Médica e paciente idosa analisando dados em um tablet em uma clínica, com foco em tecnologias emergentes na saúde, atendimento e monitoramento à distância. Foto: Yuganov Konstantin / Shutterstock

Tecnologias digitais avançam na saúde, mas interconexão e controle de dados seguem como prioridade

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Mesmo com adoção de IA em 18% dos estabelecimentos, pesquisa mostra dificuldades na troca de informações e desafios de interoperabilidade



Por Redação em 22/05/2026

Ao lado dos avanços em telessaúde e da oferta de serviços digitais aos pacientes, a transformação digital da saúde brasileira continua a depender de melhorias de padronização e infraestrutura para ampliar seus impactos.

A 12ª edição da pesquisa TIC Saúde, divulgada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), mostra que enquanto a infraestrutura digital se consolida, com 99% dos estabelecimentos de saúde brasileiros conectados à Internet, a circulação efetiva de dados entre hospitais, clínicas e unidades básicas ainda esbarra na falta de padronização e interoperabilidade. O levantamento revela que apenas 44% das unidades possuem sistemas que permitem o envio ou recebimento de encaminhamentos eletrônicos, um indicador que expõe a dificuldade de integrar o cuidado em rede.

Realizada desde 2013 pelo Cetic.br/NIC.br, a pesquisa TIC Saúde acompanha a adoção de tecnologias digitais nos estabelecimentos de saúde brasileiros. A edição de 2025 contou com 3.270 gestores de unidades públicas e privadas entre fevereiro e novembro do ano passado, cobrindo temas como infraestrutura de TIC, prontuário eletrônico, serviços digitais ao paciente, telessaúde, governança e tecnologias emergentes, incluindo IA, Big Data e Internet das Coisas.

Os resultados indicam que a infraestrutura básica atingiu um estágio próximo da universalização. Em 2025, 99% dos estabelecimentos possuíam acesso à Internet e computadores. Os desktops seguem como principal dispositivo, presentes em 97% das unidades, mas cresce o uso de notebooks, que chegaram a 71%, e tablets, utilizados em 41% dos estabelecimentos.

O levantamento aponta diferenças relevantes no perfil de uso desses dispositivos. Enquanto notebooks aparecem mais nos estabelecimentos privados e hospitais de maior porte, os tablets avançam principalmente no setor público e nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). Segundo a pesquisa, 53% das unidades públicas e 63% das UBS utilizam tablets, movimento associado às atividades da atenção primária e ao trabalho das equipes de campo. Mais de 70% dos estabelecimentos também fornecem dispositivos móveis para atividades profissionais.

A expansão da conectividade ganhou novo impulso com a abertura, pelo Ministério das Comunicações e pelo Ministério da Saúde, de um edital financiado pelo Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust) para conectar 3,8 mil Unidades Básicas de Saúde (UBS) em todos os estados e no Distrito Federal. O programa prevê R$ 104 milhões para implantação de banda larga e redes Wi-Fi nas unidades, com uso de fibra óptica ou conexão via satélite. A expectativa do governo é que a ampliação da infraestrutura de conectividade permita expandir serviços de telessaúde e reduzir filas para consultas, exames e cirurgias. Segundo estimativas do Ministério da Saúde, o uso dessas ferramentas pode diminuir em até 30% o tempo de espera nesses atendimentos, além de apoiar processos de gestão de medicamentos e agendamento. O edital também exige que os provedores incluam nos projetos não apenas o serviço de conexão, mas a instalação das redes internas de Wi-Fi nas unidades de saúde.

Prontuário eletrônico avança, mas integração ainda é limitada

Segundo a TIC Saúde, a adoção de sistemas eletrônicos para registro de informações dos pacientes chegou a 92% dos estabelecimentos de saúde, mantendo tendência de estabilidade em patamar elevado. Nas UBS, o índice alcançou 97%. Ainda assim, a digitalização não significa integração efetiva entre instituições.

Os dados mostram crescimento da disponibilidade eletrônica de informações clínicas. Dados cadastrais dos pacientes já estão digitalizados em 92% dos estabelecimentos, enquanto históricos clínicos aparecem em 82% e diagnósticos ou condições de saúde em 79%. O acesso eletrônico a exames também avançou. Em 2025, 39% dos estabelecimentos ofereciam visualização online de resultados de exames para pacientes, percentual que chega a 72% nos serviços de apoio à diagnose e terapia (SADT).

Apesar disso, a troca de informações entre instituições ainda é considerada um dos principais gargalos da saúde digital brasileira. Apenas 44% dos estabelecimentos possuem sistemas capazes de enviar ou receber encaminhamentos eletrônicos. A integração à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), indicador medido pela primeira vez nesta edição, também alcançou 44% das unidades.

O setor público apresenta desempenho superior nesse aspecto. A integração à RNDS chega a 64% das unidades públicas, contra 27% das privadas. Nas UBS, o índice alcança 72%. “Os resultados indicam avanços na implementação de políticas nacionais de interoperabilidade, embora a fragmentação dos sistemas ainda represente um desafio relevante para a coordenação do cuidado”, avaliam os pesquisadores no sumário executivo do estudo.

