A incorporação acelerada da inteligência artificial às operações empresariais está pressionando por uma reorganização das funções no alto escalão, em um contexto marcado pela sobreposição de responsabilidades entre CIO, CTO e outras lideranças, pelo avanço de modelos generativos e pelo uso crescente de dados não estruturados. Esse movimento amplia a complexidade da governança, expõe limitações de modelos tradicionais e impõe desafios de escala, ao mesmo tempo em que exige maior coordenação para evitar redundâncias e lacunas operacionais. É o ponto de partida do artigo Delivering the new CDO mandate. Os autores focam na redefinição do papel do Chief Data Officer (CDO), que passa a atuar como articulador de ecossistemas de inteligência, responsável por integrar dados, IA e processos decisórios e viabilizar sua aplicação consistente no negócio.
A análise é assinada por Syed Hussain e Joseph Forooghian, ambos com atuação prévia na Snowflake e atualmente à frente da Bobsled. Com base na experiência em plataformas de dados e arquitetura de compartilhamento de informações, os autores sustentam que o principal desafio das organizações deixou de ser a gestão de dados em si e passou a ser a construção de estruturas que permitam escalar a inteligência artificial com governança e eficiência operacional.
Da governança à inteligência integrada

O artigo descreve uma evolução do papel do CDO ao longo das últimas duas décadas. Após a crise financeira de 2008, o foco estava em controle, risco e conformidade. Naquele momento, as atribuições centrais eram muito próximas às dos DPOs (executivos de proteção de dados), impulsionada por legislações como o GDPR (regulamento geral de proteção de dados, da União Europeia) e a LGPD.
A partir de meados da década seguinte, a função passou a incluir a democratização do acesso a dados e o desenvolvimento de cultura analítica. Mais recentemente, o cargo incorporou a geração de valor, com a criação de produtos de dados e métricas de retorno.
O estágio atual amplia esse escopo. Impulsionado pela IA generativa e por modelos mais autônomos, o foco passa a incluir dados não estruturados e a integração entre sistemas, pessoas e agentes. O CDO deixa de ser apenas gestor de ativos informacionais e passa a estruturar as bases que sustentam decisões automatizadas.
Sobreposição no C-level e risco de fragmentação
A disseminação da IA entre diferentes áreas executivas introduz um problema de governança. O relatório aponta que CIOs, CTOs, CEOs e outros líderes passam a compartilhar atribuições relacionadas à inteligência artificial, o que pode gerar redundâncias, disputas de escopo e lacunas operacionais.
“A IA criou um espaço em que a responsabilidade é ambígua e as agendas de liderança se sobrepõem. Se os membros do alto escalão não definirem quem é responsável por quê, a organização preencherá esse espaço com prioridades concorrentes e ineficiência”, advertem os autores. Eles enfatizam que, sem uma coordenação clara, iniciativas tendem a se fragmentar e a perder efetividade, dificultando a obtenção de escala.
CDO como arquiteto do ecossistema de inteligência
A resposta proposta não é centralização, mas coordenação. O CDO passa a atuar como responsável por dois pilares: a confiabilidade dos dados, associada à qualidade, governança e proveniência; e a prontidão para uso, ligada à semântica, interpretabilidade e aplicação em contextos de negócio.
“Embora o CDO reimaginado não seja o proprietário de todos os dados e da IA, será o principal arquiteto do ecossistema de inteligência da empresa”, resume o relatório. Entre as atribuições, cabe ao CDO o mapeamento de ativos reutilizáveis, como produtos de dados e modelos analíticos, além da definição de padrões de transparência e conformidade que sustentem o uso da IA em escala.
O modelo proposto delimita funções no C-level. O CIO permanece responsável pela infraestrutura e integração de sistemas; o CTO, pela engenharia e operacionalização tecnológica; o COO, pela transformação de processos; e o CEO, pela direção estratégica.
Nesse arranjo, o CDO atua como ponto de convergência, assegurando que a base informacional que alimenta a IA seja consistente e interoperável.
Governança orientada à velocidade e reutilização
O artigo aponta que modelos tradicionais de governança são insuficientes diante da velocidade da IA. Como alternativa, sugere estruturas mais ágeis, como conselhos de inteligência, capazes de alinhar prioridades e acelerar decisões.
Também recomenda financiamento integrado de iniciativas e foco na reutilização de ativos, para evitar retrabalho e investimentos descoordenados.
A evolução do CDO é organizada em três etapas. A primeira envolve a construção das bases, com definição de papéis, ética e governança. A segunda foca a escala, com desenvolvimento de produtos de dados reutilizáveis. A terceira integra a inteligência ao funcionamento da organização, com maior automação e uso de agentes.
Nesse modelo, o desempenho do CDO passa a ser medido pela capacidade de fazer a inteligência circular e gerar impacto no negócio.
A consolidação desse papel depende da definição objetiva de prioridades e responsabilidades. O relatório resume essa exigência: “O CDO moderno tem sucesso por meio de prioridades claras, métricas claras e limites claros”, enfatiza o artigo.
Os autores defendem que, ao deslocar o foco da gestão de dados para a coordenação da inteligência, o cargo se torna central em um ambiente corporativo mais distribuído e orientado por IA, no qual o valor está menos na posse de ativos e mais na capacidade de integrá-los de forma eficiente.
