À medida que eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes e intensos, cresce a pressão sobre os centros urbanos para se adaptarem rapidamente a um cenário de incertezas. Mais do que reagir a crises, cidades ao redor do mundo começam a redesenhar seus modelos de desenvolvimento com foco na resiliência, um conceito que une tecnologia, planejamento e, sobretudo, pessoas no centro das decisões.
O tema ganhou força na 7ª edição do Smart City Expo Curitiba, com debates sobre cidades sustentáveis e mudanças climáticas. Especialistas apontam um novo caminho: criar ambientes urbanos capazes não apenas de resistir, mas de se adaptar e responder a desafios ambientais, sociais e econômicos.

A jornalista Sônia Bridi falou sobre sua experiência na cobertura de eventos climáticos e como as cidades têm enfrentado os desafios impostos pelo clima. Para ela, as cidades se mostram cada vez mais vulneráveis às mudanças climáticas e, com isso, cresce a urgência de adaptação.
“As mudanças climáticas já estão acontecendo e são visíveis nas cidades: enchentes mais frequentes, ondas de calor mais intensas, secas prolongadas. Quem mais sofre são sempre os mais vulneráveis. Por isso, preparar as cidades não é mais uma escolha, é uma necessidade urgente para proteger vidas”, alertou.
Novas soluções urbanas
Uma das frentes desse movimento é a adoção de Soluções Baseadas na Natureza (SbN), que utilizam elementos naturais para resolver problemas urbanos. Na prática, isso significa investir em parques lineares que reduzem enchentes, áreas verdes que combatem ilhas de calor, sistemas de drenagem mais eficientes e sustentáveis, entre outros.

Para Roberta Moraes, CEO e founder da Global Youth Climate Alliance, essas iniciativas mostram que a resiliência urbana não depende apenas de grandes obras, mas da integração inteligente entre cidade, meio ambiente e pessoas. “As pessoas estão no centro das cidades resilientes, por isso acreditamos que a formação de jovens lideranças é algo tão relevante. As pessoas precisam saber que o mundo que elas querem depende da ação de cada uma delas”.

Para Edson Haluch, engenheiro e assessor da presidência do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná (CREA-PR), as cidades precisam estar estruturadas para serem mais resilientes às mudanças climáticas, o que envolve uma infraestrutura segura e confiável, pensada no bem-estar da população.
Especialistas apontam que a construção de cidades resilientes exige planejamento de longo prazo e governança integrada, envolvendo diferentes setores e níveis de gestão. Organizações como a ONU Habitat, das Nações Unidas, defendem que políticas públicas devem alinhar desenvolvimento urbano, sustentabilidade e adaptação climática, o que demanda coordenação, investimento e visão estratégica.
Tecnologia como aliada da resiliência
Nesse contexto, a tecnologia tem papel decisivo. Ferramentas baseadas em dados e inteligência artificial, por exemplo, permitem antecipar riscos e melhorar a resposta a emergências. Entre os avanços, destacam-se o monitoramento em tempo real de chuvas e alagamentos, o uso de algoritmos para prever eventos extremos e a integração de dados para gestão urbana mais eficiente.
Adriano Rosa, diretor executivo da Claro empresas, ressalta que a construção de cidades mais resilientes e inteligentes passa, necessariamente, pela capacidade de conectar infraestrutura, serviços e pessoas em tempo real e não há como dissociar esse avanço da tecnologia. O executivo explica que as soluções baseadas em conectividade, como redes de alta capacidade que possibilitam aplicações de IoT, vêm permitindo transformar áreas essenciais como iluminação pública, saneamento e gestão de utilities, tornando os municípios mais eficientes, sustentáveis e preparados para responder aos desafios urbanos. “Sem 5G e sem IoT, é praticamente impossível pensar em uma cidade inteligente. A tecnologia é o que garante atualização constante, baixa latência e capacidade de resposta, elementos fundamentais para cidades mais resilientes”, reafirmou.
Dados transformam gestão urbana
Esse uso inteligente de dados também fortalece a capacidade de resposta das cidades diante de situações críticas, permitindo maior eficiência na gestão de recursos e mais agilidade na adaptação a cenários de pressão urbana e ambiental. Um exemplo vem da cidade de Sorriso (MT), que implementou o Sorriso Mobi, em 2021. O aplicativo gera economia e traz mais agilidade ao deslocamento de servidores durante o expediente. Na prática, a plataforma utiliza dados para otimizar a mobilidade urbana.
Segundo Renê Ferreira das Neves, diretor da secretaria municipal de Transportes, a solução permite monitorar a movimentação de veículos em tempo real, melhorar rotas e oferecer mais previsibilidade aos usuários do transporte coletivo. “Com base em dados, a gestão municipal consegue identificar gargalos, ajustar itinerários e reduzir o tempo de espera, um impacto direto na rotina da população, especialmente de quem depende diariamente do transporte público”, completou.
Neves afirmou que a Prefeitura de Sorriso conseguiu economizar mais de R$ 3,5 milhões desde a implantação da ferramenta. “O melhor disso tudo é que contribuímos para uma gestão mais séria e justa. Com esta economia no transporte, a Prefeitura pode apoiar projetos das secretarias de Saúde, Educação e Segurança Pública, no município”, afirmou. Neves ainda contou que a plataforma foi desenvolvida por funcionários públicos. “Inteligência pública é desenvolver soluções dentro de casa. Transformamos a mobilidade administrativa em mobilidade inteligente”, concluiu.
