O fundador e sócio diretor da Rooby HR, Paulo Exel, questionou se o uso da IA está de fato aumentando a produtividade dos profissionais ou se a tecnologia, na verdade, entrega maior volume no ambiente corporativo. Em outras palavras: a inteligência artificial nos torna mais produtivos ou mais sobrecarregados?
Exel, especialista em executive search e recrutamento tech, argumenta que a IA acelera as entregas, mas nem sempre gera valor real. De acordo com ele, algo “não fecha” no cenário de resultados mais rápidos e em maior volume. O executivo considera que há uma falsa sensação de progresso.
Ele chama a atenção, em artigo para a VocêRH, que é necessário prover recursos de IA acompanhados de critérios. Com isso, os líderes estariam deixando claro que as ferramentas de IA deveriam ampliar resultados de maior valor para o negócio, e não apenas o volume de entregas.
Exel reforça a necessidade de a liderança ser treinada para diferenciar os conceitos de velocidade e de valor. Para ele, inclusive, é preciso ter coragem para desacelerar quando for necessário diferenciar os dois conceitos. O especialista alerta ainda que a tecnologia, por si só, não corrige falhas de gestão e pode mesmo ampliá-las.
O ponto de vista do consultor brasileiro é compartilhado por Nitesh Bansal, CEO da R Systems, empresa global especializada em engenharia de produtos e serviços digitais e parte do portfólio da gestora de fundos Blackstone.
Bansal explica em detalhes o que ele considera a “armadilha da velocidade da IA”, situação na qual as empresas alcançam ganhos rápidos e iniciais com a adoção da tecnologia, criando a percepção artificial de ganho, que não é acompanhada de retorno sobre o investimento (ROI) em escala corporativa.
IA pode devorar o ROI
Segundo ele, isso geralmente ocorre quando pequenas equipes inovadoras dentro de uma empresa testam as ferramentas de IA e obtêm rapidamente entre 10% a 20% de melhoria ou benefícios. No entanto, o avanço para por aí. Ao tentar escalar o uso para o restante da organização, as empresas percebem que precisam dedicar uma quantidade enorme de tempo e esforço para construir diretrizes de segurança, governança, frameworks e políticas de acesso.
“Todo esse tempo gasto acaba “devorando” o ROI que a iniciativa pretendia gerar”, explica Bansal. De acordo com ele, o desafio da IA corporativa não é mais um dilema de ferramentas, mas um problema de pessoas e execução organizacional.
No receituário do executivo para corrigir essa rota equivocada está o uso adequado de IA, com objetivos claros e metas de ROI. Para ele, muitas iniciativas falham porque nascem sem métricas definidas, tornando-se experimentos científicos sem impacto de negócio. Bansal igualmente indica que os processos devem ser reimaginados e não apenas automatizados, pois é um erro usar a IA apenas para acelerar processos antigos, o equivalente a “colocar um elefante para puxar um carrinho de bebê”.
Também é importante projetar com o “humano no circuito”: ir direto para a autonomia total não funciona. Manter a supervisão humana é essencial para corrigir erros e evitar o desvio do modelo ao longo do tempo, garantindo a qualidade e prevenindo alucinações. Por fim, ele aconselha que seja criada uma arquitetura de componentes reutilizáveis. Em vez de construir governança, conectores e parâmetros de segurança a cada novo projeto, as empresas devem ter bibliotecas e práticas padronizadas para evitar que o consumo de IA saia do controle financeiro.
