Os grandes provedores de serviços em nuvem (hyperscales) agora precisam lidar com o aumento do volume de dados gerados e demandados pelos grandes modelos de linguagem – ou simplesmente IAs. Por outro lado, enfrentam embates sobre soberania digital, o que, à primeira vista, demanda que as infraestruturas de data centers estejam mais próximas do uso final. Nesta entrevista, Cléber Morais, diretor-geral da AWS no Brasil, trata dessa dicotomia, que envolve o histórico de investimentos da AWS no Brasil, a recente parceria com a Claro empresas e a visão de negócios da big tech para o futuro. Acompanhe.
Como a AWS avalia o atual cenário de investimentos em infraestrutura de nuvem e o aumento da competitividade no mercado de processamento e armazenamento de dados?

O que está acontecendo no Brasil em relação à tecnologia, principalmente tecnologia de nuvem, tem um histórico de 15 anos, quando tomamos a decisão de investir aqui como a oitava região da AWS no mundo, antes de países como Canadá e Reino Unido. Naquela época o Brasil já se mostrava, tanto economicamente quanto em tamanho de população, um país onde esse investimento fazia sentido. Quando eu falo de investimento, estou falando de 5,6 bilhões de dólares. Esse investimento representa uma região composta por três clusters de data centers, separados por cerca de 50 quilômetros entre si para garantir alta disponibilidade, resiliência e baixa latência.
Quando olhamos para esses 15 anos, percebemos que eles nos trouxeram até este momento porque, além do investimento, houve a formação de todo um ecossistema tecnológico.
Pode dar detalhes desse ecossistema?
Nós ajudamos a fomentar startups por meio de créditos, capacitação e apoio para que desenvolvessem seus modelos de negócio. Com o advento da nuvem, que possui um custo de entrada menor, essas empresas deixaram de precisar comprar grandes estruturas de armazenamento e processamento e passaram a pagar apenas pelo que utilizam. Isso fomentou o mercado brasileiro. Hoje vemos empresas como Nubank, VTEX e Quinto Andar, que encontraram na nuvem um diferencial competitivo para entrar em seus mercados.
Ao mesmo tempo, a chegada de novos entrantes fez com que mercados tradicionais também precisassem inovar. Estamos falando de bancos que aceleraram o desenvolvimento de produtos e de empresas como Mercado Livre, que ajudaram a transformar a forma de fazer comércio eletrônico na América Latina. Nesse contexto, a competitividade é extremamente saudável. Todos os players investem fortemente em inovação e levam soluções diferenciadas ao mercado. Isso é o que move a economia.
Como isso está relacionado ao momento atual da IA?
Da mesma forma que democratizamos o acesso à nuvem, agora estamos democratizando o acesso à inteligência artificial. A estratégia da AWS foi criar um orquestrador, que ajuda o cliente a olhar para segurança, governança de dados, gestão financeira e outros aspectos da operação. Ao mesmo tempo, permitimos que ele escolha qual modelo de LLM faz mais sentido para ele. Esse orquestrador é o Bedrock e ele permite que a inovação não venha apenas das empresas de tecnologia, mas também de novos modelos de negócios.
Quando uma empresa, como o Grupo Elfa, reduz o tempo de elaboração de propostas de 10 horas para 10 minutos usando IA generativa, e com isso triplica seu faturamento, estamos vendo a transformação acontecer na prática. Hoje, não é preciso mais ser um especialista em tecnologia para criar soluções, pois esse empoderamento foi transferido para as áreas de negócio.
Quais são os principais competidores da AWS nesse contexto de orquestração e infraestrutura para inteligência artificial?
Se falarmos de competição, há uma gama muito ampla. Há desde provedores de nuvem a empresas que optam por manter ambientes próprios, fornecedores de modelos de linguagem e diversos outros participantes desse ecossistema. Enfim, não existe um único competidor, mas sim vários players levando soluções para os clientes.
Mas, o nosso foco não está em olhar para os concorrentes. Nosso foco está em entender qual é a necessidade do cliente e como podemos ajudá-lo a transformar o negócio. Quando alguém me pergunta o que o competidor está fazendo, eu prefiro entender o que o cliente precisa e como podemos resolver aquele problema.
