empresas
O avanço da IA e da gestão de dados começa a se refletir também na estrutura organizacional das empresas. A pesquisa identificou a presença crescente de funções especializadas ligadas à análise de dados, governança e desenvolvimento de aplicações de inteligência artificial.
Entre os cargos mais frequentes aparecem CIOs e CDOs, presentes em 4% das empresas, cientistas de dados (3%), estatísticos e engenheiros de dados (3%) e responsáveis por projetos de IA (2%). Nas grandes empresas, a presença dessas funções é significativamente maior. Cientistas de dados aparecem em 16% das organizações desse porte, enquanto estatísticos e engenheiros de dados alcançam 15%.
Também começam a surgir posições mais específicas, como engenheiros de machine learning, responsáveis por ética e gestão de riscos em IA e profissionais dedicados à confiança e segurança digital. Embora ainda restritos a uma parcela pequena das empresas, esses cargos indicam uma tendência de especialização que acompanha a maior complexidade dos projetos de dados e inteligência artificial.
Mensagens instantâneas: expectativas tradicionais e novos hábitos
Além da infraestrutura e das novas tecnologias, a pesquisa revela mudanças importantes na forma como as empresas executam suas estratégias de vendas.
O WhatsApp e o Telegram já são utilizados por 79% das empresas brasileiras, acima dos 74% registrados em 2024. O uso dessas plataformas supera o de sites próprios e de diversas redes sociais, consolidando as mensagens instantâneas como um dos principais canais digitais corporativos.

Embora o corte do estudo sejam os canais de venda pela Internet, os dados sugerem que as plataformas de mensagens instantâneas e chats assumem parcialmente o papel do atendimento telefônico, para usuários que querem respostas na hora e em muitos casos interação com humanos.
“As empresas se adaptam ao que os seus clientes usam. Observamos este uso de mensagens juntamente com o crescimento da população que também usa. No entanto, é importante dizer que o indicador não é de resposta única, pois na maior parte dos casos as empresas usam diferentes tipos de tecnologias para acessar o cliente”, salienta o coordenador do estudo.
“O conjunto dos dados aponta uma transformação digital pontual das empresas brasileiras, que começa pela combinação entre conectividade de qualidade, ferramentas acessíveis e tecnologias que auxiliam processos auxiliares à atividade principal”, avalia Alexandre Barbosa.