Outro movimento destacado pela pesquisa é a expansão dos canais digitais de relacionamento com pacientes. O avanço mais expressivo ocorreu nas interações online com equipes de saúde, que saltaram de 16% dos estabelecimentos em 2023 para 35% em 2025. O indicador sugere que a digitalização começa a atingir rotinas de comunicação e acompanhamento, especialmente na atenção básica.

Segurança, LGPD e governança ainda aparecem como lacunas

Tecnologias emergentes em saúde: profissional segura um ícone de nuvem com símbolo de atendimento médico e cruz verde, enquanto dados e circuitos digitais aparecem ao redor em um laptop.
Foto: Raker / Shutterstock / Modificada com IA

Embora a infraestrutura esteja disseminada, as práticas de governança e segurança da informação ainda avançam de forma desigual. Apenas 42% dos estabelecimentos possuem política formal de segurança da informação, percentual que cai para 28% no setor público.

Os indicadores relacionados à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) também mostram maturidade limitada. Menos da metade dos estabelecimentos implementou ações como campanhas internas de conscientização, nomeação de encarregado de dados ou planos de resposta a incidentes.

Segundo o resumo executivo, “esses resultados evidenciam desafios na consolidação da governança de dados no contexto da saúde digital”.

IA cresce, mas uso clínico enfrenta apreensão

A pesquisa mostra crescimento do uso de IA nos estabelecimentos de saúde, mas em aplicações mais ligadas à operação e gestão do que ao núcleo clínico da atividade médica. Em 2025, 18% dos estabelecimentos declararam utilizar IA. O percentual chega a 31% entre hospitais com mais de 50 leitos e a 29% nos SADT.

As ferramentas mais utilizadas são modelos de linguagem generativa, como ChatGPT e Gemini, presentes em 76% dos estabelecimentos que usam IA. Contudo, as aplicações mais frequentes estão associadas à organização de processos clínicos e administrativos (45%), melhora da segurança digital (36%) e eficiência dos tratamentos (32%). O auxílio em diagnósticos aparece atrás dessas funções, em 27%.

Os dados sugerem que o setor ainda concentra esforços em resolver gargalos operacionais e estruturais antes de avançar para aplicações clínicas. Segundo a coordenadora da pesquisa TIC Saúde, Luciana Portilho, as prioridades identificadas refletem problemas mais imediatos da transformação digital nas instituições.

Além disso, há lacunas de confiança e protocolos, temas fortemente associados ao debate público sobre IA em saúde. Segundo a pesquisa, essas indefinições contribuem para uma adoção mais cautelosa das aplicações clínicas de IA. “O avanço do uso da Inteligência Artificial na saúde exige profissionais qualificados para que essa tecnologia seja aplicada de forma segura e responsável. A consolidação de diretrizes e marcos regulatórios também é fundamental para sustentar a adoção ética da IA em um setor que lida com informações sensíveis e impacta diretamente no cuidado com os pacientes”, destacou Luciana Portilho. “Esse cenário ajuda a explicar por que as aplicações de IA têm sido mais utilizadas em atividades administrativas e operacionais do que diretamente na prática clínica”, esclareceu.

A própria pesquisa mostra que a ausência de prioridade aparece como uma das principais razões para a não adoção de IA. Entre estabelecimentos com mais de 50 leitos, 56% citaram que o tema “não é uma prioridade”. Também aparecem entre as principais barreiras os custos elevados (63%), dificuldades relacionadas à qualidade e disponibilidade de dados (51%) e incompatibilidades com sistemas existentes (49%).

O diagnóstico sinaliza uma percepção recorrente no setor de que a resolução de dívidas técnicas acumuladas ao longo da digitalização, como integração de sistemas, padronização de dados, infraestrutura e governança, já poderia representar um avanço relevante na qualidade e eficiência dos serviços, mesmo antes da adoção massiva de tecnologias emergentes aplicadas diretamente à atividade clínica.

Além da IA, a pesquisa também investigou Big Data, computação em nuvem, Internet das Coisas (IoT) e robótica. Apenas 9% dos estabelecimentos realizaram análises de Big Data, majoritariamente baseadas em dados produzidos pelas próprias instituições, como prontuários e registros administrativos. O uso de IoT alcançou 9% dos estabelecimentos, enquanto a robótica apareceu em 5%.

Diferenças entre público e privado

Os dados revelam diferenças importantes entre as redes pública e privada. Enquanto o setor privado apresenta indicadores mais altos em adoção de IA, políticas de segurança e serviços em nuvem, o setor público se destaca na integração de dados e uso de dispositivos móveis ligados à atenção primária.

Os resultados consolidam um cenário em que a digitalização da saúde brasileira avança de forma consistente, mas ainda em fase de construção das bases necessárias para etapas mais sofisticadas da transformação digital. “Persistem desafios relacionados à interoperabilidade, à governança de dados e à redução das desigualdades entre diferentes tipos de estabelecimento”, adverte o relatório.



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