A AWS e a Claro empresas anunciaram uma parceria durante o Mobile World Congress de Barcelona neste ano, nesse contexto que vinha comentando…
Sim, a Claro empresas é um grande parceiro nosso na América Latina. Sempre que entendemos uma necessidade do cliente e fazemos uma cocriação, conseguimos gerar valor porque a AWS tem um portfólio com mais de 200 serviços e a Claro tem uma infraestrutura de conectividade robusta e um conhecimento profundo dos clientes. A combinação dessas capacidades cria um ambiente muito interessante para levar soluções ao mercado.
A questão da latência é um ponto importante desta parceria. Ainda pensando no cliente, uma coisa é fazer uma transação bancária [que aceita certo tempo de espera] e outra é um veículo autônomo que precisa reagir instantaneamente ao fechamento de um semáforo. Nesse segundo tipo de situação, precisa de processamento próximo ao usuário e de baixíssima latência. É aí que vemos – com a parceria com a Claro empresas – um enorme potencial para o Brasil, especialmente em mercados como agronegócio, indústria e saúde, que exigem alta disponibilidade e respostas em tempo real.
Pode falar mais de setores de negócios que podem se beneficiar desse modelo de infraestrutura distribuída?
A indústria, de forma geral, tem um potencial importante. Mas, acredito que agronegócio e saúde serão dois dos setores que mais receberão valor da tecnologia nos próximos anos. Na saúde, já vemos inteligência artificial auxiliando na análise de exames, no desenvolvimento de medicamentos e vacinas e em pesquisas relacionadas a doenças complexas com tecnologias de IA por trás disso, por exemplo.
A mineração também é um exemplo interessante, pois tem desafios particulares, principalmente relacionados à distância e à conectividade. E a parceria da AWS com a Claro empresas combina justamente infraestrutura de tecnologia e soluções de conectividade.
Nos últimos anos, em função das discussões sobre soberania digital, chegamos a ouvir que “o que era cloud first hoje é cloudless”. Como vocês avaliam isso?
Quando alguém fala em cloud first versus cloudless, é quase como falar em voltar para a época da máquina de escrever. A tecnologia evoluiu e os investimentos foram feitos justamente para disponibilizar essas capacidades. Quando falamos de soberania, a primeira questão é que os dados já podem estar no Brasil. Foi por isso que investimos os 5,6 bilhões já citados no país. Outro ponto é que os dados são criptografados e a chave pertence unicamente ao cliente. Se o cliente deseja manter seus dados no Brasil, é totalmente possível. E, se quiser adotar outra arquitetura, também, pois a propriedade dos dados é totalmente dele.
Precisamos tomar cuidado para não ir na contramão do movimento histórico. O mundo inteiro está caminhando para IA first. Portanto, não se trata mais de uma discussão sobre cloud first ou cloudless. Estamos falando agora de AI First.
Nesse cenário de IA first, como você enxerga o futuro dos hyperscalers, como a AWS?
A tecnologia continuará evoluindo e novas tecnologias continuarão surgindo. O que queremos fazer na AWS é preparar a fundação para essa evolução. Entendemos que essa base tecnológica passa por nuvem, inteligência artificial, orquestração e infraestrutura. Por isso, neste ano, a AWS pretende investir US$ 200 bilhões em inteligência artificial globalmente.
Mas, existe um pilar tão importante quanto a tecnologia nessa visão: pessoas. Nós treinamos mais de 1 milhão de pessoas em computação em nuvem e isso ajudou a formar profissionais e empresas que hoje fazem parte do ecossistema tecnológico brasileiro. No ano passado, assumimos o compromisso de capacitar mais 1 milhão de pessoas em inteligência artificial.
Quando penso no futuro, portanto, penso em como entendemos os desafios das pessoas e das empresas e utilizamos tecnologia para resolvê-los. O Jeff Bezos costuma dizer que a única vantagem competitiva real das empresas hoje é a velocidade. Afinal, o próximo competidor pode surgir a qualquer momento e, por isso, a capacidade de lançar produtos rapidamente, adotar novas tecnologias e responder ao mercado é fundamental.
Enfim, o futuro passa pela combinação de tecnologia, capacitação e velocidade.
Você está comparando a inteligência artificial com a computação em nuvem?
Sim: os ciclos são muito parecidos. Na nuvem, tivemos um ciclo de investimento em infraestrutura, capacitação, doutrinação e adoção. Agora estamos vivendo algo semelhante com a inteligência artificial. Afinal, é uma nova tecnologia que precisa ser compreendida, adotada e utilizada. E [como toda tecnologia influente na sociedade] tem gente acreditando que não precisa usar e tem gente que está aprendendo.
